Quando a histria se repete

Carlos Chagas

Geralmente como farsa, diziam Marx e Lnin sobre as repeties da Histria. Exemplo mais recente o PAC II. Os mais velhos lembraro que o marechal Castello Branco quis fazer tudo num curto espao de tempo, j que apenas completaria o mandato surripiado de Joo Goulart. Mesmo tendo prorrogado seu perodo de governo por um ano, ficou no poder apenas de abril de 1964 a maro de 1967.

Faltando dois dias para passar a faixa presidencial ao marechal Costa e Silva, o primeiro militar daquele ciclo de 21 anos deixou-se seduzir por seu ministro do Planejamento, Roberto Campos, e divulgou um Plano Decenal. Foi ridculo, alm de inusitado, porque o segundo presidente no era, propriamente, das boas graas do antecessor. Muito pelo contrrio, Castello engoliu seu ministro do Exrcito mais ou menos como um imenso sapo.

Informado de que estavam tentando engess-lo, Costa e Silva no perdeu o bom humor, que parte de seus auxiliares teimava em demolir. Disse apenas ao ministro da Fazenda j escolhido, Delfim Neto, que colocasse aquele Plano Decenal no fundo de uma gaveta e s abrisse no ltimo dia de seu governo. Assim foi feito, para horror de Roberto Campos.

Pois vem agora o presidente Lula e lana o PAC II, antes mesmo de o PAC I ter realizado a metade de suas promessas. Um elenco mal detalhado de realizaes que, imagina o primeiro-companheiro, sero seguidas risca pelo sucessor.

Mesmo se vier a Ser Dilma Rousseff, no vai dar fora das pranchetas. Um trilho e meio de reais no se disponibilizam assim to facilmente. Quantas vezes o inusitado bater porta do futuro presidente, na forma de surpresas da natureza ou de trapalhadas verificadas no funcionamento da economia mundial e nacional?

Pior ainda se o futuro presidente chamar-se Jos Serra. Por que estaria ele obrigado a ficar sufocado num modelo ilusrio? Melhor teria feito o presidente Lula se dedicasse os ltimos nove meses de seu mandato a viabilizar o PAC I, sem sonhos de grandeza ou megalomania. O programa que, para ajudar Dilma Rousseff, parece valer tudo. At transformar a Histria numa farsa.

PMDB oxigenado

Com a divulgao da mais recente pesquisa eleitoral da Datafolha, ganhou o PMDB mais um tempo de oxignio. Ficou demonstrado, at prova em contrrio, que o PT precisa do maior partido nacional para emplacar Dilma Rousseff no palcio do Planalto. Operao que tem um preo. No caso, a possibilidade de o presidente Lula ter que aceitar Michel Temer como companheiro de chapa da candidata.

Nenhuma operao parece concluda, claro. Dezenas de outras pesquisas sero feitas e divulgadas. Mas mudou o volvel quadro eleitoral, com a ascenso de Jos Serra depois que Dilma dava a impresso de hav-lo alcanado. Recusar a indicao de Michel Temer poder ser fatal para a eleio da me do PAC. Em So Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, pelo menos, os dirigentes locais do PMDB j se encontram comprometidos com Jos Serra. Humilhar o presidente nacional do partido com a negativa de sua aceitao equivaler a romper o instvel equilbrio de foras partidrias.

Alguma coisa melhorou

No d para esquecer o que aconteceu no final do governo Fernando Henrique, quando boa parte de seus ministros tratou de cuidar da vida. Muitos integrantes da equipe econmica e penduricalhos deixavam o governo para fundar bancos singulares, daqueles que no tinham clientes nem agncias. Dedicavam-se a utilizar conhecimentos adquiridos no segredo da burocracia para especular, ganhar dinheiro e amealhar clientes em grupos econmicos interessados em multiplicar seu patrimnio a qualquer custo.

Agora, pelo menos, no est sendo assim. Os ministros que pedem para sair antes da hora o fazem por razes eleitorais, para disputar as eleies de outubro. O prprio presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, sonha com a vice-presidncia na chapa de Dilma Rousseff ou na senatoria por Gois. No lhe passa pela cabea fundar uma arapuca de investimentos ou voltar presidncia de bancos internacionais. Menos mal.

No quer nem ouvir falar

O j quase ex-governador de So Paulo recusa-se a discutir qualquer referncia a quem poder ser seu companheiro de chapa. Desconversa, na primeira sondagem, enfatizando que apenas em junho o tema ser colocado para decises. H quem suponha a razo principal: Serra ainda confia em que o governador Acio Neves acabar cedendo s imposies da lgica e concorrendo vice-presidncia. Em especial quando ficar claro que o casamento entre So Paulo e Minas ser penhor da vitria. Qualquer outra hiptese, se no diminuir, nada acrescentar.

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