Reflexões sobre a amizade

Carlos Chagas

A amizade continua um dos grandes sentimentos nas relações humanas, mas existem momentos em que deve ser sacrificada por conta de valores mais altos. Em nome da ética, da paz e da justiça, por exemplo.

Nada contra a amizade que liga a presidente Dilma Rousseff e a presidente da Petrobras, Graça Foster.   O problema é que estão colocadas em campos opostos, depois de revelados os escândalos naquela estatal. Certamente Graça Foster nada teve a ver com a roubalheira praticada por maus diretores, péssimos empreiteiros e execráveis políticos. O estranho é a presidente da Petrobrás alegar desconhecimento do que se passava no seu quintal. Mais estranho ainda,   que   a presidente da República venha sustentando a permanência da amiga contra a lógica primária de a empresa necessitar de uma faxina olímpica.

Em outros governos, bastando lembrar de Itamar Franco, Graça estaria substituída, até para que se defendesse de supostas ilações, a começar pela incompetência. O saudoso presidente demitiu seu maior amigo, Henrique Hargreaves, chefe da Casa Civil, acusado de irregularidades. Foi defender-se, obteve sucesso pleno e retornou ao cargo, com tapete vermelho e tudo.  A presidente da Petrobrás, no entanto, é mantida com toda pompa e circunstância, criando os maiores problemas para o governo com seus frágeis argumentos de nada saber e até de encobrir lamentáveis operações, como a compra da refinaria de Pasadena.

Cada dia que passa mais a situação prejudica o Brasil, não faltando quem preveja, no bojo da catarata de delações premiadas, alguma referência de empreiteiros a iniciativas   de Graça Foster. Para livrar-se de uma cadeia prolongada, os malandros fazem de tudo, começando por mentir.

Torna-se impossível imaginar a inexistência, entre 202 milhões de brasileiros, de alguém preparado para recuperar a Petrobras. Entre civis e militares não haverá um só preparado, em condições de devolver sanidade ao antigo símbolo do orgulho nacional?

Dilma é cabeça dura, mas chegaria a tanto a distorção de que por amizade está proibida de despedir a amiga? E quanto a Graça Foster, não percebe a importância de pular fora? Ambas deveriam precipitar o desenlace, não necessariamente levando ao rompimento ou à decepção, mas, pelo contrário, mostrando ampla prova de que são realmente amigas. Nesses tempos bicudos de desvarios do governo do PT, nada mais importante do que um pouco de bom senso. Especialmente para quem tem mais quatro anos de poder, num caso. E lealdade para com a amiga, de outro.

One thought on “Reflexões sobre a amizade

  1. Perfeito Carlos.
    Me lembrei de um ditado popular antigo, muito conhecido :
    ”Negócios, negócios. Amizade, à parte”.
    Mas, mas …
    Que saudades do PRESIDENTE ITAMAR.

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