Ratos e moscas

Sebastião Nery

PARIS – Fazia quase zero grau, domingo, e a manhã tremia de frio nas ruas de Paris. Queria ver outra vez os franceses votando. Abriguei-me no museu “Maillol” (rua Grenelle, Boulevard Saint Germain) para ver a magnífica exposição da bela e inconfundível Artemisia, uma Cleópatra italiana (nasceu em Nápolis em 1593 e morreu em 1654), pintora com obras nos grandes museus do mundo, única mulher do Renascimento italiano.

Perto, a “Sciences Po” (rua Saint Guilhaume, 27) centro da sabedoria política da França com um posto de votação da Mairie (subprefeitura). Silêncio de igreja. Nem boca de urna fora, nem boca de gente dentro.

Do lado esquerdo de quem entrava, várias cabines de pano com as urnas lá dentro. Do lado direito e em frente, duas mesas com as fichas dos eleitores para serem conferidas e assinadas. Sobre uma mesa, pequenas pilhas com as cédulas dos 10 candidatos. O eleitor pegava o mínimo de duas (para não escancarar o voto) , entrava na cabine e votava. Perguntei a um senhor com cara de coordenador como ia a abstenção.

– Aqui vai dar uns 40%.

Estava enganado. A abstenção geral foi de menos de 20%, uma lição de consciência pública do povo francês, onde o voto não é obrigatório.

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URNA ELETRONICA

Por que a França não usa o voto eletrônico? Em 2007 houve um grande debate aqui. Uns diziam que seria um progresso, outros alegavam o risco de fraudes. Resultado: a partir de 2007 os postos de votação que adotaram a urna eletrônica passaram de 84 a 64 em todo o país. E afinal o Conselho Constitucional arquivou a idéia. E no Brasil deu tão certo.

Não se diga que sem a urna eletrônica a apuração aqui atrasa. As eleições terminaram às 20 da noite. Imediatamente o resultado das pesquisas de boca de urna já estava nas televisões e de manhã os jornais publicavam cadernos especiais com todos os números, percentagens e detalhes dos votos de cada região, cidades, Mairies, urnas.

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SARCOZY

O editorialista Laurent Joffrin, da revista “Le Nouvel Observateur”, a melhor da França, diz que “a rejeição de Sarkozy foi a “última ratio” desta eleição: – “Solitário , agressivo, infatigável e “sans vergogne”, esta eleição não é somente um referendum sobre Sarkozy, é um referendum sobre o dinheiro, sobre o poder do dinheiro. Nestes tempos de sacrifício, de desigualdade, foi insuportável. O rei dinheiro perdeu sua coroa”.

Uma prova disso é a eleição em Paris. Pela primeira vez, um candidato do PS (Partido Socialista) chegou em primeiro lugar no primeiro turno da eleição presidencial, com 34,83% dos votos, entre dez candidatos. E, das 20 regiões administrativas, Hollande ganhou em 13. E o total de votos da esquerda (o Partido Socialista de Hollande, o Grupo de Esquerda de Melenchon e o partido Verde da Eva Joly) passou de 50%.

Quem ganha Paris ganha a França.

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SAINT-DENIS

Dentro de Paris, onde está inclusive o estádio Saint- Denis, o “Stade de France”, o Maracanã da França, fica a cidade de Saint- Denis, que não é Paris porque é uma cidade independente. Mas o voto lá é também um voto em Paris. E em Saint- Denis o candidato socialista François Hollande chegou folgadamente na frente, com quase 20 pontos a mais do que seu adversário Sarkozy, que teve 19,48% e Hollande 38,68%.

Ganhou em Saint- Denis ganha na França, até mesmo na Copa.

Outro dado que confirma as eleições como a rejeição de Sarkozy é que as esquerdas tiveram 45,81% dos votos e Sarkozy só chegou a 27%. O resto ficou com a extrema direita e o centro, confirmando as pesquisas que estão dando para o socialista Hollande, no segundo turno, 54%, 55% ou 56%. E Sarkozy não consegue passar de 44%, 45% ou 46%.

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JORNALISMO

Não se pense que eleição aqui é um doce filme de Brigite Bardot. O maior, mais brilhante orador da campanha, mais jovem senador da França, intelectual, professor universitário, fundador da Frente de Esquerda, e que teve 11,11% de votos, brigou com os jornalistas da respeitada revista “Le Nouvel Observateur”, sobretudo o consagrado diretor Jean Daniel, e disse:

1 – “Os jornalistas do “Le Nouvel Observateur” são ratos que é preciso mandar de volta para seus esgotos a golpes de balas”.

2 – “Cada criatura viva tem seus inconvenientes. Para as vacas, as moscas. Para nós políticos, os jornalistas”.

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