“Queime tudo o que puder, porque a verdade não pode ser dita…” (Lêdo Ivo)

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Em seus poemas, Lêdo Ivo revelava suas visões sociais

Paulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista, cronista, romancista, contista, ensaísta e poeta alagoano Lêdo Ivo (1924-2012), da Academia Brasileira de Letras,  aconselha (queime tudo o que puder) no poema “A Queimada”, pois a verdade não é para ser dita, ela é o eterno segredo. Vale ressaltar que, se este poema fosse escrito atualmente, poderíamos dizer que o teor foi inspirado em certas autoridades brasileiras.

A QUEIMADA
Lêdo Ivo

Queime tudo o que puder:
as cartas de amor
as contas telefônicas
o rol de roupas sujas
as escrituras e certidões
as inconfidências dos confrades ressentidos
a confissão interrompida
o poema erótico que ratifica a impotência
e anuncia a arterioesclerose
os recortes antogos e as fotografias amareladas.

Não deixe aos herdeiros esfaimados
nenhuma herança de papel.
Seja como os lobos: more num covil
e só mostre à canalha das ruas
os seus dentes afiados.

Viva e morra fechado como um caracol.
Diga sempre não à escória eletrônica.
Destrua os poemas inacabados, os rascunhos,
as variantes e os fragmentos
que provocam o orgasmo tardio dos filólogos e escoliastas.

Não deixe aos catadores do lixo literário nenhuma migalha.
Não confie a ninguém o seu segredo.
A verdade não pode ser dita

4 thoughts on ““Queime tudo o que puder, porque a verdade não pode ser dita…” (Lêdo Ivo)

  1. O texto é uma recomendação exata dos procedimentos que os nazistas negligenciaram, quando o cerco das forças aliadas começava a se fechar contra a Alemanha.
    Se o Füher tivesse ordenado a queima total de todos os relatórios tecnocientíficos (impressos, filmados, telegrafados), produzidos pela genialidade alemã, ora: EUA, Inglaterra, Rússia e França não estariam esnobando progressos às custas de conhecimentos roubados. Restava-lhes as parafernálias, cuja materialidade e montagem poderiam ser pirateadas, através da tecnologia reversa. Mas aí o processo seria bem mais trabalhoso e demorado.

  2. Vou aproveitar o conselho do poeta para esquecer o seu poema. E digo isso porque vejo beleza na vida, compreendo a fragilidade da alma humana e entendo que o amor e determinação podem mudar o mundo, como a alavanca de Archimedes (Give me a lever long enough and a fulcrum on which to place it, and I shall move the world).

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