Rede TV e Folha de São Paulo: incluam o salário no debate

Pedro do Coutto

A Rede TV e a Folha de São Paulo promovem no próximo domingo, a partir das 21 horas, debate reunindo os quatro principais candidatos à presidência da República, cujos partidos possuem representação no Congresso Nacional. O primeiro foi na Band, esse agora será o segundo de uma série que deve – penso eu – passar pela Record, pelo SBT, novamente pela Band para terminar dia 29 na Rede Globo. O confronto de domingo reúne Dilma Rousseff, José Serra, Marina Silva e Plínio de Arruda Sampaio. O assunto relativo às violações de sigilos fiscais em série é claro que vai entrar e os três adversários vão cobrar evidentemente um posicionamento da ex-chefe da Casa Civil a respeito dos crimes em sequência.

Uma sequência que, sem dúvida, desmoraliza a autoridade do ministro Guido Mantega e do Secretário da Receita Federal, Otacílio Cartaxo. Ambos deveriam ser demitidos. Mas esta é outra questão, que vai permanecer na ordem do dia.
Independentemente desse item, inegavelmente de grande importância, acredito que chegou o momento do tema salarial ser colocado em foco. Não existe questão mais importante e duradoura  e que até o momento, não entrou em pauta alguma. É preciso portanto que isso ocorra. Se pensarmos um pouco vamos constatar que está na raiz de quase tudo.

A começar pelo desafio da habitação. O Brasil apresenta um déficit de moradias em torno de 10 milhões de unidades, abrangendo praticamente de 35 a 40 milhões de habitantes. Como poderá ser resolvido? Somente através de uma política trabalhista autêntica que impeça que os reajustes anuais percam para a inflação. Pois se tal continuar a acontecer, não haverá solução possível. A Taxa de Referência (TR) que rege as cadernetas de poupança regula igualmente as prestações. Inclusive não pode ser de outra maneira. Não é possível dar casa a ninguém. Mas o poder público – esta é que é a história – tem obrigação de assegurar as condições sociais para que a população possa adquiri-las. Como fazer isso?
Basicamente assegurando reajustes anuais de salários nunca inferiores às taxas de inflação do IBGE ou da Fundação Getúlio Vargas.

Há uma defasagem acentuada entre estes vértices registrada principalmente ao longo dos oito anos de mandato de FHC, ainda não zerada pelo governo Lula. Enquanto tal prática persistir, programa habitacional adeus. O país não sairá do lugar em matéria de casa própria. E se não sair , tampouco sairá do lugar no que se refere ao saneamento. Basta pensar logicamente um pouco. A casa própria implica na existência de rede de esgotos e de água. A favelização conduz exatamente ao plano totalmente oposto. Quanto mais favelas, menos saneamento. A rede de esgotos não pode ser levada ao alto dos morros. Eis aí uma questão bastante simples. Ao contrário do que sempre desejam os tecnocratas: para estes, quanto mais complicado melhor. A complicação e equações complexas nada resolvem no plano social.

Para não alongar demais as implicações amplas que uma política salarial apresenta, citemos a face da educação no processo humano. Como pode a educação avançar concretamente se milhões de alunos vivem nas favelas e nos conjuntos residenciais cheios de valas infectas e cortados por canais de esgoto a céu aberto? É mais que difícil: impossível. O salário encontra-se na raiz de tudo. Ele é o único instrumento possível de distribuição de renda. Não existe outro.

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