Queimado na praça

Sebastião Nery

ROMA – No meio da praça do “Campo dei Fiori”,  em Roma, cheia de flores, frutos e “finestras” (janelas), com seu mercado aberto e a milenar arquitetura das antiquissimas hospedarias medievais, estou vendo Giordano Bruno, de pé, na estátua negra, denúncia eterna de todos os fundamentalismos:

– “A Bruno, il Secolo da Lui Divinato, Qui, Dove il Rogo Arse”  (“A Bruno, o Século por Ele Profetizado, Aqui, Onde a Fogueira Ardeu”).

Nascido em 1548, em Napoles, Giordano Bruno entrou na Ordem dos Dominicanos com 17 anos, ficou lá 10 anos, ordenado padre e doutorado em Teologia. Acusado de heresia, deixou a Ordem e foi ensinar no norte da Itália. Perseguido, refugiou-se na Suíça, França, Inglaterra, Alemanha, Alemanha, voltando a Veneza, onde foi preso pelo Santo Oficio.

A pedido do Papa, as autoridades de Veneza o entregaram ao tribunal da Inquisição de Roma, onde ficou sete anos encarcerado, negando-se a retratar-se de suas doutrinas e, afinal, é queimado vivo no Campo dei Fiori, em 1600.

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No início do pontificado de Bento XVI, durante tres semanas, em Roma, 252 bispos de 118 paises se reuniram com o Papa no que foi chamado de “O Sínodo da Restauração”. “Nem abertura nem reformas. O objetivo é a restauração”, diz o jornalista Juan Bedoya, do “El Pais”, que cobriu o Sínodo.

O Papa Bento XVI, na época com apenas seis meses de pontificado, pediu aos bispos “propostas concretas para refazer ou retificar o que numerosos prelados chamam, sem meias palavras, de excessos e desvios do Concilio Vaticano II”, que faz 40 anos no Natal. Os bispos deram. Dependendo do Papa aprovar.

Citando São Paulo e partindo do verbo grego “catartizesthe” (refazer, reparar um instrumento, restituir sua função total), Bento VI, que no Concilio era um jovem teólogo progressista, com propostas reformadoras, diz agora: 

– “O objetivo hoje é voltar à perfeição. A tarefa para os apóstolos é a de refazer uma rede que já não está justa, que tem tantos furos que já não serve”.

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O Sinodo disse vários “não” a problemas que dividem a Igreja:

1. – O primeiro foi manter o celibato obrigatório dos padres. O cardeal colombiano Castrillon, responsável pela Congregação do Clero, pediu ao Papa que use seu “carisma de pedra” para fechar essa porta de forma definitiva. Também não haverá ordenação sacerdotal de mulheres. E ponto final.

2. – O Sínodo também disse “não” a dar a eucaristia, deixar comungar, a pessoas divorciadas ou separadas que voltem a casar. O tese do relator do Sínodo, indicado pelo Papa, o cardeal patriarca de Veneza, Ângelo Scola, é que “a comunhão não é um direito, é um dom”, e que “os fieis que rompem o casamento, por dolorosas que sejam as circunstancias, não podem ser admitidos à comunhão”. O cardeal espanhol Julian Herranz, presidente do  Conselho Pontifício para os Textos Legislativos, protestou, dizendo que “a eucaristia é um direito fundamental do cristão”. Pediu paciência ao Vaticano.

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3. – Outro “não, expresso pelo substituto do Papa na Congregação para a Doutrina da Fé (a antiga Inquisição), o norte-americano William Levada, é “contra os políticos hipócritas que se dizem cristãos em particular e, em publico, desobedecem as doutrinas morais que a Igreja considera básicas”.

4. – O Sinodo aposta mais na unidade interna e na obediencia ao Papa do que em estreitar laços com seus irmãos separados: protestantes, luteranos, anglicanos, ortodoxos. “Não pode haver união sem unidade no governo eclesial”, diz o cardeal Ângelo Soldano, o Secretario de Estado, vice do Papa.

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5. – Muitos bispos também se manifestaram contra a intercomunhão”  (admitir a comunhão para os cristãos não católicos, os evangélicos). O bispo da Igreja Anglicana, John Hind, ali como convidado, não gostou e lembrou que há apenas seis meses, em abril, o então cardeal Ratzinger, comungou junto com o evangelico Roger de Taizé, fundador, em 1940, na Borgonha francesa, de uma famosa comunidade ecumênica, e a quem o papa João Paulo II deu a comunhão tres anos atrás. Em 16 de agosto, um louco matou Roger de Taizé.

6. – Outro grande debate do Sínodo foram as “retificações conciliares”, sobretudo a respeito da missa. Querem “acabar com os erros, exageros e experiências de padres que descuidam das cerimônias e permitem cantos e danças não adequadas nas igrejas”. O cardeal Scola negou que se trate de voltar ao latim, como era antes do Concilio,  O bispo de Coimbra, Albino Mamede”, explicou : – “Não basta ter o alimento, é preciso saber pôr a mesa”.

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Longe dali, em Paris, em um livro desassombrado (“Mon Dieu, Pourquoi”? – “Meu Deus, Por Que?”), o venerando Abbé Pierre, 93 anos, fundador da Comunidade de Emaus e todo ano eleito a personalidade mais popular e querida da França, então discutia o sexo na Igreja, defendia o casamento dos padres, o sacerdocio das mulheres. Mostrava que só o fim do celibato acaba com a pedofilia na Igreja. Confessava que teve “relações sexuais com mulheres de maneira passageira e não regular”. E celebrava o amor de Jesus e Madalena.

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