Redistribuição de renda só com uma política permanente de empregos e salários

Charge reproduzida do jornal Expresso (Portugal)

Pedro do Coutto

Em artigo publicado ontem em seu espaço no O Globo, Merval Pereira focalizou, aliás com razão, como essencial para o país a redução da desigualdade econômica e social enquanto base tanto do regime democrático, quanto da valorização do trabalho humano. Colocou bem a questão e acrescento que para a redistribuição de renda defendida por quase todos os economistas é indispensável colocar-se em prática uma forte e concreta política no Brasil de retomada de empregos e valorização dos salários. Caso contrário, o consumo do qual a indústria e o comércio necessitam não poderá ser ampliado.

É preciso levar em conta também que a população brasileira cresce na velocidade de 1% ao ano e, assim, verifica-se sempre uma crescente demanda de postos de trabalho. No momento, o desemprego atinge mais de 14 milhões de homens e mulheres. E pergunto, a quantos milhões vai o total do não emprego? Isso porque o desemprego é medido pela demissão dos que se encontravam trabalhando.

TERMÔMETRO – Mas qual o termômetro para medir o não emprego que reúne os que não perderam o emprego simplesmente porque não começaram a trabalhar? Merval Pereira cita Thomas Piketty, grande economista e pesquisador francês, autor de “O Capital do século XXI”, uma obra monumental, e também do livro “Capital e Ideologia”.

No “O Capital no século XXI”, Piketty comprova que o mercado de trabalho não cresceu na mesma proporção que a concentração de renda, sobretudo porque a lucratividade das aplicações financeiras, caso dos rentistas, supera em muito a lucratividade da produção econômica.

Os que aplicam em papéis, portanto, não geram empregos, mas suas taxas de remuneração superam, o que representa uma contradição, os lucros legítimos da indústria dos serviços e do comércio. Dou ênfase aos lucros legítimos recorrendo ao exemplo do Brasil onde é grande o volume dos lucros ilegítimos.  Basta ver as revelações da CPI do Senado Federal presidida pelo senador Omar Aziz. O caso da compra de vacinas é um escândalo absoluto.

MENSAGENS PUBLICTÁRIASEm uma conversa com o economista Filipe Campello, meu amigo, focalizamos a divulgação massiva de mensagens publicitárias nos quatro principais jornais do país – O Globo, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e O Valor – e também as veiculadas através da TV Globo e da GloboNews, oferecendo uma lucratividade às aplicações financeiras que desafiam a realidade econômica do país e os limites naturais do bom senso. Surgem ofertas até de títulos emitidos por governos de outros países, o que demandaria diversas ações complementares.

Além desses exemplos, existem propostas que oferecem retribuições bem acima das taxas das cadernetas de poupança e dos fundos de investimento. A fantasia está substituindo a realidade, sobretudo porque é indispensável levar em conta que a inflação do IBGE para os últimos 12 meses atinge a escala de 10%. Portanto, as cadernetas de poupança, cujo saldo ultrapassa R$ 1 trilhão, 15% do Produto Interno Bruto, estão operando com juros negativos.

Os aplicadores, todos nós, estão perdendo para a inflação. Os bancos e os fundos de investimento e de pensão, que detém títulos do Tesouro Nacional, estão também com uma remuneração abaixo do índice inflacionário. Daí porque a tendência do Banco Central é elevar o percentual da Selic.

PARAÍSOS FISCAIS  –  Reportagem de Fábio Pupo, Folha de S. Paulo desta terça-feira, revela que no mês de junho em palestra para a CNI e para a Federação Brasileira de Bancos, o ministro Paulo Guedes defendeu na tramitação do projeto sobre o novo Imposto de Renda o fim da taxação sobre as aplicações de brasileiros em paraísos fiscais, a exemplo dele próprio, aplicador numa offshore das Ilhas Virgens Britânicas.

Acentua Fábio Pupo que nas explicações que o Ministério da Economia tentou apresentou através de uma nota técnica, não ficou claro se o ministro Paulo Guedes deixou de fazer aplicações a partir do momento em que assumiu a pasta no governo Bolsonaro.

Na palestra para a CNI e para a Febraban, Paulo Guedes, ao defender a isenção sobre esses rendimentos, disse: “Não vamos botar em risco a retomada do crescimento econômico sustentável que é o que está acontecendo. Eu sou um democrata, estou tentando ajudar o país.”

REAÇÃO –  A reportagem acentua que houve reação contrária do senador Ângelo Coronel, do PSD da Bahia, que anunciou ontem que estudará a matéria no sentido de apresentar emenda anulando qualquer hipótese de isenção. “Vou ouvir todos os segmentos e vamos fazer audiências públicas”, afirmou.

De outro lado, o senador Randolfe Rodrigues recorreu ao Supremo Tribunal Federal contra o posicionamento do ministro Paulo Guedes e do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, na questão de serem autores de aplicações em paraísos fiscais, como é o caso das Ilhas Virgens Britânicas e do Panamá. O relator sorteado para a matéria foi o ministro Dias Toffoli.

FUTEBOL –  A Turner, empresa do grupo Warner, manteve contatos com dirigentes de clubes brasileiros no sentido de que eles, quando mandantes das partidas, pudessem escolher a transmissão dos jogos, afastando-se assim da exclusividade presente no contrato com a TV Globo. A reportagem é de Alex Sabino, Folha de S. Paulo de ontem.

A Turner Warner queria arrematar espaços tanto na televisão aberta, quanto nos canais da Sport TV e no Pay-per-view do sistema Globo. Mas, no dia 28 de setembro, a empresa americana fracassou e anunciou a sua desistência em transmitir os jogos do Campeonato Brasileiro que pretendia realizar a partir de 2022. A Turner chegou a firmar um contrato paralelo no valor de R$ 200 milhões com o Atlético Mineiro, o Bahia, o Ceará, o Fortaleza, o Juventude, o Palmeiras e o Santos.

Alex Sabino diz que há dúvidas se a Turner já realizou o pagamento. Na minha opinião, o problema do futebol pela televisão não se encontra somente na transmissão dos jogos. Existe todo um processo de cobertura por semana que antecede as partidas e essa cobertura é que efetivamente valoriza os jogos. Com a valorização dos jogos aumenta a audiência, como é natural. E aumentando a audiência, amplia-se o universo da publicidade. A desistência da Turner, acentua a reportagem, surpreendeu o mercado.

CAMPEONATOS ESTADUAIS –  Mas é fato também que é muito bom o relacionamento da Globo com os dirigentes de clubes. Entretanto, a Globo desistiu de transmitir em 2022 os campeonatos estaduais do Rio e de São Paulo, cujos direitos foram adquiridos pela Record.  

A TV Globo não demonstrou interesse em transmitir a Copa América deste ano, não aceitando os valores exigidos pela empresa detentora dos direitos. A Copa América está sendo transmitida pelo SBT. Relativamente à Copa do Mundo do próximo ano, Alex Sabino acrescenta que o contrato encontra-se em processo de discussão, aguardando-se o pagamento de parcelas cujos valores encontram-se sob análise.

5 thoughts on “Redistribuição de renda só com uma política permanente de empregos e salários

  1. A ordem geral é centrar fogo, usar o mapa da mina para desgastar o governo.
    A mídia já calibrou os morteiros para derrubar as trincheiras dos inimigos.
    Derrubemos o Paulo Guedes e o Campos Neto, vamos deixar Bolsonaro sem calça encostado na parede.

  2. Só sei que depois ds F-1 ter ido para a Band, só vi a primeira corrida.
    Gostemos ou não, a Globo é altamente profissional e de altíssima qualidade.

  3. A única política praticada no Brasil é a arrecadatória, para assim garantir a boa vida das elites do judiciário, legislativo, judiciário e seus satélites.

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