Recordar é viver: o que Valério disse e o que faltou para processar também Lula

Marcelo Mafra

Com a finalização dos procedimentos de julgamento da Ação Penal 470, o chamado Mensalão, teremos a fase das publicações no Diário de Justiça do STF e, depois, alguns recursos apresentados pelos réus através de seus milionários e caríssimos advogados.

Diante das penalidades, que apontam para a obrigatoriedade de prisão em regime fechado, indicando muitos anos de cadeia para os principais personagens, dentre eles o publicitário Marcos Valério, vale recordar o que já foi divulgado pela mídia como sendo revelações que ele teria feito.

Uma amostra disso referia-se às afirmações, que seriam de Marcos Valério, dizendo: “o caixa real do mensalão era o triplo do que foi descoberto pela Polícia Federal, com dinheiro oriundo também de outras empresas para conseguirem obter facilidades junto ao governo”; “Lula se empenhava pessoalmente na coleta de dinheiro para essa engrenagem clandestina”; “muitos empresários se reuniam com o presidente Lula, combinavam a contribuição e, em seguida, despejavam dinheiro no cofre secreto petista, sendo que o controle dessa contabilidade cabia ao então tesoureiro do PT, Delúbio Soares, que ajudava na administração da captação, e definia os nomes dos políticos que deveriam receber os pagamentos determinados pela cúpula do PT, com o aval do então ministro da Casa Civil, José Dirceu”.

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COM LULA

Também ele teria dito ter se encontrado várias vezes com o então presidente, e que, ao tratar desse esquema, quando estava com José Dirceu, cujo gabinete ficava no 4º andar do Palácio do Planalto, bastava descerem a escada e chegavam rapidamente até o Lula.

Para não revelar todo o esquema, teria recebido garantias de proteção, numa combinação de versões sobre o que dizer, realizada com Delúbio Soares e José Dirceu. Porém, parece que a estratégia não deu certo. A tentativa de deixar de fora uma espécie de “sujeito oculto”, alguém com poderes no maior cargo do Poder Executivo Federal e que pudesse agir para protegê-los, não adiantou.

Na época das denúncias, Lula convocou rede nacional de Rádio e TV para dizer que tinha sido traído, e pediu desculpas ao povo brasileiro pelo que tinha acontecido, referindo-se ao escândalo do chamado Mensalão.

Lula precisava aparecer como um ingênuo, alguém que não sabia de nada do que estavam fazendo e tramando, à época, em salas do próprio Palácio do Planalto.

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VERSÃO DO CAIXA 2

Depois, orientado por Márcio Thomaz Bastos, mudou a versão e disse que se tratava apenas de caixa 2 de campanhas eleitorais.

Neste blog, em 30 de agosto de 2012, no artigo intitulado “Como armaram a história do Caixa Dois do PT”, o jornalista Sebastião Nery já recordava um outro artigo anterior dele, de 19 de julho de 2005, em que comentava sobre as combinações que teriam sido feitas com Lula para coincidirem as versões sobre o caso.

Vale lembrar, ainda, o que está sendo pouco divulgado pela mídia, que é o que está no Inquérito nº 2.474 no STF, desde 2007.

Este acabará sendo uma espécie de desdobramento e continuidade do caso do Mensalão.
Os 77 volumes desse inquérito tratam de investigações sobre irregularidades no convênio entre o Banco BMG e o INSS.

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ATOS DE LULA

Existem atos diretos, praticados por Lula, tais como a Medida Provisória nº 130, convertida depois em lei (nº 10.820/2003), e o Decreto nº 5.180, que permitiram ao Banco BMG, envolvido no esquema do Mensalão, tornar-se habilitado a realizar empréstimos consignados em folha de pagamento para milhões de aposentados e pensionistas.

Esse Decreto nº 5.180, de 13 agosto de 2004, foi elaborado para alterar o art. 154 do Regulamento da Previdência Social justamente para permitir que esses empréstimos pudessem ser feitos por qualquer instituição consignatária, independentemente de ser ou não responsável pelo pagamento de benefício.

Ou seja, ficava bastante evidente a manipulação no sentido de se adaptar o esquema para beneficiar esse banco. Lula chegou a assinar um modelo de carta, que foi remetida para mais de dez milhões de pessoas, estimulando esses empréstimos. Diante dessa “bondade” do próprio presidente em recomendar um “bom negócio”, as pessoas acreditaram. Com isso, o BMG, que tinha apenas 10 agências, conseguiu lucros fantásticos, da ordem de três bilhões de reais.

Se o empresário Marcos Valério resolver vir a público de forma mais objetiva, sem a forma escamoteada com a qual teria repassado as informações divulgadas pela revista Veja, certamente teremos muitas novidades.

É de se imaginar o que ele, arrependido de não ter contato tudo o que sabia quando deveria, poderá fazer, desvendando o mistério e mostrando que ficou faltando um para condenar: o Grande Chefe e Mandante de todo esse esquema.

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