Prestes, mito, lenda e legenda

Capitão aos 23 anos, pediu demissão do exército, foi EXPULSO 10 ANOS depois. Uma vida de convicção e sacrifício.

Respondendo a muitos que postaram notas sobre os 74 anos da Revolução Comunista de 1935 (principalmente Edson Carvalho e Antonio Santos Aquino), devo esclarecer a posição do Capitão Luiz Carlos Prestes e a minha posição em relação a ele.

Sempre foi de pura admiração. Essas duas palavras que estão no título se adaptam perfeitamente a ele, como militar e como civil. Jamais fez concessão, nunca negociou convicções em troca de favores ou benefícios. Era tão sincero, autêntico e de tanta credibilidade que chegava a ser inacreditável.

Como eu contei e é fato histórico, Siqueira Campos e João Alberto foram a Montevidéu convidá-lo para liderar, chefiar e comandar a Revolução de 30. Prestes só aceitaria se fosse comunista. Poderia ter aceitado, assumido o Poder com a vitória e depois tentar mudar os rumos dessa vitória. Prestes não, seu padrão e seu comportamento eram inflexíveis.

Minhas diferenças e divergências com Prestes eram mais do que compreensíveis. No dia 25 de março de 1981, tivemos um grande debate, eu e ele, na Faculdade do Campo de Santana, no CACO. Lotadíssimo, quase não podíamos falar, a parte prestista maior do que a que me apoiava, o que é mais do que natural. Ele já era a grande figura de sua geração e de várias gerações, personagem da própria História do Brasil.

Estou citando o 25 de março de 1981, porque é uma data inesquecível para mim e para a Tribuna da Imprensa. Saí do Caco por volta das 23:30, fui para casa. Quando eram 4 horas da manhã me acordaram, a Tribuna havia sido destruída pela ditadura. (Estou lembrando os dados e a data, qualquer um pode verificar no arquivo da famosa e histórica Universidade).

Aquino citou o general Cordeiro de Farias,outra grande figura, amicíssimo do repórter. Em 1963, (no que se dizia em “plena democracia”) fui preso por ordem do Ministro da Guerra, Jair Dantas Ribeiro. Motivo: publiquei uma circular secreta, que o ministro mandou apenas para 12 generais, “confio nesses”. Um deles, Cordeiro de Farias me deu o documento sigiloso, que publiquei no dia seguinte. Preso no mesmo dia, meus advogados, Sobral Pinto, Adauto Lucio Cardoso, Prado Kelly e Prudente de Moraes, neto, foram procurados pelo próprio Cordeiro de Farias, que disse a eles: “Quem deu o documento ao Helio fui eu, não sabia que ia ter essa repercussão. Os senhores estão autorizados a revelar esta confissão”.

Eu estava incomunicável, quando meus advogados conseguiram falar comigo (por ordem do bravo e ínclito Ribeiro da Costa, presidente do Supremo), me contaram a conversa deles com Cordeiro de Farias. Recusei qualquer conhecimento com o general, resisti aos apelos para que reconhecesse a participação dele, isso nem passava pelo meu pensamento. Como poderia “entregar” uma fonte, mesmo com a autorização dela?

Fui julgado, pediram 15 anos de prisão para o repórter (enquadrado na Lei de Segurança), fui absolvido, mas por 5 a 4, no voto de desempate do presidente Ribeiro da Costa.

Para terminar com a independência e grandeza de Prestes. Em 1924, foi EXPULSO do Exército ao qual já não pertencia há quase 10 anos. Esse é o homem LENDA e MITO, cuja história foi quase sempre deturpada.

Só fui reencontrar Prestes em 1987 em Cuba. Nada ideológico, era apenas um extraordinário Seminário sobre DÍVIDA EXTERNA, com 4 mil participantes da América do Sul e Central. Do Brasil, 61 convidados, incluindo o próprio Lula. Desses 61, só dois ocuparam a tribuna: Prestes e este repórter.

Ideologia à parte, Prestes é dos maiores personagens brasileiros. Com a chamada “Coluna Prestes”, passou a ídolo nacional, adorado e admirado por milhões que nem sabiam o que era comunismo.

* * *

PS- 10 anos depois jogava tudo fora, passava 10 anos na prisão, somando 20 anos, (de 1926 a 1946) foi o brasileiro mais torturado de todos os tempos. Não cedeu o mínimo que fosse, achou que devia apoiar o ex-ditador, não hesitou um segundo. Do ponto de vista normal, era uma atitude incompreensível. Mas Prestes não ligava para isso.

PS2- Era insensato, sem dúvida, mas era Luiz Carlos Prestes. O mais generoso, desprendido e grandioso personagem que conheci. A ambição costuma levar os homens à perdição. Prestes se perdeu, precisamente por não ter ambição.

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