Privilégios descabidos

Carlos Chagas

As festas de São João e a Copa do Mundo, singularmente emboladas, estão servindo para levar deputados ao aeroporto de Brasília com frenética freqüência. Chegam  num dia, voltam no outro. Quando chegam, é claro.

Por conta dessa movimentação surge a pergunta: por que Suas Excelências são raríssimamente vistos nas longas filas do check-in, nos balcões das companhias aéreas,  e menos ainda nas múltiplas e acanhadas salas de embarque? Nem eles nem suas famílias.

Porque dispõem de uma sala VIP, com todas as mordomias, inclusive a de embarcar primeiro nas aeronaves, conduzidos por gentis funcionárias, depois de aquinhoados com refrigerantes, sanduíches e bolinhos variados. Tudo longe da plebe ignara que cada vez mais viaja de avião. Só falta mesmo exigirem compartimentos separados durante os vôos, já que primeira classe e classe executiva inexistem nos trajetos domésticos.

Convenhamos,  não é nada. Não é nada mesmo, comparadas essas benesses com outras bem mais  cabeludas, como vultosas verbas de representação, contratação de montes de funcionários para trabalhar nos estados de origem e muita coisa a mais.

Mesmo assim, fica o registro de uma categoria que cada vez se afasta mais da população.  Ah, um lembrete que íamos esquecendo: os senadores também possuem sua sala VIP…

Um péssimo início

Ainda vai render esse episódio do dossiê que assessores da campanha de Dilma Rousseff iam preparando contra José Serra e sua filha. Porque se dúvidas inexistem com relação à trapalhada, até gerando as primeiras demissões e afastamentos, mais evidente fica a impressão de que as coisas não vão parar por aí.  O outro lado também não brinca em serviço, ainda que trabalhe com mais competência. Permanece na lembrança de todos a acusação de haver partido da turma de Serra a operação que fulminou a candidatura de Roseana Sarney, em 2002. Como nada se provou, fica apenas a frustração da governadora e do clã Sarney, dos quais surripiaram grandes esperanças,  à época.

Um fator, no entanto, deve ser registrado. Sabendo ou não de ante-mão o que alguns aloprados preparavam à sua sombra, Dilma não hesitou. Mandou que se afastassem, com honra ou com  desonra. Faz lembrar os tempos do único presidente da República que não vacilava ao primeiro sinal de denúncias contra seus auxiliares: Itamar Franco os dispensava em 24 horas, até ministros,  para que fossem provar inocência, se pudessem.

Elites em festa

Os neoliberais abriram  champagne, ontem, diante da manchete do jornal O Globo, dando conta de que o governo da Alemanha vai demitir 14 mil funcionários públicos e cortar gastos, inclusive  militares, em função da necessidade de prevenir a nova crise econômica.

É o que pretendem para o Brasil, sob a alegação de a máquina pública estar inchada, mas, na verdade, interessados em atingir o governo Lula.  Gostariam de demissões em massa, assim como da supressão de investimentos públicos e a revogação  dos poucos direitos trabalhistas salvados dos tempos do sociólogo. São essas as “reformas” que apregoam.  Também insistem em mais privatizações e redução da carga fiscal (deles).

O problema, para certas elites, é que nenhum dos candidatos presidenciais, a começar por José Serra, dá a impressão de querer adotar o modelo econômico antes praticado no Brasil.  Nem ele nem Dilma Rousseff, Marina Silva ou Plínio de Arruda Sampaio. Muito pelo contrário, estão bem longe do falido neoliberalismo os quatro pretendentes de verdade,  apesar de só dois disporem de condições de vitória.

Todos têm consciência da crueldade e da ineficácia de  fórmulas como a que a Alemanha começa a adotar, também  imposta à Grécia e à Hungria. Basta atentar para as reações.  Mandar a conta para a população significa despertá-la para protestos e mudanças  inusitadas, além de constituir-se em injustiça flagrante.  Se alguém deve pagar pela crise  são seus artífices, as elites. Demitir funcionários e reduzir investimentos públicos, penalizando as massas, não está na pauta do nosso futuro. Ou está?

Pascal e Descartes

Pascal e Descartes não se davam. Aliás, eram adversários, quase desafetos. Debatiam e discutiam sobre tudo, da física à filosofia. Certa vez, naquelas primeiras décadas do século XVII, discordaram sobre a existência do vácuo, que Pascal pregava com razão, em seus estudos sobre a pressão atmosférica. A frase de efeito, porém, coube a Descartes: “o vácuo só existe na cabeça do Pascal…”

Por que se conta essa historinha? Porque a Justiça Eleitoral encontra-se a um passo de dirimir a dúvida sobre a vigência  da nova lei da ficha-limpa, que o país inteiro quer ver aplicada nas eleições de outubro.  Será registrado um vácuo na sala de sessões do Tribunal Superior Eleitoral, por conta da prevalência da ordem jurídica sobre a voz rouca das ruas?

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