Primeira derrota política de Dona Dilma. O PT, quer dizer, José Dirceu, agora domina o partido, e o partido quer ser governo. Ganhou tudo, a presidente teve que antecipar o discurso do 1º de Maio, parece que ainda está em campanha.

Helio Fernandes

Enquanto o Planalto coordenava (e convidava) o senador Humberto Costa para presidente do PT, José Dirceu mostrava sua força, indicava para o cargo (que não estava vago) um personagem sem nenhuma ligação com a presidente.

Não só sem ligação, mas até hostil a ela. Dirceu escolheu o municipal, sem nenhuma repercussão nacional, Rui Falcão. No inicio da campanha presidencial, Dona Dilma não escondia que “detestava esse Rui Falcão, incompetente”, demitiu-o.

Em 12 dias, Dirceu consumou o fato. Sem sequer comunicar à Dona Dilma ou ao chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, que se julga muito poderoso. Desses 12 dias, Dirceu usou 7 para substituir José Eduardo Dutra, e os 5 para viajar a Londres e ficar longe de tudo.

Quando soube do fato já irreversível, a presidente que dizem ter personalidade extraordinária e chamada sempre de “durona”, fez o inimaginável e considerado impossível: com Rui Falcão já irreversível presidente do PT, (que é o partido do governo), telefonou para ele, “deu os parabéns”, convidou-o a ir a Brasília.

Ele foi, recebido com pompas no Planalto. Gente do próprio PT e do Planalto, garante: “Foi a primeira ida dele à capital”. Embora não tenha saído nunca de São Paulo, é municipal mesmo, acredito que alguma vez, sem ser notícia, deve ter ido a Brasilia.

Antes de viajar para Londres, misericordiosamente, Dirceu procurou José Eduardo Dutra, e falou, textual: “Dutra, não tive tempo para falar como você, minha vida é uma trabalheira completa, estou viajando para Londres, compromissos”.

Dutra não entendia nada, desinformadíssimo, esperava o que viria. E Dirceu, não implacável mas poderoso, comunicou: “O Rui Falcão é o novo presidente do PT, já foi referendado pelo partido. Você não será esquecido”. Isso, palavra por palavra.

José Eduardo Dutra, derrotado duas vezes para senador, com uma derrota no meio para governador, suplente de um senador do Sergipe que não conseguiu fazer ministro para assumir no Senado, sabidamente não muito brilhante, respondeu a Dirceu: “Isso é ótimo, estava querendo mesmo sair, estou com DEPRESSÃO e CONFUSÃO MENTAL”.

O ex-chefe da Casa Civil, que não é médico, e estava apressado, só depois ficou assombrado com a confissão do já ex-presidente do PT. Depressão muita gente tem, nada surpreendente. Mas assumir “confusão mental”?

Enquanto Dirceu viajava, Dutra foi falar com Dona Dilma, dizer que já não era mais presidente do PT. A presidente sabia, lógico, foi depois de ter falado com Falcão. Mas por que não disse nada ao então presidente do PT?

Sabia, e quando soube não derramou uma lágrima política ou eleitoral. Também achava absurdo um incompetente (ficou alguns meses presidente da Petrobras, tinha diploma de geólogo, a empresa andava mesmo numa fase em que nada dava certo) como Dutra, presidir o PT. Só não gostou da grosseria, mas achou que superaria isso.

Acreditava que Dirceu tivesse esgotado seu malabarismo político, estivesse satisfeito, dominar, controlar e exercer indiretamente a presidência do partido, considerava o máximo. “Não sabia da missa”, nem a introdução.

Voltando de Londres, Dirceu ficou satisfeitíssimo com a repercussão da nomeação-eleição de Rui Falcão. Apesar de cassado, (Dona Dilma “apostava” nisso para não ficar assustada com ele) consumou a segunda parte da jogada contra o Planalto.

Assumiu também a “reintegração” de Delubio Soares ao PT. Um dos maiores articuladores do “Mensalão”, cassado e mais do que isso, condenado pela Justiça, por irregularidades, falsidade ideológica e mais e mais. Precisava voltar ao partido para ser candidato a vereador por qualquer lugar, de preferência Goiás, onde já morou.

Dirceu não tinha nem tem o menor interesse pelo projeto, objetivo e ambições de Delubio. Mas viu a oportunidade de impor nova derrota aos que estão no Poder. Mandou convocar a direção do PT, cumpriram suas ordens. Compareceram 78 membros da cúpula do PT.

A articulação de Rui Falcão para presidente do PT, não ostensiva, toda tramada nos bastidores. Mas a “reintegração” de Delubio, pelo voto, aberta, quase em praça pública. O Planalto-Alvorada convocou ministros e governadores, não queria “outra surpresa”.

Dos 78, 61 votaram pela “reintegração”, como Dirceu determinou. Dois se abstiveram, então por que compareceram? E 15 votaram CONTRA a “reintegração”, entre eles os ministros e governadores convocados pelo Planalto-Alvorada.

Aí, só aí, Dona Dilma sentiu o golpe. Para uma personagem que fez a carreira e que tem os títulos que diz ter (ou pelo menos garante que tem), demorou a reagir, a resistir, se deixou coagir com muita facilidade.

Como resposta, decidiu antecipar o discurso de 1º de Maio, (feito por todos os presidentes e até os ditadores de todas as ditaduras) falou 72 horas antes. Precisava ser “uma fala do Trono”, como existia no Império.

Mas o discurso foi mediocrissimo. Depois de quatro meses no Planalto-Alvorada, não saiu do palanque, até o tom de voz era não o de presidente, mas sim o de “palanqueira”.

Não foi a “fala do Trono”, mas acabou salva pelo casamento real, que abafou tudo que Dona Dilma não disse. Sorte dela, como todos já estão fartos de saber, pois repetiu inteiramente o que dissera como candidata, está difícil de fazer depois da posse.

Dona Dilma não tomou conhecimento, nem da perda do PT, e muito menos (o que é mais grave) das “conclusões do censo do IBGE”, um dos órgãos mais importantes, mais sérios e de maior credibilidade do Brasil.

*** 

PS – Uma das afirmações, que atingem Dona Dilma, digamos que não nos 4 meses de agora, mas sim nos 4 anos em que mandou tanto, que acabou candidata.

PS2 – Textual do IBGE, atingindo fortemente Dona Dilma e até contradizendo seu discurso: “A MAIORIA DAS FAMÍLIAS BRASILEIRAS GANHA MENOS DE UM SALÁRIO MÍNIMO”. É bom ressaltar: “AS FAMÍLIAS”.

PS3 – Ela insiste: “Vou tirar 14 milhões de pessoas da miséria absoluta e colocar na classe média”. E o IBGE?

PS4 – Nem quero falar, agora, nas outras descobertas do IBGE. Uma grande afirmação de Dona Dilma na campanha: “Os nossos maiores investimentos foram no SANEAMENTO”. O IBGE diz que pelo menos 50 por cento das residências não têm SANEAMENTO.

PS5 – “Talvez tenham em 2070”. T-E-X-T-U-A-L.

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