PT e PMDB deveriam repetir Osvaldo Aranha e libertar Dilma

Pedro do Coutto

Francamente, tanto o PT quanto o PMDB, que formaram a coligação vitoriosa nas urnas de outubro, deveriam repetir o exemplo famoso de Osvaldo Aranha, em 1951, e libertar Dilma da rigidez dos compromissos políticos e deixá-la à vontade para formar o ministério e preencher os cargos de que dispõe nas empresas estatais. Seria mais político e sobretudo estratégico, pois como se está vendo pela escolha dos nomes definidos, a equipe é nitidamente provisória, um ministério de experiência. Pode dar certo, como pode não dar e exigir substituições ao longo do percurso do governo que amanhece a primeiro de Janeiro.

Citei o chanceler Osvaldo Aranha, embaixador do Brasil na ONU e primeiro secretário-geral das Nações Unidas, porque ele, em 1951, depois da vitória estrondosa de Vargas na sucessão de 50, e diante das pressões partidárias que iriam levar a impasses, reuniu a imprensa e, numa entrevista coletiva, afirmou: “Libertemos Getúlio Vargas. Deixemo-lo (estilo gaúcho) escolher à vontade”.

Pressões capazes de levar a aceitações forçadas nada resultam de permanente. Tinha Razão. Tanto assim que Vargas constituiu um ministério que classificou como provisório. Aranha, por ironia do destino, não integrou a equipe no início da administração.
Só foi convocado em 53, quando o presidente da República o nomeou ministro da Fazenda. Em que dia assumiu a pasta? A 24 de Agosto de 53. Um ano depois, Vargas deixaria a vida para ingressar na história, como escreveu na sua carta testamento, documento mais dramático da política do país.

E tanto  o ministério era provisório que, um ano depois, Tancredo Neves substituiu Negrão de Lima na Justiça. Antonio Balbino entrou no lugar de Simões Filho na Educação, João Goulart entrou no lugar de Danton Coelho no Trabalho. Vicente Rao substituiu João Neves da Fontoura nas Relações Exteriores. No ano difícil de 53, quando Goulart foi derrubado da Pasta do Trabalho pelo manifesto dos coronéis, Segadas Viana entrou no lugar de Jango. Mas estes fatos todos, hoje, pertencem à memória nacional. Servem, entretanto, de paradigma. Pois não existem ministros definitivos, da mesma forma que a História desconhece pessoas insubstituíveis.

Escrevi outro dia que não há, no mundo, duas pessoas iguais. Da mesma forma na há dois governos iguais. E tampouco a equipe que começa o jogo geralmente não o conclui de forma integral. As substituições fazem parte da convergência e divergência de estilos, projetos, vontades, como é próprio do relacionamento humano. Existem homens e mulheres que se comunicam bem com outros, e há também os que não se comunicam plenamente entre si e em relação a vários membros de uma equipe. Inclusive, pela forma que adotou para escolha, Dilma Rousseff deixou isso claro.

Resistiu ao máximo para convidar Fernando Haddad, apesar dos esforços de Lula. Vai nomeá-lo contra a vontade. Por decisão própria não o faria. Como vetou de plano a permanência de Henrique Meirelles no Banco Central e de Celso Amorim no Itamarati. Este, inclusive, ela o criticou direta e publicamente ao condenar o posicionamento brasileiro em relação ao Irã. Por seu desejo pessoal, não nomearia, ou não nomeará, Juca Ferreira para a Cultura.

Vários outros exemplos poderiam ser citados. Mas o mais importante é que aqueles que são nomeados por pressões indesejáveis não vão se manter muitos meses nos postos. É sempre assim, é da política. A articulação parlamentar é também da política, pode-se argumentar em contrário. Mas só superficialmente. Pois se, por hipótese, o PMDB rompesse,  o PSDB de Aécio Neves ocuparia imediatamente seu lugar. Libertemos Getúlio – afirmou Osvaldo Aranha. Lula deveria aproveitar o episódio para repetir o tema e a tese: “Libertemos Dilma Rousseff”. Até porque não adianta nada aprisioná-la em esquemas rígidos.

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