Quando a violência se explica

Carlos Chagas

Toda violência é deplorável. Nenhuma se justifica, ainda que algumas se expliquem. É o que está acontecendo nas instalações da Câmara Legislativa do Distrito Federal, ocupada  desde quarta-feira por montes de estudantes, sindicalistas e filiados a alguns partidos de oposição ao governo local.

Choca assistir a quebra de vidros, o arrombamento de portas e, mais do que tudo, jovens dormindo no chão do plenário, em meio a uma bagunça dos diabos. Mesmo assim, a gente pergunta: haveria outra forma de a população manifestar sua indignação diante de comprovadas denúncias de corrupção envolvendo deputados distritais, além, é claro, do chefe da quadrilha, o governador José Roberto Arruda?

Essas coisas costumam pegar feito sarampo, ainda que em matéria de corrupção a opinião pública se encontre anestesiada, tantos tem sido os episódios denunciados ao longo dos últimos anos, em Brasília e em todo o país.

A movimentação popular serve de combustível para alimentar providências judiciárias. Imaginar a votação do impeachment do governador pela Câmara Legislativa será mais do que sonhos de noite de verão. Equivalerá a delírio, pois dos 25 deputados, pelo menos nove foram flagrados recebendo dinheiro vivo, tornando-se necessária a condenação por parte de 16, para afastar José Roberto Arruda. Mas a abertura de  processos no Tribunal de Justiça, na Justiça Eleitoral ou na Justiça Federal tornam-se hipóteses tão necessárias quanto viáveis, existindo ainda a opção de o Supremo Tribunal Federal entrar na dança.

Uma evidência aparece,  no meio dessa tempestade: Brasília não conseguirá chegar incólume a dezembro de 2010 se alguma coisa não acontecer. Como a renúncia dos implicados não acontecerá, melhor  que os jovens continuem  nas ruas, até estimulando novas manifestações.

E os corruptores?

Cairá  no vazio a lembrança de que a existência de corruptos implica necessariamente na existência de corruptores. Até agora encontram-se em cone de sombra as empresas de informática prestadoras de serviços ao governo do Distrito Federal. O máximo ouvido de seus responsáveis é que foram achacados pela quadrilha do governador, que foram obrigados a dar dinheiro para poder sobreviver.

Na verdade não é nada disso. Se colaboraram com recursos de origem escusa foi por pretenderem favores ilegais e ilegítimos. Assim como as empresas de informática, o que dizer de tantas outras incrustadas na máquina administrativa da capital federal? As que se dedicam aos transportes públicos, à construção civil, ao saneamento, à saúde, educação e tantas outras? Valeria a Polícia Federal e o Ministério Público  prosseguirem nas investigações a respeito dos corruptores. A lama capaz de escorrer deles será igual ou maior…

Michel poderá agradecer

Michel Temer alega haver cumprido a lei quando recebeu doações da empreiteira Camargo Correia, num total aproximado de 350 mil dólares para enfrentar  despesas na campanha de 2006. Poderá estar certo, se registrou na Justiça Eleitoral o montante que foi parar em sua conta especial. O que está em jogo é mais profundo: como a lei permite que determinados candidatos sejam beneficiados com doações até maiores que as concedias ao atual presidente da Câmara, necessário se torna votar a reforma política para impedir toda e qualquer doação, estabelecendo-se o financiamento público das campanhas.

Quanto à situação política de Michel Temer, é claro que sofrerá arranhões. Lá pelos lados do palácio do Planalto já não se fala com tanto entusiasmo quanto antes na possibilidade de o parlamentar paulista entrar como companheiro de chapa de Dilma Rousseff.

Agora, a ironia: ele poderá estar agradecendo à Camargo Correia, porque o risco seria ficar ao sol e ao sereno por quatro anos, caso a candidata não emplacasse.

Três semanas para a bandidagem

Nesta semana de baixarias incontáveis, não faltou o governador Sérgio Cabral, do Rio. Sem mais aquela, Sua Excelência deu três semanas de prazo aos traficantes dos morros da Tabajara e dos Cabritos para interromperem suas atividades criminosas e se mudarem para outros logradouros. Se é assim que o governo fluminense trata os bandidos de Copacabana, os demais poderiam reivindicar a mesma proteção. Mais três semanas para enfrentarem a polícia, lutarem pelo domínio dos pontos de venda de droga, intranqüilizarem as comunidades e continuarem estimulando assaltos, assassinatos e seqüestros. Logo pedirão ampliação do prazo de alforria, ou seja, mais tempo para reforçarem, adquirirem mais armamento e conquistarem mais usuários de cocaína…

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