Professor se tornou espécie em extinção num ambiente muito hostil

Resultado de imagem para professor chargesEduardo Aquino/O Tempo   (Charge do Latuff, Brasil 247)

Vagas de pedagogia, magistério e congêneres se oferecem em muitas esquinas, longínquas cidades, remotas faculdades. Se preenchidas, se esvaem nos anos de graduação, e alguns gatos pingados (ou professores sagrados) mandam o convite de formatura, como se fosse foto de uma grande família.

Apanhar, ser agredido verbalmente, a absoluta falta de respeito, tudo isso  é um espinho que fere a dignidade dos mestres. Assim como o desinteresse galopante dos alunos (e dos pais, muitas vezes).

TERRENO BALDIO – A escola é, hoje, um terreno baldio. A sociedade joga ali o lixo de sua desumanidade, desigualdade e indiferença. Se, antes, a escola pública era exemplo e as privadas eram complementares, hoje a pirâmide se inverteu. Sim, aqui e ali, oásis de excelência se destacam no deserto.

Redundante falar que a educação é a base do sucesso de países que até quatro ou cinco décadas atrás estavam no quarto mundo, como Coreia, Singapura e outros tigres asiáticos, em especial a China.

Somos o somatório de nossos erros e acertos. O mundo é de quem o merece. Se os políticos e os que optaram por carreiras públicas só aprenderam a subtrair e dividir, o resultado só pode ser negativo. Conseguimos piorar a cada ano em todos os índices mundiais de avaliação de qualidade de ensino. Somos lanterninhas da competência.

MUITOS PROBLEMAS – Péssimas faculdades? Salários indignos? Famílias disfuncionais e desestruturadas? O vício desgraçadamente silencioso, espantosamente perigoso da tecnologia? A falência irreversível do medieval modelo, quadro-negro, giz, carteiras e, quando muito, um computador pré-histórico? Porções generosas de tudo isso e diversos outros temperos que se misturam e fermentam num caótico cenário de fim dos tempos, do salve-se quem puder, apague a luz o último a sair.

Tal qual a peste negra na Idade Média, os professores e os funcionários das escolas públicas vão caindo enfermos, inválidos, mortalmente atingidos por estresse, depressão, síndrome de Bournout (esgotamento aversivo, embotamento e robotização funcional).

Sobram discursos, guerras ideológicas esquizofrênicas entre facções entrincheiradas em modelos teóricos catedráticos, enquanto o mamute lento e preguiçoso das políticas públicas é tomado pela infecção sistêmica da corrupção, da burocracia e da falta de mérito.

NA VIDA REAL – Enquanto isso, na vida real, balas perdidas, greves, falta de professores ambientes físicos fantasmagóricos aparecem nas páginas policiais. E alunos terminam o ensino médio sem conseguir formular duas frases simples, analfabetos funcionais e apanhando de tabuadas básicas. E dá-lhe nudes, sexies, redes sociais. O smartphone alienante e emburrecedor, quando mal usado, o que é regra, e não exceção.

Se sou pessimista? Não, de jeito nenhum. Torço para que estrutura viciada e inviável caia de vez. Sonho com uma escola sem muros ou paredes, inventiva, estimulante, absolutamente nova e renovável a cada dia. Onde o prazer de frequentá-la traga satisfação e sensação de recompensa para alunos, professores, pais e funcionários. Um espaço multiuso que atraia a comunidade em seu entorno. Que se filosofe, desperte o desejo pelo conhecimento, amplie o horizonte existencial de todos nós. Que crie, invente, descubra soluções e caminhos para uma humanidade tão perdida. Será que é do interesse político e público? Ou a ignorância e a alienação são essenciais para manter o compadrio, a corrupção, o voto de cabresto e o coronelismo que campeiam neste grande e complacente “país do futuro”?

20 thoughts on “Professor se tornou espécie em extinção num ambiente muito hostil

  1. O Brasil, sem educação caminhando para guerras, e muros…

    Sem escola… Sem chance… Para ninguém…
    Nem para os que podem pagar e cursar as melhores escolas do Brasil…

    Peco licença para escrever, aos leitores da TI, sobre minha experiência com educação, dividindo o texto para não criar postagem longa demais:

  2. Minha filha foi retirada da escola, na Inglaterra, aos 8 anos de idade, quando cursava o terceiro ano primário, e foi morar, numa floresta, sem eletricidade, nem sinal de telefone, a 70 km/dia de distância dos recursos da cidade (escola, etc.)…

    Meu filho, que aos 12 anos, passava 8 horas por dia de terno e gravata, em uma Grammar School, com o primeiro vestibular da vida já vencido, (aqui, aos 11 anos só bom aluno vai para escolas Grammar ser ‘letrado’, o resto da turma vai para outro tipo de escola, preparatória, trabalhos manuais, etc), se vê, de repente no ‘meio do nada’, com uma alfange (gadanha, alfaia) na mão e a ‘perspectiva’ de passar alguns anos vivendo de agricultura familiar, com os pais e a irmã…

  3. Escola?

    Por 5 anos meus filhos foram 1 vez por semana á cidade, para estudar e socializar.
    O Município proporcionando natação, depois escola de surf, bem cedo.

    Eu pagava pelos ‘estudos’ numa Lan House – 2 ou 3 horas estudando na melhor plataforma de ensino online, a ‘Khan Academy’.
    Professores, só para eles, no fone de ouvido. Aulas virtuais excelentes, com professores excelentes, bem pagos( grana do Bill Gates, etc), didática primorosa e recursos de recapitulação que efetivam um ensino, ao meu ver, muito melhor que a sala de aula coletiva, onde desvia-se a atenção por toneladas de motivos, no Brasil…

    Servia para meus filhos buscassem compatibilizar com o nível de ensino que estariam cursando na escola comum…

    Fim de tarde, o Municipio disponibilizava mais aulas, esporte pro filho, dança e artes para a filha. Depois, de volta a floresta…

    Os parentes intimavam, ‘que eu devia ser preso’, por ter meus filhos em regime de educação domiciliar.

    A Secretária de Educação da Cidade nos visitou, mas só conseguiu insinuar, meio sem graça , que praticáva-mos algo ilegal no Brasil, pois via alí, a maior prova de que educação domiciliar pode dar certo…

  4. Houveram motivos reais para essa mudanças na educação dos filhos.
    Tivemos, eu e esposa, que retornar ao Brasil para resolver pendências familiares (espólio, etc); demoramos quase 6 anos para retornar os filhos a escola, devido á morosidade do Sistema Jurídico Brasileiro.

    Oferecemos aos filhos a oportunidade de morar na cidade, enquanto no Brasil, e cursarem uma escola. Visitamos todas, as publicas, as particulares, a da cooperativa de pais mais abastados…
    Acostumados com ensino em tempo integral, eles recusaram todas…

    ————————

    O filho cresceu, incorporou a vida da roça, da agricultura familiar, o conhecimento da floresta.

    A filha cresceu, um tanto rebelde, ás vezes cobrando o retorno a escola, seu medo de ter ficado para trás”; em suma: -” E aí pai? Vou ficar burra, tendo só o terceiro ano primário?”…

    Meus filhos foram retirados do registro do Sistema de Ensino Ingles e colocados em regime de educação domiciliar legalmente. Na Inglaterra vale o “homeschooling” devido a fatores como raça, religião e costumes variados dos povos que residem no Reino.

    Mesmo sabendo que meus filhos seriam re-inseridos no Sistema sem perda de anos letivos, inúmeras foram as vezes que me questionei se estaria fazendo o bem, ou algo de muito errado no que tange à educação acadêmica deles…

    Hoje, dois anos após o retorno dos meus filhos a Escola, tenho como afirmar, com certeza, que deu certo.

  5. Daqui, deste “exílio da p’rra” (no momento 4 graus, o dia todo com rajadas de vento a 50km/h, derrubando tudo), o povo já vai começando a ficar “verde” pela falta de luz do dia (sol) e nem chegamos no inverno ainda…

    Mas, olho pela janela de casa e vejo a Academia… Uma super escola, co-operativa, com grandes mestres, onde minha filha passa 8 noras por dia, estudando.

    Ela acaba de ser premiada por estar, no Exame Nacional (GCSE’s), entre os 3% do Reino com notas mais altas em Literatura Inglesa, além de ter saído em fotos, no jornal, com outra colega (também estrangeira) por terem, juntas, obtido um total de 27 notas máximas nos exames.

    No fim deste mês haverá a entrega dos premios, como no ano passado, em que ela recebeu troféu e medalha, numa cerimônia onde ate a Mayor (prefeita) faz discurso, portando daqueles colares de 6 quilos de ouro, coisa dessa sociedade britânica, que tanto admira condecorar…
    É protocolo social, mas o que isso tem a ver com educação… tenho minhas duvidas se é a floresta ou a cidade o verdadeiro ‘jungle’…

  6. Meu filho, hoje com 21 anos, cursando segundo ano de Biotecnologia Ambiental, primeira turma de um curso inovador. A Universidade (a 2km, de bicicleta), é ‘jovem’, menos de 50 anos, bem ranqueada.
    Ele paga R$4000,00 por mês, todo mês, dinheiro que ele mesmo ganha, trabalhando 24 horas por semana, em dois empregos, que é pra ir acostumando-se com as responsabilidades da vida.
    Ele esta muito, mas muito mais preparado que os estudantes que não deixaram a rotina do modelo educacional vigente.

    Ele foi o escolhido para representar seu curso, em vídeo, na pagina da da Faculdade de Biologia no website da University of Plymouth.

    https://www.plymouth.ac.uk/courses/undergraduate/bsc-environmental-biotechnology

  7. Quando penso no trabalho que teria para proporcionar aos meus filhos, no Brasil, uma educação acadêmica como esta que eles estão recebendo, e constato que nenhum trabalho nem todo dinheiro pode, no momento, proporcionar em solo Brasileiro nada parecido, faço valer ‘o exílio’…
    Fui educado no Brasil, não fosse a Academia para meus filhos, nada tenho a fazer aqui…
    Vale muito, mas foi necessidade, não desejei isso para mim nem desejo para nenhum de nós, Brasileiros.
    Acontece de eu acreditar na Educação como a única coisa verdadeiramente real que eu posso deixar com meus filhos quando eu me for, desta vida.

  8. Se o Brasil puder disponibilizar ao seu povo um Sistema Educacional novo, inovador, efetivo, tudo se transformará.

    Há uma frase de Juscelino. inscrita em pedra, no Memorial JK, em Brasília:

    “Tudo se transforma em alvorada nesta cidade que se abre para o Amanhã”

    Reflitam quanto à educação dos nossos governantes, tanto atuais quanto a dos pretensos candidatos a tomarem a gestão desta cidade, deste País…

    O Amanhã do Brasil depende proporcionalmente da educação que tiver o Povo Brasileiro.

    Li ontem, na web, esta frase: ” … “a percepção de que tu és um elo de continuidade entre o passado ancestral e o futuro da humanidade. Ergue-te sobre teus pés e começa a agir sobre essa verdade irrefutável”.

    • Muito interessante e importante a experiência educacional da família de nosso amigo André Cardoso, no Reino Unido. E a gente nem queria tudo isso. A princípio, bastava ter prosseguimento o programa dos CIEPs. Como avisou Darcy Ribeiro, não construímos escolas, estamos precisando construir presídios. É decepcionante. Nosso políticos não valem um dólar furado.

      CN

    • Meus parabéns André. Acredito que você venceu. Eu fiz o inverso, saí do quase campo para a cidade grande em busca de ensino de qualidade. Estou um tanto frustrado. Sem falar que gastei uma fortuna que hoje me faz falta.

  9. De fato, muito interessante o que o leitor e comentarista André Cardoso discorreu sobre a experiência educacional que os seus filhos estão experimentando na Inglaterra.
    No entanto, o amanhã do Brasil ou de qualquer outro país SEMPRE estará diretamente vinculado à educação que proporcionar ao seu povo.
    A EDUCAÇÃO É A VIGA MESTRE DE UMA NAÇÃO!

  10. Estamos nesta triste situação por sermos dirigidos por bandidos. Peguem os nomes com a Polícia Federal e MPF. São pessoas preocupadas apenas com privilégios pessoais. O povo não vale nada. Mas observo que os privilégios estão relacionados diretamente com o descaso. Quanto mais privilégios, maior o desprezo pelo povo e por tudo o que lhes pertence. Um ex ministro inglês, quando no cargo, tomava avião de carreira pra sair de férias com a família. Isto aqui é impensável.

  11. 1) Parabéns André BR.

    2) Fiz parecido, desde as primeiras horas de nascida, educamos nossa única filha de acordo com o Budismo.

    3) Foi um Laboratório magnífico que ainda vou escrever…

    4) Hoje ela tem doutorado na França e é pesquisadora (pós-doutorado) na Universidade Autônoma de Madrid.

    5) Conto não por vaidade, mas para agradecer à Filosofia Budista que nos deu e dá tanto embasamento.

    6) Eu? Sou professor do Estado, RJ, leciono na Baixada Fluminense, felicíssimo graças ao Buddha.

    7) Excelente artigo do Eduardo Aquino.

  12. Creio que na atual guerra civil, o ideal seria deixar de ser OBRIGATÓRIO a presença diária do aluno na sala de aula e a REPROVAÇÃO por faltas.Bastaria o aluno fazer avaliações semanais ou mensais. Ainda mais quando é possível estudar qualquer conteúdo com o emprego da internet.
    -Com isso diminuiria a exposição das crianças aos traficantes, aos maus elementos, à falta de segurança pública e à violência diária.

    Abraços.

  13. Hoje, o antigo professor não existe mais!

    E os atuais? Sem dize que todos assim são, boa parcela não é respeitada por que também não se dão respeito;

    É agredida, moral e fisicamente, por que também agride;

    Misturou ideologia política partidária com politica da educação – escolarização;

    Permitiu e acatou a mistura entre coisas tão diferentes: escolarização (sua responsabilidade) e educação (responsabilidade da família);

    Permitiu e acatou a transformação de sua MISSÃO com profissão;

    Perdeu qualidade e qualificação;

    Quantos professores fizeram a opção de colocar filhos na escola particular, quando professores da escola pública;

    Perderam o respeito, a admiração e o valor perante a sociedade;

    E nós perdemos aqueles que serviram de referência, de exemplo e de modelo para fundamentos no início de nossas vidas.

    Paro por aqui. O tema é muito amplo, complexo e de soluções que mexerão, se resolverem realizar, com todos os segmentos.
    Uma missão deste tamanho jamais será feita por algumas poucas cabeças e poucas mãos.

    O autor está de parabéns. Agradeço a ele e a nossa TI por ter proporcionado estes momentos. Dentro de minhas limitações (de tudo), buscarei utilizá-lo e auxiliar também no debate.
    Fallavena

  14. Quem quer ser professor(a) neste país, as crianças de hoje são rebeldes, não tem educação, acham que podem desrespeitar o mestre, não vale a pena.

  15. Em postagens mais antigas, 2014, eu contei como o governo baiano estava na vil tarefa de fechar as escolas estaduais, hoje, novo governador, mas a prática estúpida continua, junto com a desvalorização dos professores. Uma coisa que não é divulgada é que boa parte dos professores de escolas públicas possuem especialização, mestrado e doutorado, coisa não vista na rede privada, e porque o ensino público é pífio? Porque o governo assim o quer. Eu tenho publicações fora do Brasil, participei de vários eventos de geografia a exemplo do EGAL, (Encontro de Geógafos da América Latina), além dos eventos em solo brasileiro, nada disso é aproveitado pela Secretaria de Educação, tenho um amigo, geógrafo também, que faz parte da comissão científica do Workshop de mudanças Climáticas, realizado anualmente em Recife, ele possue Mestrado e Doutorado em Climatologia, também é relegado ao trabalho rotineiro de amestrador de adolescentes irritados. Concordo com o Eduardo Aquino, quando afirma que “é ali que a sociedade joga seu lixo”, o professor da escola pública de hoje é nada mais que um badameiro social, sobrevive de garimpar o lixo que a sociedade descarta na Escola Pública. Somos os párias de uma sociedade que privilegia médicos e advogados, como profissão de destaque, para as classes abastadas, o trabalho de professor serve de consolo para as pessoas com menos capacidade, os mais pobres. Porisso chegamos a essa situação, vamos continuar culpando os professores pelos fracassos dos filhos da pobreza?

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