Rápido, um pacto de honra

Carlos Chagas

Chega a ser ridícula a  entrada de arapongas na campanha presidencial, se é que algum dia saíram. Trata-se do submundo policial mergulhado na política,  com raízes no extinto SNI.  Nos idos da ditadura vigiava-se  todo mundo, da forma mais nefasta possível, até entre eles mesmo. Bastam dois exemplos:

O presidente Costa e Silva foi vitimado por um derrame cerebral. Os ministros militares e mais um monte de generais decidiram que o vice-presidente Pedro Aleixo não podia assumir, voz isolada que fora  contra o AI-5. Ao  ser conduzido preso,  ao Rio, os golpistas  mostraram porque ele não se tornaria presidente da República:  a gravação de um telefonema de  José Maria Alckmin e Israel  Pinheiro, dado de Belo Horizonte para Brasília, naquele mesmo dia, sugerindo que fosse para Minas, supostamente para assumir.

Anos depois um  general honesto, competente e nacionalista ousou enfrentar o  chamado  sistema, apresentando-se contra o candidato oficial, João Figueiredo.  Como tinha  uma namorada, foi chamado para ouvir a gravação de recente  telefonema entre eles. Não renunciou, mas perdeu todo o entusiasmo.

Nem é preciso lembrar recentes e  incontáveis tentativas de chantagem contra candidatos de todos os matizes, promovidas por adversários também variados, como no caso do dossiê dos aloprados, na última sucessão  paulista. Sequer se recorda  a operação que, em São Luís, levou  ao desgaste  a candidata então favorita ao Planalto, Roseana Sarney, por conta da descoberta de dinheiro em seu escritório eleitoral.

Será que tudo se repetirá? Estariam os dois principais comitês de campanha armando-se de arapongas para espionar e constranger os adversários, esmiuçando investigações sobre  vidas privadas,  parentes e auxiliares? Quando nas eleições o noticiário policial sufoca o noticiário político e partidário, é sinal de que algo de podre continua  emergindo das profundezas. Teriam José Serra e Dilma Rousseff condições para impor ética e dignidade aos condutores de suas campanhas? Mesmo se precisassem reunir-se  para um  pacto de honra, seria uma solução.

Para evitar o racha…

Dá o  que pensar a repetição  do  empate agora mais do que  técnico nas pesquisas eleitorais sobre Serra e Dilma. Há quem se preocupe não propriamente com o vencedor, mas com as conseqüências da divisão do país em duas correntes cada vez mais acirradas.   Continuando as coisas como vão, quem ganhar dificilmente conseguirá governar com tranqüilidade,  tendo do outro lado um contingente igual.  Tanto faz se tucanos ou companheiros formarão no governo ou na oposição, em especial se o racha abranger, também, a composição do novo Congresso.

Cérebros maquiavélicos,  destituídos de espírito público e de  consciência democrática,  voltam a expor o raciocínio de que  melhor seria buscar um tertius, mesmo através de operações pouco ortodoxas. Alguém capaz de evitar o confronto e o inusitado, um nome em condições de somar, unir e atender os anseios gerais.  Quem? Ora, aquele  que 83% da população consideram estar governando muito bem…

É bom tomar cuidado e fazer  a denúncia, antes que seja tarde.   

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