Putin, impecável, no xadrez político contra os EUA

Pepe Escobar
Site RT

Embora enfrente o que, analisado sob sejam quais forem as circunstâncias, é uma tempestade perfeita, o presidente Putin teve desempenho extremamente equilibrado na sua maratona anual de conferência e sessão de perguntas e respostas com a imprensa.

A tempestade perfeita desdobra-se em dois fronts: uma guerra econômica aberta – com o país sendo sitiado por sanções; e um ataque de sombras, preparado, urdido, clandestino, contra o coração da economia russa. O objetivo de Washington é claro: quer minar o adversário, serrar-lhe os caninos, para forçá-lo a curvar-se humilhado ante os desejos do “Empire of Chaos”. E sem parar de vangloriar-se de que esse seria o caminho para a ‘vitória’ de Washington.

A dificuldade é que Moscou decifrou com acerto impecável o jogo – já bem antes, quando Putin, no Clube Valdai, pôs o dedo na doutrina Obama: “é como se nossos parceiros ocidentais, os próprios pais de teorias do caos controlado não soubessem o que fazer da própria criatura.”

Assim sendo, é claro que Putin já tinha ferramentas para compreender o ataque monstro de caos controlado, dessa semana. O Império tem massivo poder de dinheiro; muita influência sobre o PIB de $ 85 trilhões do mundo, e o poder do banking [da bankerada] por trás disso tudo. Assim sendo, nada mais fácil que usar esse poder mediante os sistemas de banking privado que realmente controlam os bancos centrais, para criar uma corrida contra o rublo. O sonho do ‘Empire of Chaos’ é, pode-se dizer, derrubar o rublo até que tenha caído 99%. A economia russa terá sido convertida em destroços. Que melhor meio para impor à Rússia a tal ‘disciplina imperial’?

A OPÇÃO “NUCLEAR”

A Rússia vende petróleo denominado em dólares norte-americanos ao ocidente. A empresa LUKoil, por exemplo, tem de receber um crédito em dólares norte-americanos, num banco norte-americano, para pagar pelo petróleo que os russos vendem. Se a LUKoil tem de receber rublos, então o comprador tem de vender os dólares que tenha depositados e comprar correspondentes créditos em rublos para abastecer a própria conta bancária. Isso, de fato, apoia o rublo. A questão é se Lukoil, Rosneft e Gazprom estão acumulando dólares norte-americanos no exterior e segurando os dólares. A resposta é não. E o mesmo se aplica a outros negócios russos.

A Rússia não está “perdendo suas poupanças” como gargareja a imprensa-empresa ocidental. A Rússia sempre pode exigir que empresas estrangeiras mudem-se para a Rússia. A Apple, por exemplo, pode abrir uma unidade fabril na Rússia. Os recentes negócios firmados entre Rússia e China incluem construção de fábricas chinesas na Rússia. Com um rublo depreciado, a Rússia pode forçar fábricas que foram deslocadas para a União Europeia, a se instalarem na Rússia; é isso, ou essas empresas perdem o mercado. É verdade que Putin, de certa maneira admitiu que a Rússia deveria já ter feito há muito tempo o que só agora fez. Agora, o processo – positivo – é inevitável.

DINHEIRO EUROPEU

E há uma opção “nuclear” – que Putin nem precisou mencionar. Se a Rússia decide impor controles sobre o capital e/ou impor um “feriado” no pagamento de enormes parcelas da dívida que vencerão no início de 2015, o sistema financeiro europeu conhecerá dias de bombardeio à moda “Choque e Pavor”. Afinal, grande parte dos financiamentos bancários e privados russos são levantados na Europa.

O ‘calote’ da Rússia, por ele só, não é a questão. A questão é a conexão com os bancos europeus. Como me disse um banqueiro de investimentos americano, Lehman Brothers, por exemplo, derrubou a Europa, praticamente tanto quanto derrubou New York City – por causa dos inter-links. E Lehman, claro, tinha sede em New York. O que conta é o efeito dominó.

Se a Rússia servir-se dessa opção “nuclear” financeira, o sistema financeiro ocidental não conseguirá absorver o choque do calote. O que provaria cabal e completamente – de uma vez por todas – que os especuladores de Wall Street construíram um ‘Castelo de Cartas’ tão frágil e corrupto, que a primeira tempestade que se abater sobre ele o reduz a pó.

À CURTA DISTÂNCIA

E se a Rússia faz o calote – e cria a mais alucinada confusão da dívida de $ 600 bilhões, do país? É o cenário que levou os “Masters of the Universe” a mandar Janet Yellen e Mario Draghi criar créditos nos sistemas de banking para prevenção de “dano indevido” [orig. “undue damage”] – como em 2008.

Mas então a Rússia decide cortar o gás natural e o petróleo para o ocidente (mantendo normal o fluxo para o oriente). A inteligência russa pode criar inferno non-stop nas estações de bombeamento, do Maghreb até o Oriente Médio. A Rússia tem como bloquear todo o petróleo e todo o gás natural bombeado em todos os ‘-stões’ da Ásia Central. Resultado: o maior colapso financeiro da história. E fim da panaceia excepcionalista do ‘Empire of Chaos’.

Claro que esse é cenário de apocalipse. Mas não provoquem o urso; ursos são muito rápidos.

TOTAL AUTONOMIA

Putin falou com tanta segurança, tão calmo, tão concentrado – sempre interessado em expor detalhadamente cada ponto – naquela conferência de imprensa, porque ele sabe que Moscou pode mover-se com total autonomia. Claro que, sim, é guerra assimétrica contra um império que está desabando, perigoso. O que pensam da vida aquelas ratazanas intelectualmente subdotadas que enxameiam em torno de Obama Pato Manco? Que convencerão a opinião pública nos EUA – no mundo – de que Washington (de fato, só os cachorrinhos europeus) declarará guerra nuclear, a ser combatida no teatro europeu, em nome do estado falido da Ucrânia?

É jogo de xadrez. O ataque contra o rublo foi concebido para ser o xeque-mate. Não é. Nunca seria, jogado por jogador medíocre. E não esqueçam a parceira estratégica Rússia-China. A tempestade talvez esteja amainando, mas o jogo continua.

(artigo enviado por Sergio Caldieri)

6 thoughts on “Putin, impecável, no xadrez político contra os EUA

  1. O presidente russo Putin, ex agente da KGB, representa hoje um perigo para o mundo. Ele sonha em reerguer a extinta URSS, como se algum império decaído pudesse ressuscitar das sombras, como se algum império já tivesse reerguido, depois da queda.
    O Sr. Putin tem planos hegemônicos para a Russia, e todos nós já conhecemos aonde vai dar os delírios daqueles que querem mandar no mundo.
    Putin tem como ideólogo um “camarada’ chamado Duguin, homem com ideias perigosas, que afirma que os russos possuem superioridade racial, ao estilo nazista.
    Os russos nunca conheceram a liberdade, desde a época dos czares, passando pelos horrores perpetrados por Lenin,Stálin, sempre tiveram líderes despóticos, cruéis, perversos, o que explica homens como ele gozar de 80% de aprovação popular.
    O Sr. Putin promete diversificar a economia russa, hoje dependente das exportações de óleo e gás, mas essa não é uma tarefa fácil, pois terá que propiciar ambiente econômico favorável a competição, criatividade, concorrência, e só o capitalismo, até então, criou este economical environment.

    • Análise certeira.

      Longe de mim querer pautar a Tribuna, mas penso que seria interessante um artigo esclarecendo o público sobre o cretino Alexander Dugin – o “Rasputin” do século XXI – e sua malfadada Quarta Teoria Política, influência filosófica do Eurasianismo de Putin e sua aliança (como ele mesmo chama) anti-Ocidente ou “anti-civilização atlântica”.

  2. A meu ver, o NACIONALISTA Presidente PUTIN da Rússia como diz o artigo, está só se defendendo, e se defendendo bem. Se ele fosse um bandido que está no ataque, como lhe pintam em certa Imprensa, ele estaria pressionando os EUA para devolverem o Alaska, comprado a preço de bananas de um Czar da Rússia do século XIX. E ninguém pode negar, que mesmo assim, ele teria bom argumento.

  3. A médio prazo, as sanções economicas à Russia podem ser revelar “um tiro no próprio pé” para a Europa. Já se vê queda importante de exportações (ao redor de 30%) da Alemanha, Polonia, Estonia, Lituania, Letonia, etc para a Russia. Claro que isto também é péssimo para a Russia. Quem viver verá o que vai ocorrer.

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