Quem tem medo de Virginia Woolf, ou melhor, de Erenice Guerra? O relatório da Comissão de Ética sai hoje, mas a Polícia Federal pede mais prazo para investigar.

 Carlos Newton

A peça de Edward Albee, que virou um filme sensacional nas mãos do diretor estreante Mike Nichols, com o casal Richard Burton e Elizabeth Taylor nos papéis principais, se encaixa perfeitamente no caso. Afinal, quem tem medo de Erenice Guerra?

Para lembrar outro grande filme de suspense, da safra do genial Alfred Hitchcock, Erenice Guerra é hoje a mulher que sabia demais. É a única explicação para o fato de ter sido convidada para a posse da presidente Dilma Rousseff, apesar da circunstância desclassificante de estar sendo investigada pela Polícia Federal e pela Comissão de Ética da Presidência da República.

Como convidar uma pessoa nessas condições para comparecer à cerimônia mais importante da República? Não há explicação, salvo a versão hitchcockiana. E de quem teria partido a decisão de convidar aquela mulher que sabia demais? A resposta é um mistério profundo. Mas se pode deduzir que a presidente Dilma Rousseff, no mínimo, concordou com o convite.

Pois bem, a Comissão de Ética da Presidência da República iniciou a etapa final da análise do caso. O relator Fabio Coutinho, que recebeu informações da Corregedoria Geral da União (CGU), Casa Civil, Tribunal de Contas da União (TCU) e Procuradoria Geral da República, pretende entregar hoje seu relatório final.

Como se sabe, a ex-ministra da Casa Civil Erenice Guerra é investigada por supostamente comandar um esquema de tráfico de influência montado no Planalto para beneficiar parentes seus, como o marido e o filho. Seu comportamento realmente levanta suspeitas. Antes mesmo de o relatório ser concluído, Erenice já sofreu uma censura pública, a punição máxima para servidores que deixaram suas funções. A censura lhe foi aplicada porque ela não entregou a declaração de bens atualizada, como manda o Código de Conduta da Alta Administração Federal, embora a comissão lhe tenha solicitado em diversas ocasiões. Muito estranha essa insistente conduta de desobediência civil.

Nessa investigação, a impunidade já está garantida, pois a informação oficial da Casa Civil é de que a punição que deverá ser recomendada será novamente censura pública, caso o relator entenda que ela é culpada por tráfico de influência e caso o documento seja aprovado pela maioria dos sete membros da comissão. Mas o caso vai seguir rolando, porque depois que o relatório for concluído Erenice terá 10 dias para apresentar sua defesa, se for considerada culpada, claro.

Uma segunda investigação sobre a mulher que sabia demais corre na Polícia Federal, que há poucos dias pediu mais uma vez a prorrogação do inquérito sobre o suposto envolvimento da ex-ministra da Casa Civil em tráfico de influência. O Ministério Público deverá sugerir novo prazo para o aprofundamento das investigações. Essa é a quarta vez que a PF pede prorrogação.

E já houve uma investigação que não deu em nada, feita por uma comissão de sindicância instaurada na Casa Civil, supostamente criada para apurar as denúncias envolvendo os servidores Vinícius de Oliveira Castro e Stevan Knezevic.

Os fatos são os seguintes: o funcionário Vinicius de Oliveira Castro é filho de Sonia Castro, que aparece como sócia de Israel Guerra, filho de Erenice, na Capital Assessoria e Consultoria. O outro servidor, Stevan Knezevic, funcionário concursado da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e que estava cedido à Casa Civil, também era sócio de Israel Guerra. Durante o processo, Stevan portou-se de forma altamente suspeita e usou da prerrogativa de não prestar depoimento, já que, por lei, só está obrigado a fazê-lo a seu órgão de origem, no caso, a Anac.

Somente a criação dessa empresa de “consultoria”, para vender facilidades dentro do Planalto, já seria suficiente para incriminar todos eles (incluindo a própria Erenice, que era Chefe da Casa Civil, que Deus nos perdoe). Mas teme-se que a decisão da Casa Civil, “inocentando os funcionários” já seja meio caminho andado para “melar” a investigação.

Uma das acusações diretas contra Erenice refere-se à intermediação da licença para a MTA Linhas Aéreas operar a serviço dos Correios. Outra denúncia importante é relativa ao convênio assinado em 2005 entre a Unicel e a diretoria de telecomunicação da Casa Civil para testes de um serviço móvel especializado (rádios comunicadores).

Mas acontece que o documento original dessa negociação não foi encontrado pelos servidores que apuraram as eventuais irregularidades. Surpreendentemente, sumiu. Como num milagre de Natal, no final de dezembro desapareceu o documento original do convênio assinado em 2005 entre a Unicel e a diretoria de telecomunicação da Casa Civil. Por coincidência, é claro, por mera coincidência, na época a Unicel tinha como diretor comercial o marido de Erenice, José Roberto Camargo Campos.

O caso já vem transcorrendo desde setembro, daqui a pouco completa um ano. Mas vamos aguardar, para ver o que acontece. O desfecho das investigações vai nos situar sobre a dignidade do país onde vivemos e sobre a seriedade do governo que elegemos. Mas por que gastar tanto tempo para investigar, nem Freud explica.

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