‘Raça não é genética” – eis uma polêmica que consegue desagradar a direita e a esquerda 

RACISMO E POLÍTICA DE COTAS: CARA GENTE “BRANCA” RACISM AND QUOTA POLICY:  DEAR “WHITE” PEOPLE

Charge reproduzida do Arquivo Google

Eurípedes Alcântara
O Globo

Quando você consegue ao mesmo tempo desagradar à direita e à esquerda, são grandes as chances de estar com a razão. É o caso da pesquisadora americana Kathryn Paige Harden, professora de psicobiologia evolutiva na Universidade do Texas. Ela meteu sua colher de pau na panela da sopa mais quente de nosso tempo, a discussão sobre raça.

Passou a apanhar nas redes desde que seus estudos foram divulgados, primeiro num artigo na revista New Yorker, depois no livro “The genetic lottery “ (“A loteria genética” ), que tem como subtítulo traduzido para o português “Por que o DNA importa para a igualdade social”.

IRRACIONALIDADE DIGITAL – Acuada pelo avanço da lava vulcânica da irracionalidade digital militante, a professora recuou no Twitter: “Houve reações fortes ao artigo da New Yorker e não posso responder a todas elas aqui. Mas quero reafirmar que raça não é genética”.

De modo geral, simplificando a ponto de caricaturar a questão, a ideia de que raça não é definida pelo DNA com que a pessoa vem ao mundo não é o mesmo que afirmar que os genes são irrelevantes (posição da esquerda), nem que eles são os únicos responsáveis pelo destino de um indivíduo (posição da direita).

A doutora Kathryn importuna a esquerda e a direita, primeiro, por demonstrar que não existem simplificações científicas possíveis quando o assunto é a complexa interação da hereditariedade de cada um com o ambiente social, econômico e político em que nasce e vive. Como cantou Chico César, “deve ser legal / ser negão no Senegal”, mas já não é tão fácil em outras paragens, quando sua “mãe é mãe solteira / e tem que fazer mamadeira / todo dia / além de trabalhar / como empacotadeira / nas Casas Bahia”.

VIVER ENTRE IGUAIS – No Senegal, a pessoa de pele escura nasce e vive entre iguais, e a tonalidade de sua epiderme não tem peso específico sobre sua saúde psicológica ou suas chances de sucesso profissional e social. Já nascer negro numa sociedade onde a maioria esmagadora da classe dominante é formada por brancos significa ter de escalar montanhas de pedras soltas todos os dias, do berço ao túmulo.

Em segundo lugar, a professora desagradou à militância por mostrar que o prêmio da loteria genética que dota alguém individualmente de atributos hereditários especiais de inteligência ou destreza corporal em excesso pode sair tanto para um negro quanto para um branco, sem preferências raciais. A biologia é neutra no nível individual.

A encrenca começa quando a genialidade genética de um negro encontra hostilidade e é anulada por circunstâncias sociais adversas — nascer num gueto racial de Chicago, no exemplo dela.

PERPETUAR O PRECONCEITO – Mas nascer num gueto nada tem de biológico. É uma construção sociocultural que impede que o prêmio genético individual se expresse como poderia no conjunto da população negra:

 “Juntar raça e ancestralidade genética numa única ideia é a maneira mais cruel de perpetuar o preconceito de que as desigualdades de desempenho, vistas, por exemplo, nos testes de Q.I., são devidas a diferenças biológicas inatas.

Quando os primeiros imigrantes italianos, irlandeses e judeus chegaram aos Estados Unidos, eles não eram considerados socialmente brancos, e seu desempenho educacional e profissional era condizente com o de párias, mesmo sendo tão brancos quanto os integrantes da classe dominante.

DIREITA E ESQUERDA – Foi a contragosto que a professora Kathryn Paige Harden se obrigou a contextualizar sua demonstração de que “raça não é um conceito biológico válido no campo da ciência” com o mundo real dos combates nas ruas das grandes cidades dos Estados Unidos.

Ela diz esperar que seus estudos incomodem os que, à direita, se sentem “moralmente justificados” por acreditar que injustiça racial é de origem puramente genética — e, portanto, não há o que fazer. Espera também cutucar o pessoal à esquerda que “enfraquece seu argumento por igualdade” pela negação do papel dos genes sobre indivíduos e populações.

9 thoughts on “‘Raça não é genética” – eis uma polêmica que consegue desagradar a direita e a esquerda 

  1. Li, li, e não entendi bulufas do que afinal a cientista concluiu. Que raça não é um conceito científico? Mas isso é evidente! Só os progressistas e a galera da KKK não sabem disso.
    Raça é um conceito vago e absolutamente impreciso que tenta juntar pessoas que se parecem fisicamente entre si.
    Raça negra? Raça branca? Só um completo idiota diria que Watusi seria da mesma raça de um pigmeu por que os dois são negros. Ou existem umas 3.000 raças humanas (e toda a misturada no meio) ou não existe nenhuma.

  2. Se o que tem por raça são os traços e características que possam ser reunidas para qualificação e classificação de grupos com as mesmas, então, é genética, sim.

    Você diz cães como uma grande família…
    Mas separa umas das outras e ainda raças das outras. Isto é:
    Cães boiadeiros;
    Cães pastores;
    Cães farejadores…

    Bullmasfif;
    Pastor alemão;
    Pointer…

  3. Resumo da história:
    Os autores do artigo e do estudo estão para lá de atrapalhadosnas suas razões.
    Tentam ganhar adeptos para essa abordagem. Nem à direita nem à esquerda (Terceira Via?)

  4. O problema da Ciência é que ela precisa atender à dois senhores, a Extrema Esquerda e a Extrema Direita, como estes senhores não aceitam que os contradigam, tudo que não for conforme gostem e pensam não presta . Ou não é Ciência. Felizmente a Genética não precisa atender os preconceitos de extremistas de qualquer viés.

  5. O homem era um cachorrista nato.
    Rogerio Magri ministro de Color usou carro oficial para levar sua cachorrinha ao veterinário, questionado disse que, ” A cachorra é um ser humano, e eu não hesitei”.
    Segundo Darwin sou descendente dos primatas e segundo minha crença sou descendente de Abraão.

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