Promessas eleitorais que o vento levou

Pedro do Coutto

A campanha eleitoral deste ano pela presidncia da Repblica alis no estilo de sempre est sendo travada com base em um mar de promessas, algumas que s podem ficar mesmo no papel. Pois palavras, diz o velho ditado, o vento leva, e, com o tempo, compromissos so esquecidos. Ainda no foram colocados projetos econmicos, sociais e polticos capazes de se concretizar. Biografias de Dilma Rousseff, Jos Serra e Marina Silva pouco interessam. Pertencem ao passado, mas ns estamos em tempo de futuro, quase virando a pgina do presente, j que o mandato de Lula termina no alvorecer do ano novo que se aproxima. Antes, porm, as urnas. Na edio de quarta-feira da Folha de So Paulo, o historiador Marco Antonio Villa publicou um bom artigo sobre o que considera a despolitizao do debate ideolgico.

No devemos interpretar a palavra ideolgico na traduo das eleies de 1960, quando era ntido o confronto parcial entre direita e esquerda, em torno do centro do poder. No. Certamente Marco Antnio fez a colocao, pelo menos a mim parece isso, no sentido do embate das idias. Est sem dvida faltando este embate. Entretanto, como sou otimista, espero que ele saia do oceano convencional para uma superfcie vivel dentro da realidade brasileira. O povo ter a ganhar e poder dar seu voto de maneira mais consciente e sobretudo consistente. Atravs das ltimas dcadas, iluses e promessas se foram com o vento. Vejam s os leitores.

Na sucesso de 60, Jnio Quadros afirmou na campanha que a bandeira da democracia e da liberdade no cairia de suas mos. Renunciou sete meses depois tentando fechar o Congresso e se transformar em ditador. Este exemplo emblemtico. Mas existiram outros numa sequncia impressionante, mais importante uns, menos outros.

Sem preocupao de ordem cronolgica e grau de impacto, aqui seguem outras decepes resultantes dos gestos no confirmarem as palavras. O governador Moreira Franco, ao tomar posse, assegurou que acabaria com a violncia no Rio de Janeiro no espao de cem dias. O general Castelo Branco, ao chegar presidncia do pas em 64, garantiu que o movimento militar que derrubou Joo Goulart foi desfechado para manter o regime democrtico. O ciclo dos generais no poder como escreveu lio Gaspari em sua obra implantou a ditadura at que fosse destroada pelos fatos polticos. O general Costa e Silva, contra a vontade de Castelo, chegou ao Planalto. Afirmou que implantaria uma nova Constituio para garantir as liberdades pblicas. Dois meses depois era praticamente deposto pelo Alto Comando que determinava cassaes e mandava em tudo. A expresso habeas corpus desapareceu dos dicionrios. O general Mdici anunciou que reuniria as pedras do passado para, no presente, construir o futuro.

Em dimenso menor, no plano do Rio de Janeiro, na campanha de 86 pela Prefeitura, Cesar Maia anunciou a implantao de um monorail ligando a Barra da Tijuca ao Leblon. O projeto ficou nas telas da TV, at hoje. Nunca mais se falou no assunto. Projetou a Cidade da Msica e chegou at a inaugur-la precariamente. Assim passaram os anos, e ainda no terminou. Eduardo Paes quem pode responder sobre o destino do projeto.

Para no estender demais a lista, voltemos ao plano federal. Fernando Collor elegeu-se contra os marajs do servio pblico e a corrupo, mas criou o fantasma Paulo Cesar Farias. Sarney instituiu o Plano Cruzado em fevereiro de 86, congelando os preos. Mas s at 16 de novembro do mesmo ano, logo no momento em que os votos eram apurados. FHC estabeleceu a paridade entre o dlar e o real. Durou pouco o sonho. Os eleitores esto cansados de ser iludidos. Chega de farsa.

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