Rede de terror e SNI dominavam o governo João Figueiredo

Pedro do Coutto

Magnífica e destinada à eternidade da História do Brasil a série de reportagens de Chico Otávio e Alessandra Duarte que O Globo vem publicando desde a semana passada e que no capítulo de 25 de abril revelou a estrutura do terrorismo em 1981 que, em conexão com a estrutura central do SNI, desencadeou os atentados do Riocentro e o que culminou com a explosão das rotativas e o incêndio do prédio da Tribuna da Imprensa. O jornal foi pelos ares em março. Quanto ao Riocentro, 30 de abril, não fosse um lance imprevisto, o sargento Guilherme do Rosário e o então capitão, hoje coronel da reserva, Wilson Machado, teriam causado a morte de centenas, talvez milhares, de pessoas, vítimas inocentes de uma rede terrorista em conexão com pelo menos uma corrente exacerbada do Serviço Nacional de Informações.

O general Figueiredo iniciara seu governo em 79 e assinou em agosto a Lei da Anistia depois incorporada à Constituição de 88. Temos que reconhecer isso por dever de justiça. Como também partiu de sua caneta o projeto de convocação das eleições diretas para os governos estaduais em 82. Tais ações provocaram reações alucinadas de grupos radicais de direita que, vê-se hoje, com o indispensável apoio de empresários reacionários – porque sem dinheiro não se desencadeiam ações de inspiração política  – resistiram e desafiaram o presidente da República. Os terroristas e o SNI mandavam mais que o próprio Figueiredo. Tanto assim que ele não teve condições de punir os que o enfrentavam para os quais a expressão “prendo e arrebento” era apenas uma nuvem de fantasia a encobrir a triste realidade.

É  só comparar o quadro do SNI em 81, sua estrutura no Rio, e os acontecimentos que se sucederam todos sem a descoberta dos culpados. Mas antes vamoslembrar que o episódio do Riocentro causou a demissão do general Golberi do Couto e Silva da chefia da Casa Civil. Ele defendeu a apuração do atentado da noite de 30 de abril para primeiro de maio.O ministro chefe do SNI, general Otávio Medeiros, radicalmente contra. Do dia para a noite, o sargento Guilherme do Rosário foi condecorado pelo comandante do I Exército, general Gentil Marcondes Filho. A Rede Globo filmou não uma, mas duas bombas no  local da véspera da tragédia. A matéria foi ao ar no Jornal Hoje de 1º de maio. A segunda bomba desapareceu à noite da tela do Jornal Nacional. Ela destruía a tese de que os dois militares, em viatura civil, estavam exercendo funções de patrulhamento no local, quando o primeiro artefato matou o sargento e feriu gravemente o capitão. Como explicar a segunda bomba?

Tampouco a primeira. Muito menos a explosão da Tribuna da Imprensa. Na estrutura do SNI revelada por Chico Otávio e Alessandra Duarte, no comando, portanto no topo da Agência Central, aparece o general Newton Cruz. E quem era o chefe da Agência Rio? Sabe-se agora, 30 anos depois, que era o general Waldir Muniz, exatamente o Secretário de Segurança do governo Chagas Freitas. Como poderia ele, assim, apurar os responsáveis pelos dois atentados na área do Rio de Janeiro? Em política, aliás como na vida, não se deve ver apenas os fatos. Mas ver nos fatos. O que no conteúdo efetivamente representaram. João Figueiredo mandava pouco. Porém o destino colocou em seu caminho a redemocratização com Tancredo Neves. Detestando Paulo Maluf, o general a assegurou. Não com Tancredo, mas com Sarney, a quem recusou passar a faixa. Saiu pela porta dos fundos. Como será julgado pela história no futuro? Eis aí uma pergunta interessante.

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