Reajuste pela inflação só para o salário mínimo; concentração de renda avança

Charge do Pelicano (humorpolitico.com.br)

Pedro do Coutto

O presidente Jair Bolsonaro, cumprindo a legislação do país, reajustou o salário mínimo em praticamente 10%, repondo assim o índice inflacionário do IBGE registrado em 2021. Como os demais salários dos funcionários públicos e dos trabalhadores não acompanham a inflação oficial, logicamente a concentração de renda se amplia, sobretudo porque os preços, principalmente os da alimentação, no ano passado subiram mais do que o avanço oficial inflacionário.

Esse é um dos lados da questão. O outro é que o salário mínimo avançando mais do que os demais vencimentos faz com que uma faixa cada vez maior de trabalhadores e servidores públicos desçam de patamar passando a ganhar também o piso oficial de agora de R$ 1212 por mês. A renda dessa forma vai se concentrando cada vez mais.

MARATONA – Inclusive vale acentuar que o reajuste dos salários sucede sempre à inflação registrada ao longo de 12 meses, variando conforme acordo sindicais.  Mas ocorre que no mês seguinte, imediatamente após um aumento nominal, os preços voltam a ganhar dos salários e essa corrida é uma maratona de 12 meses.

Todos os anos o fenômeno se repete e a renda vai se concentrando. Aliás, afirma-se que os conservadores desejam manter essa equação entre preços e salários desvantajosa para o trabalho humano. Mas a classificação dos conservadores contém um equívoco; eles não desejam apenas conservar, empenham-se para expandir sempre a concentração de renda.

IDEÓLOGOS – Devem ter como ideólogos o ministro Paulo Guedes e o governo Jair Bolsonaro. No momento, no Brasil, um terço dos que trabalham ganham um salário mínimo.  Há uma parcela que ganha menos, as 14 milhões de famílias inscritas no Auxilio Brasil.

Acontece que o Auxilio Brasil tem que ser dividido pelo número de pessoas de cada família, e com isso significa uma diminuição de seu alcance emergencial. Além disso, o auxílio de emergência não resolve o problema social. Este só se resolve através do emprego e do salário justo, princípios inclusive cristãos.

O presidente Bolsonaro só há muito custo e liberou recursos para socorrer os milhares de desabrigados na Bahia. Esqueceu que a Bahia é o quarto maior colégio eleitoral do país, somente atrás de São Paulo, Minas e Rio de Janeiro. Tem 10 milhões de eleitores.

PANELAÇO –  No momento em que ia ao ar em cadeia de televisão, incluindo a Rede Globo,  no Rio, na cidade de São Paulo e em várias capitais brasileiras, as panelas bateram nos edifícios residenciais, o que revelou, diga-se de passagem, a grande audiência da televisão. Bolsonaro finalmente anunciou a vacinação de crianças, mas condicionou à iniciativa por parte dos pais, o que é natural, e apresentação de receita médica.

Logo após, a TV Globo e a GloboNews divulgaram uma entrevista com o ministro Marcelo Queiroga. Ele também anunciou a vacinação infantil, mas não incluiu a condicionante de apresentação de receita médica. Exigência de receita médica para vacinar é um absurdo completo, algo que nunca aconteceu em país algum do mundo.

AÇÃO DA ANVISA – A Anvisa entra em ação e impede a atracação de navios com passageiros atingidos pela Covid-19. Enquanto a reportagem de batida de panelas foi de Patrik Camponês e Daniel Gulino, O Globo de ontem, a matéria sobre a decisão da Anvisa mandando desembarcar os passageiros contaminados pela Covid, Folha de S. Paulo de ontem, foi de Raquel Lopes.

O navio cruzeiro MSC Splendida apresentou 68 pessoas contaminadas, 56 tripulantes e 12 turistas. O número mostra que um dos fatores mais fortes da contaminação é a proximidade porque esta explica os casos verificados.

A atracação no Porto de Santos foi proibida e os contaminados foram hospedados em hotéis da capital baiana. A maioria dos contaminados só apresentava sintomas leves, incluindo os assintomáticos. O episódio assinala a importância da Anvisa e também do uso de máscaras de distanciamento mínimo entre as pessoas.

INVESTIMENTOS  – Reportagem de Stephanie Tondo e Janaina Lage, O Globo de sábado, com base em dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais (Anbima) revela que em 2021 os investimentos de brasileiros em áreas financeiras internacionais, principalmente é claro nos Estados Unidos, cresceu 28% em relação às aplicações realizadas em 2020.

Atingiram em moeda brasileira R$ 827,19 bilhões, consequência natural da queda da Bovespa de 12% no ano que terminou. Um dos motivos, a meu ver, está no fato de a taxa Selic que rege as aplicações em renda fixa, como é o caso dos títulos que lastreiam a dívida interna de R$ 6 trilhões ter ficado em 9,25%, perdendo para a inflação do IBGE de 10,7%. Outro fator foi a subida do dólar registrada no ano passado. Além disso, destaca-se o fato de a Bolsa de Nova York ter proporcionado em 2021 um avanço de 30%.

PARAÍSOS FISCAIS – Finalmente, um outro fator: se o ministro Paulo Guedes e o presidente do Banco Central, Roberto Campo Neto, investem até em paraísos fiscais para assegurar uma rentabilidade efetiva a seus investimentos, os brasileiros e brasileiras que têm condições seguem o exemplo.

Porém, na quase totalidade, aplicam nos mercados financeiros americanos pagando tributos e não se beneficiando de isenção de impostos como é o caso do paraíso existente nas Ilhas Virgens britânicas. Os que investem no Brasil pagam tributos legais a começar pelo Imposto de Renda. A incidência do IR sobre os salários acima de R$ 4 mil é de 27,5% na fonte. Não é preciso dizer mais nada. Mas hoje é dia 2 de janeiro. Vamos dar a volta por cima, ter esperança até porque sem ela não se vive.

9 thoughts on “Reajuste pela inflação só para o salário mínimo; concentração de renda avança

  1. Pedro Coutto bom dia!
    Vai me desculpar mas eu não concordo com aumento linear com mesmo percentual para reajuste de salário de todos os servidores.

    Isso por uma razão muito simples. Tomando, por exemplo, 10% de correção.
    A remuneração de quem ganha 1 mil terá 100 reais de reajuste.
    Quem ganha 10 mil terá 1 mil de reajuste.
    Quem ganha 30 mil teria reajustado rm 3 mil.

    Logo, a concentração de renda somente aumenta com distanciamento daqueles que recebem mais aprofundando as desigualdades.

  2. Pedro do Couto esqueceu de escrever que os reajustes (e os não reajustes) voltaram ao tempo do FHC.
    Naquela época o salário mínimo não ultrapassava os US$ 100. Era uma maldição!
    Já na era do PT, ultrapassou US$ 200!
    E aquela alegação de que as domésticas e o emprego em geral seriam prejudicados não se confirmou!

  3. “De 2004, quando o valor do salário mínimo era de R$ 260,00, a 2016, a política de valorização do salário mínimo adotada pelos governos de Luís Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff promoveu um aumento real de 74,33% nos rendimentos. Se nesse período tivesse sido aplicada a política de Bolsonaro e Guedes, o piso nacional em janeiro de 2020 teria sido de R$ 599.”
    PT

  4. Para esse Desgoverno nem trabalhadores como as domésticas devem viajar à Disney – segundo o posto Ipiranga da Economia – nem cursar faculdade – segundo o Posto Ipiranga da Educação

  5. O destaque desse ano que passou na área Econômica, não foram os juros altos, a inflação, o furo no Teto de Gastos, o Orçamento Secreto, as Emendas do Relator, o Desemprego, nada disso, apesar de serem tragédias gregas desse governo medieval.
    O que causou mais impacto nas consciências coletivas, foi a descoberta dos investimentos nos paraisos fiscais das Ilhas Virgens Britânicas, do Ministro da Economia, Paulo Guedes e do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, justamente as duas maiores autoridades da Economia do país. Eles foram desnudados no âmbito do Escândalo Pandorra Papers, sim, no exterior, porque se fosse aqui dentro do país, seriam demitidos os auditores responsáveis pela descoberta.
    Guedes e Campos não confiam nas instituições de crédito do país, nossos bancos, que nos remuneram com uma miséria de juros, enquanto cobram uma fortuna, quando pedimos empréstimos no Bradesco, no Itaú e no Santander.
    Além de faturar alto, Guedes e Campos não vão pagar nenhum Imposto. Puxa vida, porque não divulgaram isso para nós, simples mortais, são uns egoístas.
    E ainda falam em país decolando na forma de V. Quem decolou foram esses dois espertinhos, nós os brasileiros, estamos na pista, com os pneus furados. Nossa aeronave não levanta voo.

  6. Os ricos no Brasil não querem saber de Bolsa de Valores, Fundos, CDB, Tesouro Direto, nada disso. Guedes deu o exemplo para os afortunados brasileiros. A dica é: Paraíso Fiscal.
    Pode ser nas Ilhas Virgens Britânicas ou aqui mesmo no nosso continente, no Panamá, mais perto é claro. Sem imposto e com a garantia do anonimato. Só tem um perigo: encontrar um jornalista investigativo pela frente como no escândalo Pandorra Papers.
    Depois é só contratar um bom advogado, que certamente encontrará uma narrativa plausível.
    E a vida seguirá seu rumo…
    Pois é, quando as contas começam a não fechar, o ministro Guedes acena com mais imposto para o sofrido povo brasileiro. Ele já aumentou a alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras no dinheiro de investi.ento dos outros é claro, porque o dele está bem protegido, livre do IOF e dos 27,5 % do Imposto de Renda.
    Essas coisas só acontecem no Brasil, com a omissão do presidente Bolsonaro, que fechou os olhos para esse escândalo, pois só está preocupado com Lula, com Moro, com Dória, com as esquerdas e suas férias, porque o corpo não é de ferro. Todo mundo tem direito ao descanso e ele também, é claro. Pois é um simples mortal como todos nós. De vez em quando bate uma preguiça daquelas.
    Governar é muito difícil, diria até, que é um sacrifício enorme.

  7. É importante demonstrar essa falta de ética do ministro, que quer impor impostos para o setor produtivo e para os assalariados, enquanto foge desses mesmos impostos, investindo nos paraisos fiscais, como demonstrou o Pandorra Papers.
    Isso é mentira? Então todos os jornais brasileiros, da Europa e dos Estados Unidos estão mentindo também.
    Nossa memória é muito curta, por isso, torna-se necessário repetir a exaustão, o comportamento dos ricos brasileiros, que não têm nada de patrióticos, conforme alardeiam aos quatro ventos, para enganar os incautos.
    Trago a lume, para exemplificar, o que o Editor escreveu a poucos instantes:

    ” Parodiando a teoria do artista plástico americano Andy Warhol, que previa a fama por apenas 15 dias, Golbery costumava dizer que a memória do povo brasileiro também dura apenas 15 dias. Depois disso, o assunto de Golbery ou a fama de Warhol logo se esgotariam, para cair numa espécie de esquecimento coletivo”.

    Está dito aí, a razão desse singelo comentarista, ao repetir a exaustão, o comportamento da Elite nacional.

    Se fosse um deslise do trabalhador, logo estariam, os federais, na sua casa, às 06:00 da manhã sem dó nem piedade, vasculhando computadores, PEN drives, tablets, se tem cofre, etc….Mas, ministro é outra coisa, por isso, é que o Foro Privilegiado deveria acabar, porque é uma pouca vergonha.
    E ainda falam, que todos são iguais perante a Lei. Trata-se da maior mentira da história republicana.

    A Lei para o pobre é imediata, logo na abordagem, o suspeito leva tapa na cara, chutes generalizados,brabo de arraia, soco na cabeça e todas as demais humilhações, que passam todos os dias nos telejornais.
    Não há justiça no Brasil, talvez no paraíso possa haver, como disse, uma vez, o ministro aposentado do STF, Eros Grau.

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