‘Procura-se o Estado’, desabafa o cidadão indefeso

Murilo Rocha
Ao ser questionado, na última segunda-feira, sobre a série de crimes violentos ocorridos no bairro Belvedere, na região Centro-Sul de Belo Horizonte, um morador, vítima de um assalto, propôs de maneira séria a construção de um muro para cercar o local. Sim, um muro para cercar todo o bairro.A proposta, completamente descabida, é só mais uma das inúmeras reações às quais os brasileiros têm recorrido todos os dias como forma de proteger-se ou tentar eliminar a violência crescente em todo o país.Crimes bárbaros, como a morte da dentista em São Paulo, queimada pelos assaltantes porque só tinha R$ 30, têm produzido uma população justificadamente aterrorizada, disposta a reagir a qualquer custo. Hoje, quando se fala em redução de maioridade penal, a maioria dos adeptos da medida não a defende como uma forma de diminuir a criminalidade ou de “correção” social, mas sim como uma ação para tirar esses jovens infratores do caminho, não interessando o destino imediato ou o futuro dos mesmos.

A ideia é como uma simples conta de subtração. Menos um.Um sistema econômico e social injusto, desigual e corrupto, como o mantido por representantes do Executivo, Legislativo e Judiciário no Brasil, em todos os níveis, cria adolescentes criminosos e cruéis, de um lado, como também vítimas acuadas e carregadas de um sentimento de ódio e de vingança, do outro.

OMISSÃO DO ESTADO

A omissão do Estado abre espaço para essa guerra brasileira, onde os dois lados querem excluir o “inimigo”. É como se consciente e conivente da sua própria incapacidade de oferecer serviços básicos, como a segurança, saúde e educação, o poder público no país lavasse as suas mãos e dissesse à população: resolvam entre vocês. E, assim vamos resolvendo, segregando ainda mais uma sociedade já dividida.
No caso da violência, em um dia, um universitário morre com um tiro na cabeça, no outro, a polícia executa cinco pessoas dentro de uma favela. E por aí vai.Cada lado chora suas vítimas e se arma para novas investidas, enquanto os governos não têm respostas para frear essa verdadeira barbárie em curso.
As propagandas sobre os investimentos em segurança, como a produzida pelo governo de Minas Gerais com a presença de um ator do filme “Tropa de Elite”, soavam antes como desperdício de dinheiro, hoje, são uma afronta, um deboche ao contribuinte.A discussão está sendo colocada de forma equivocada. Leis já existem, apenas não são cumpridas ou, geralmente, só valem para uma parcela da população. Se um Estado não garante o bem-estar, a segurança, a justiça, enfim, não media os interesses da maior parte da sociedade, ele não tem legitimidade para impôr-se nem sentido para existir. (transcrito do jornal O Tempo)
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