“Quero Lula livre, mas não necessariamente para votar nele”, esclarece Gilberto Gil

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Gil vai esperar até definir o voto em Haddad, Ciro ou Marina

Fernanda Mena
Folha

Canção que dá título ao novo disco de Gilberto Gil, “Ok Ok Ok” é ao mesmo sintoma do atual clima de desencanto, denúncia da busca por um salvacionismo mágico e manifesto contra a intolerância que tem dividido os brasileiros. “Ainda que você se posicione de forma mais permanente sobre qualquer coisa, a realidade está caminhando mais rápido. O posicionamento é uma parada. Você para, e a realidade atropela você”, diz o cantor e compositor sobre questão que, para ele, é agravada no período eleitoral. “A eleição é a solicitação de um posicionamento. Temos de escolher o que aceitar. Por isso é tão difícil.”

Seu histórico recente como eleitor nos pleitos presidenciais: votou duas vezes em Fernando Henrique Cardoso (PSDB), duas vezes em Lula (PT) e duas vezes em Marina Silva (Rede).

De qual vil situação você fala na música “Ok Ok Ok”? 
De todas aquelas em que estamos envolvidos nas nossas vidas. Especialmente as que dizem respeito ao conhecimento de todos, ao social, ao nosso país, ao mundo, à sociedade. São as dificuldades pelas quais passamos. Essa queixa permanente da sociedade, mais intensa em alguns lugares, como no Brasil, do que em outros. Essa é a vil situação: é o fato de não podemos viver uma situação celestial. Tem sempre um pouco de inferno e de purgatório na vida de todos.

A letra parece tratar do desencanto que vivemos atualmente no Brasil… 
É a tradição poética, metafórica, de muitas situações em que nos sentimos envolvidos como sociedade e como indivíduos.

Por exemplo? 
Não existe um exemplo propriamente. É a vil situação. É a dificuldade permanente, e crescente que vivemos. Tudo é exemplo. É como eu digo no final da música: “As palavras dizem sim, os fatos dizem não”. Os fatos estão negando o tempo todo qualquer posicionamento mais permanente, mais fixo, mais nítido que você possa ter em relação a qualquer coisa. Ainda que você se posicione, a realidade está caminhando muito mais rápido do que qualquer posicionamentos. Posicionamentos são paradas. Você para, a realidade atropela, empurra você.

Você se sente atropelado pelo quê?
Por tudo. Tudo o que é motivo de instabilidade, insatisfação, dúvida sobre o futuro, dificuldade de acesso aos meios básicos. Mas uma música como essa não é pessoal, individual, mas um sentimento difuso, que pode estar nítido para alguns, mas não para outros. O próprio sofrer dos pobres, a que me refiro na letra, não é uma questão pessoal, por exemplo. A penúria que o pobre vive, eu não vivo, mas estou solidário a ela. É uma canção sobre este sentido social permanente a que somos obrigados a dar a nossa vida. Vivemos em sociedade e o outro faz parte de nós.

Por que é difícil enxergarmos a nós e ao outro como parte de um mesmo coletivo?
As polarizações e os funcionamentos muito específicos em relação aos interesses podem obliterar a visão do todo, dos outros. A compreensão, a caridade e perdão ficam difíceis de exercer.

Como isso se articula no período eleitoral?
A dificuldade é maior ainda porque a vida está solicitando de nós um posicionamento. Eleição é isso: se posicionar em relação a candidatos, programas, intenções, visões de presente e de futuro representadas pelos candidatos. O grande problema é ter de escolher. A vida ideal era aquela em que não tivéssemos que escolher nada. Os mestres religiosos e os mestres filósofos reiteram isso: deixe a vida te levar, venha o que venha. A hora em que somos exigidos a fazer escolhas, como numa eleição, é a hora em que temos de negar essa magnitude do coração para aceitar tudo. Temos de escolher o que aceitar.

Sua música é dúbia em relação a seu desejo de se manifestar publicamente. O seu pedido é para ser ou não procurado? 
Talvez o pedido seja para não ter a obrigação de dar opinião sobre tudo o tempo todo. Não que você não tenha opiniões. Tem muitas, e às vezes até contraditórias. Mas essa exigência de que você opine e seja uma espécie de agente realizador do desejo e da esperança de todos incomoda. Essa coisa de salvador ou herói.

No campo da política, o Brasil parece fadado ao sebastianismo, à ilusão de que um indivíduo nos salve de nossas mazelas…
Encontrar em pessoas ou em instituições a boia de salvação neste oceano tenebroso em que a gente vive faz parte da nossa herança ibérica, católica, lusitana. Temos essa tendência a um desejo de que uma pessoa ou uma instituição seja nossa salvação.

Na polarização atual, há quem veja este herói salvador em Lula e há quem o veja em Bolsonaro. 
Exatamente! (risos) Esta dicotomia é sinônimo da dilaceração de hoje e da dificuldade de aceitação do todo a partir da necessidade de escolher entre uma coisa e outra. Uns escolhem Bolsonaro, outros, Lula.

Como um exilado político da ditadura militar assiste à ascensão de uma figura que enaltece este período, como Bolsonaro? 
Vejo com certo temor. Mas, ao mesmo tempo, tenho 76 anos e já vivi muita coisa. Por exemplo, eu presenciei a ascensão do primeiro grande núcleo do que se chama hoje de extrema direita, com [John] Enoch Powell [1912-1998], na Inglaterra. Depois vieram muitos outros, como Le Pen, na França. Eu fico receoso que esses corações dessas pessoas não compreendam que é preciso ter piedade, perdão, caridade, solidariedade, que é preciso estarmos juntos e que a vida é para todos, apesar das diferenças entre nós. Que temos de produzir a igualdade na diferença.

E como você avalia a situação de Lula? 
Uma coisa é ele como pessoa, por quem eu tenho um sentimento de pesar por tudo o que está acontecendo com ele. Outra coisa é a figura política e suas estratégias no campo da luta. E aí, é uma opção dele. Eu tenho minhas dúvidas se as estratégias adotadas estão corretas e vão levar a um desfecho segundo as expectativas dele. Não sei.

Você fala sobre a delonga em definir Haddad como seu substituto?
Sim. Gosto muito de Haddad. É um nome interessante. Um homem muito preparado e sensível. Suficientemente jovem e suficientemente maduro ao mesmo tempo para ter uma compreensão do conjunto da sociedade brasileira hoje, da inserção do Brasil no mundo, da questão da economia. Acho ele muito preparado, assim como acho Ciro [Gomes] muito preparado. E Marina, em quem já votei para presidente por duas vezes, também é muito bem preparada e posta.

É falsa a impressão de que você, por ter sido ministro do governo Lula, vota no PT?
É falsa! Quando eu fui num show do Lula Livre, evento aqui no Rio de Janeiro em prol da libertação dele, disse que, diferentemente de muitos que querem Lula solto para votar nele, eu necessariamente não quero ele livre por isso. Eu acho que Lula deve ser solto porque sua prisão é injusta em vários aspectos. E, neste sentido, ele deveria estar aí, como nós, vivendo a plenitude das lutas partidárias e das disputas democráticas, coisa que ele está impedido de fazer. Sou Lula Livre, mas não necessariamente para votar nele.

Por que acha a prisão de Lula injusta?
São muitos os que assim a consideram: juristas —daqui e de outros cantos do mundo—, cronistas políticos, milhões de eleitores. Eu não estou sozinho, muito pelo contrário.

Falta autocrítica ao PT? 
Acho que sim. Um pouco. E a Lula, na medida em que poderia ter levado o partido a uma posição mais de explicação sobre suas questões, problemas e erros.

Você sempre se alinhou à esquerda, campo em que há ao menos quatro candidatos à presidência. Como se posiciona entre tantas opções? 
Eu sinto um certo pesar de eles todos não estarem juntos num momento como esse, em que tudo o que significa a negação do que eles representam está lá, fortalecido, do outro lado. Eu sinto que mais uma vez não seja possível a união das forças progressistas contra o atraso.

Por que essa união não acontece?
Não sei. Talvez o extremo zelo que cada um tenha por suas facções, por suas representações partidárias, por seus partidos, por seus traços ideológicos especiais. Mas numa hora em que se vê o contrário de tudo isso se avolumando na sua frente, acho que a gente deveria se abraçar. Essa é uma questão que não é de hoje. Há muito tempo ouço isso: por que não se unem? Lembro de uma época em que era tema permanente nos círculos intelectuais e artísticos no Brasil a interrogação: Por que o PSDB e o PT não se unem definitivamente já que são ambos partidos com forte compromisso social e forte compromisso democrático? Mas, aí, são as pessoas. Tem aquilo que a gente comumente chama de ego (risos). Ego partidário, ego pessoal.

Votará em Marina novamente?
As últimas duas eleições presidenciais foram bem diferentes desta que se aproxima. Não havia então uma ameaçadora candidatura ultrarreacionária e retrógrada como há agora. Tínhamos relativo conforto em escolher, no primeiro turno, o candidato que quiséssemos. Agora é diferente: a polarização extremada exige o voto útil logo de cara. Há poucos dias, Marina me telefonou. Eu disse a ela que estou aguardando para ver quem do nosso campo progressista tem mais chances de ir ao segundo turno. Então, definirei meu voto. Ela compreendeu.

E se um dos candidatos da sua simpatia for eleito e o convidar para ser ministro da Cultura novamente? 
Não quero mais. Já foi um esforço enorme e uma aventura, no sentido pessoal, ter feito aquele trabalho com o presidente Lula e tantos ministros com quem tive que me relacionar e colaborar. Agora não quero mais. Não dá.

32 thoughts on ““Quero Lula livre, mas não necessariamente para votar nele”, esclarece Gilberto Gil

    • Esse Gilberto Gil deveria entender que temos justiça no país (com exceção do STFedorento) e que Lula foi condenado por um juiz após um processo legal.
      Melhor o senhor Gil botar a viola no saco e voltar a cantar na sua Bahia.

  1. Será que o Sr. Gilberto Gil pensaria assim se algum funcionário lhe desse um baita desfalque e limpasse sua gorda fortuna?

    Petistas são assim mesmo no ** dos outros(povo) é refresco!

  2. Pensei que depois das sandices esquerdistas do tal de Boris não sei o que, a Tribuna deixaria de publicar mais. Enganei-me!
    Cada vez mais fico convencido que BOLSONARO é o último fio de esperança para que o Brasil não vire uma Venezuela e eu tenha que encontrar-me, quem sabe, com netos do Boris não sei o que, membros da TI e tantas outras pessoas de bem nas fugas humilhantes de retirantes, como acontece hoje com os venezuelanos, que, a bem da verdade, muitos deles votaram e adoraram Chaves, Maduro, assim como hoje o fazem aqui os Boris e Gil da vida.

  3. Seus descrentes:

    Gilberto Gil, matou a pau…

    Mostrou na entrevista, a crueldade contra Lula:

    “E como você avalia a situação de Lula?
    Uma coisa é ele como pessoa, por quem eu tenho um sentimento de pesar por tudo o que está acontecendo com ele. Outra coisa é a figura política e suas estratégias no campo da luta. E aí, é uma opção dele. Eu tenho minhas dúvidas se as estratégias adotadas estão corretas e vão levar a um desfecho segundo as expectativas dele. Não sei.”

    Segundo este filósofo da Bahia, quem deve ficar preso
    è a figura politica do Lula e não a pessoa Lula……

    Tá ai a solução que vai unir o pais….

    È só todo mundo fumar um, ler a foicefolha e seguir estes ensinamentos dos mestres e gurus da esquerda brasileira

  4. “Por que acha a prisão de Lula injusta?
    São muitos os que assim a consideram: juristas —daqui e de outros cantos do mundo—, cronistas políticos, milhões de eleitores. Eu não estou sozinho, muito pelo contrário”.
    Milhões de moscas comem fezes. Então deveríamos comer também?
    Gil, maria-vai-com-as-outras, falou, falou e não disse nada.

    • Ás vezes essa irracionalidade é tal que seguidores autoconvencidos acreditam no impossível: transformar água em Cabernet, acalmar tempestade, ressuscitar mortos putrefatos com ordens verbais – tudo para no fim construirem uma igreja com chefes assassinos e abusadores de menores e Torquemadas que queimava inocente em praça pública. Tudo para nos salvar do pecado capital de um Adão que não trepou com Eva e nem mesmo existiu.

  5. Enterrem o Gilberto Gil e coloquem os Paulos, Freds, etc… para fazerem o nosso mundo acontecer, sob a batuta de um Bozó!

    Gil, praia, amigo! Que a epidemia ainda dura, até 7 de Outubro…
    O Brasil nunca fedeu tanto, desde que esses aloprados ignorantes, no sentido estrito da palavra, resolveram fazer essa arruaceira…

    Gentalha podre, há que nascer e morrer umas vinte gerações da suas raças, pra ter uma chance em um milhaã de nascer alguém da grandeza de Gilberto Gil no covil de merda de onde voces saíram pra faltar com o respeito ao povo brasileiro…
    E ainda acham que representam a Pátria…
    Gentalha!

  6. Com o Gilberto Gil é assim, perguntou ele reponde na”bucha”:
    Pergunta – Sr. Gilberto Gil, Por que acha a prisão de Lula injusta?
    Resposta: São muitos os que assim a consideram: juristas —daqui e de outros cantos do mundo—, cronistas políticos, milhões de eleitores. Eu não estou sozinho, muito pelo contrário.
    Resposta esclarecedora!

  7. Concordar é ótimo, mas discordar também. As diferenças são próprias do ser humano. Não posso desmerecer Gilberto Gil por causa de preferências politicas. Homem inteligente, excelente poeta; um artista que a gente gosta de ver no palco onde ele canta, toca instrumento, pula, dança. É uma festa. “Aquele abraço”, “Se eu quiser falar com Deus Tenho que ficar a sós. Tenho que apagar a luz. Tenho que calar a voz, lindíssima e profunda.

  8. Se vocês não sabem, nos últimos anos, Gilberto Gil vem sendo acometido por uma grave nefropatia. Talvez porque, outrora, ele recorria sempre aos rins para produzir cálculos. Desgastados os rins, agora ele passou a usar a cabeça. Aí deu nisso que vocês estão vendo!

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