Que belo tema, a liberdade!

Percival Puggina

Está virando moda, acolhido como tema de reportagens especiais, chamar sexo de gênero e deixar esse detalhe para a criança decidir mais tarde, no pleno exercício de sua liberdade. Danem-se a natureza, a genética, a biologia, a ciência, os hormônios. Danem-se, até mesmo, as inclinações naturais dos primeiros anos. Através de um labirinto de possibilidades e experiências, a criança – presume-se – deve ser conduzida a um mundo de incertezas. Tudo em nome da liberdade; da mesma liberdade que não lhe é concedida quando se trata de escolher o clube de futebol pelo qual vai torcer.

Tomo este exemplo bem contemporâneo como ponto de partida para mostrar que o conceito de liberdade, suas aplicações e implicações podem ser retorcidos a ponto de se tornarem imprestáveis. Mais frequente do que liberdade usada para o mal (autodegradação) é liberdade inutilizada, desperdiçada, que vaza entre os dedos de quem a teve em mãos como dom sublime que poderia levar à autossuperação.

MILHÕES DE ANOS – Foram necessários milhões de anos para que os gregos empreendessem a longa jornada de reflexão filosófica em busca de um Bem impresso na natureza humana que não fosse o simples e primitivo produto do querer. Foi um dos grandes saltos morais, esse em que o ser humano mergulhou no imanente e no transcendente em busca da Verdade e do Bem. Sempre tomo isso em grande conta para recusar a moralidade fundada apenas no bem próprio e no interesse próprio.

Outros saltos seriam dados na construção da mais avançada civilização e da mais elevada cultura que a humanidade produziu. O que os gregos haviam coletado de hindus, egípcios, árabes e mesopotâmios, operado por seus filósofos, confluiu para Roma, instruiu o império e influenciou o direito romano. Outra vertente unir-se-ia a seguir. Refiro-me à milenar construção do judaísmo, iluminada por grandes profetas como Abraão, Isaac, Jacó, José, Moisés, Davi, Salomão, Elias, Isaías. De seu interior adviria, ainda, o cristianismo. Séculos mais tarde, a escolástica. E depois o iluminismo…

LONGO CAMINHO – Impossível menosprezar esse longo caminho através do qual o saber humano buscou articular os conteúdos inerentes ao Bem que buscamos na vida social. É a liberdade o maior dentre todos? Certamente, inclusive na perspectiva do Criador (sim, eu creio em Deus). Ele estabeleceu interditos que, bem examinados, servem ao bom exercício da liberdade, mas lhe tributa divino respeito, não interferindo no que com ela fazemos, mesmo se e quando a usamos contra Ele.

Tão comum quanto abusar da liberdade para afrontar o Bem (como no Queermuseu, e em algumas “performances artísticas”, para citar exemplos recentes) é inibi-la para fins ideológicos, como quando se reprimem as liberdades econômicas em nome de uma certa “justiça social”. Fazer justiça é tarefa do Direito e da Política, como exemplificam os países prósperos e bem organizados. Já a finalidade da Economia, de um sistema econômico, é produzir, e nesse sentido é irrecusável a superior eficiência das economias livres. Alias, fôssemos menos socialistas, nossa situação e nossas atuais perspectivas econômicas e sociais seriam muito melhores.

FILHA DA VERDADE – Mas se a liberdade se destaca no conjunto dos grandes conteúdos do Bem, ela não é, nem pode ser, por si só, o fundamento da moral. A liberdade é filha da verdade. Em João 8:32 Jesus afirma: “Conhecereis a verdade e ela vos libertará”. Entendo perfeitamente que, agora, alguns leitores abandonem este texto. Parecer-lhes-á exótica tal afirmação num artigo sobre liberdade. No entanto, nada de melhor se ensinou sobre o tema. Nada a respeito se disse tão verdadeiro e com tão poucas palavras.

Imagine um barqueiro que ao cair da tarde reme seu barco várias milhas mar adentro. Cansado, deita-se e adormece. No meio da noite, um vagalhão sacode o barco e o desperta. Da superfície da água ao céu coberto de nuvens, tudo é escuridão. Alguém dirá que esse homem, incapaz de saber para onde remar, finalmente conquistou sua liberdade? Não. Perdeu-se ele no mar aberto; o imenso bem da liberdade só será reavido quando raiar o dia e ele, recuperando a capacidade de se orientar, reconheça o seu destino. No momento em que souber para onde ir, ele recuperará a liberdade, inclusive, de ir para qualquer outro lugar.

Nada orienta melhor a liberdade humana do que a busca sincera da Verdade e, por ela, do Bem. E nada disso é coercitivo. É apenas inspirador. É um saber que faz bem.

25 thoughts on “Que belo tema, a liberdade!

  1. Quando Jesus disse: conhecereis a verdade e ela vos libertará. Jesus se referia ao conhecimento espiritual, que em suas parábolas ensinou o caminho. A verdade da vida material, cada um ser humano tem a sua verdade. Quem tem razão? Todos, cada um de acordo com seu entendimento.
    A liberdade esta na paz interior e ela só é possível conhecendo a razão da vida, e não tiver mais preso a desejos, libertando-se da vida material..

  2. O preconceito contra os gaúchos é qualquer coisa de absurda!

    ” … milhões de anos …”
    Considerando que o ser humano tem quatro milhões de anos, mas apenas há 160/190 mil anos que o Homo Sapiens surgiu na África, a expressão de Puggina com relação aos milhões de anos não estaria errada;

    Levando em conta que o autor poderia ter se enganado ao escrever milhões e não milhares, percebe-se a falta de vontade com o gaúcho, como se o crítico não errasse e fosse infalível!

    Pelo menos o gaúcho motiva o debate, a discussão, saindo deste marasmo de rótulos, obsessões e neuroses.

    • Bendl,
      É no mínimo um pouco de inveja, O sotaque, a maneira de falar , com o uso do “Tu” = acho lindo.. Em muitas área, como na Literatura, temos Mário Quintana, Érico Verissimo, Os Nejar – pai e filho e muitos outros. E que dizer de Elis Regina, Calcanhoto, Lupicinio Rodrigues. Mas mesmo assim, não precisa invejar o gaúdcho, pois todos somos brasileiros. Em cada Estado valores se sobrressaem.
      Entretanto o brasileiro é assim. Fazem piada sobre o Maranhão dizendo Sarney e o Maranhão se merecem. Eu sofri muito preconceito por ser nordestina – hoje me intitulo “pernambuoca e mineiroca (mais mineiras que tudo = pois meus filhos são mineiros, uai)” “oca” de carioca, já que por la vivi,buscando uma vida melhor, tal, uma Severina de João Cabral de Melo Neto,meu querido pernambucano-poeta.
      Em pleno século que vivemos, não há mais lugar para preconceitos. Somos todos irmãos. Abs

      • Minha querida Carmen Lins,

        Não é por nada que nos identificamos tão bem neste espaço democrático, pois pensamos igual em certos momentos.

        Muito antes de eu ser gaúcho sou brasileiro, e assim os demais cidadãos deste país.

        Eu ter nascido no RS foi circunstancial, haja vista que poderia ter sido em MG, SP, GO, PA, PE …

        Quando leio críticas não só infundadas ao meu RS, mas palavras agressivas, grosseiras, ofensivas, indiscutivelmente o autor é mau brasileiro, e tem mesmo inveja de quem é gaúcho!

        Lamento esta posição, essa forma de nos colocar permanentemente em confronto, esta inimizade ridícula mas, esta condição de preconceituoso, de discriminar uma região, inegavelmente advém da ignorância, da estupidez, da imbecilidade!

        Um grande abraço.
        Saúde e paz.

  3. Será que também levaram milhões (ou milhares) de anos para que os homens evoluíssem e não desejassem mais que lugar de mulher é ao sol quarando roupas?.. ou isso acontece até hoje?

  4. Para a galerinha PIÇOLISTA o lindo é criança trans, com fuzil na mão e fumando maconha. Qualquer quadro diferente desse é “fascismo” e violação ao direito de liberdade e à livre expressão.

    • Obs: Eles acham lindo com as crianças dos outros, pois com os próprios filhos, escola tradicional à moda antiga. Pimenta no c. dos outros é refresco.

  5. Caro Virgílio, cujos conhecimentos sobre a cultura grega fazem jus ao nome:

    Tudo isso que vc relata é pertinente, mas é preciso levar em conta que o mundo, a história do pensamento humano evoluiu, e não faz sentido que mantenhamos hoje os mesmos hábitos dos gregos, que tinham a ver com a sua própria cultura, na época, por mais sábios que eles fossem. Pra dar um exemplo prático:

    Você deve lembrar da história daquele psicanalha (assim mesmo) paulista, pedófilo que sedava seus pacientes, adolescentes filhos da classe média paulista, para abusar deles sexualmente. Veja que ele já tinha inclusive publicado livro em que pregava a pedofilia como uma prática normal, que breve seria aceita pela sociedade, e justificava isso com o exemplo dos gregos. Quando foi descoberto, vieram os seus pares e os pais das vítimas pra mídia hipocritamente se declara muito surpresos com o seu comportamento, depois de terem feito cara de paisagem quando ele fazia a sua pregação. De modo que tudo tem que ser lido com muito senso critico, e ter muito cuidado nessa tendência de relativização de valores em nome de uma pretensa liberdade, porque senão não demora muito estaremos pregando a abolição do tabu do incesto e considerando legítimo relações entre pais e filhas, irmãos, etc. O último dos desconstrucionismos a que estamos chegando, parece, é o desconstrucionismo moral.

    Acho que você me entende…

  6. Antes do advento da mente nos humanos este vivia a verdade como os outros animais: a interação do corpo com a realidade presente.
    Com ela, o ideal.
    Agora, o inferno das ideias, o “bem” e o “mal, as guerras, os genocídios….o fanatismo.
    A mente….mente.

    • Paulo2,

      O comentarista já disse e repetiu que a sua função é a desconstrução de imagens, no que é um especialista.

      No entanto, o blog por ser democrático, possibilita reações, respostas, muitas vezes contestando e de forma convincente as declarações do sapador.

      Enquanto eu puder, garanto que o meu RS não ficará sem defesa dos ataques que sofre, até porque somos brasileiros, e falar mal do Sul é o mesmo que repudiar o Brasil!

      Um grande abraço.
      Saúde e paz.

  7. Foi nessa época que ficou famoso, com o seu crivo, o grego Eratóstenes de Cirene. Erastés inveterado, por sua fama, legou à posteridade o seu disputado “Crivo de Eratóstenes”. ..

  8. Aqui mesmo, no Brasil, comumente, os figurões patriarcais casavam-se com meninas ainda impúberes, as sinhazinhas. Muitas morriam de parto em razão de não terem seu organismo em condições de gestar. As que se safavam da morte, sem as mamas em condições de aleitar seus filhos recorriam as “amas-de-leite” ou as negras babás abundantes nas senzalas…

    • Não precisamos ir tão longe, os nossos índios também casam com meninas, mas é uma questão cultural, não significa que devamos fazer o mesmo.

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