Reflexões sobre a função dos jornalistas, em meio às notícias da milionária recontratação de Luis Nassif pela Rede Brasil, para ganhar R$ 55 mil por mês e trabalhar uma vez por semana.

Carlos Newton

Como muitos comentaristas previram aqui no blog da Tribuna da Imprensa, três meses depois da tragédia na Região Serrana do Rio de Janeiro, a imprensa praticamente abandonou o importante assunto. Sai uma ou outra informação, sempre notícia ruim. Outro dia, o jornal O Globo mostrou os alimentos abandonados em galpões que empresas cederam às prefeituras e agora tentam retomar, em função do descaso das autoridades nos três níveis – municipal, estadual e federal.

O Jornal das Dez, noticioso da GloboNews, também se preocupou em documentar a situação numa série de matérias, mostrando que nada mudou: moradores voltam a viver em áreas de risco, autoridades continuam fugindo à responsabilidade e vítimas estão abandonadas à própria sorte. 

Em seu livro clássico “A Era da Incerteza”, o genial economista norte-americano John Kenneth Galbraith (nascido no Canadá), já chamava atenção para o comportamento contraditório e emocional da imprensa. Nessa importante obra, Galbraith deu destaque a um antigo líder da indústria de comunicação dos EUA, que preconizava a tese de que “a função de imprensa é alarmar as pessoas”. Quase sempre é isso que acontece. Mas generalizar é um exagero. A imprensa faz muitas outras coisas, até mesmo divertir as pessoas.

O então presidente Lula também já discorreu várias vezes sobre o assunto. Em 2009, concedeu entrevista a Kennedy Alencar, da Folha, e disse o seguinte: “Não acho que o papel da imprensa é fiscalizar. O papel é informar“, acrescentando: “Para ser fiscal, tem o Tribunal de Contas da União, a Corregedoria-Geral da República, tem um monte de coisas. A imprensa tem de ser o grande órgão informador da opinião pública. Essa informação pode ser de elogios ao governo, de denúncias sobre o governo, de outros assuntos. A única que peço a Deus é que a imprensa informe da maneira mais isenta possível, e as posições políticas sejam colocadas nos editoriais”.

Lula fez algumas colocações acertadas, mas disse grande bobagem ao opinar que o papel da imprensa não é fiscalizar. São muitos os papéis ou funções da imprensa. Um dos principais é justamente fiscalizar as autoridades, denunciar desmandos, evitar corrupção. Qualquer um percebe, menos Lula, talvez até porque não goste de críticas.

Mas a função de criticar está tão arraigada no dia a dia da imprensa que Millôr Fernandes cunhou uma máxima que dificilmente pode ser contestada, ao afirmar: “Todo jornalista tem que ser de oposição”. É verdade, não há nada mais estranho do que jornalista de situação, especialmente quando ele se entrega de corpo e alma e não admite a menor critica ao governo, como se o governo estivesse absolutamente correto em tudo o que faz. Quem dera.

Essa frase genial do Millôr persegue e contamina, no bom sentido, a maior parte dos profissionais de imprensa. É muito difícil ser jornalista de situação, porque é impossível perder a visão crítica, especialmente a autocrítica. Assim, o jornalista de situação tem que defender tudo que o governo faz de bom. Porém, quando ele passa a defender até o que o governo faz de ruim, deixa de ser jornalista e passa a ser um mero assessor, um cabo eleitoral, alguma coisa assim. Da mesma forma, o jornalista de oposição que nao reconhece o que o governo faz de positivo, também não se comporta como jornalista, passa a ser apenas um algoz, um perseguidor do governo. 

O jornalismo precisa ser exercido da forma mais livre possível, o que é uma espécie de utopia, já que não existe liberdade absoluta quando tantos interesses estão em jogo, envolvendo o poder político e o poder financeiro, que podem caminhar juntos. Ou não, como Caetano Veloso costuma questionar suas verdades.

O grande filósofo alemão Karl Marx, há mais de 150 anos, já defendia ardorosamente a liberdade de imprensa e condenava qualquer possibilidade de imprensa estatal, considerando-a nociva à sociedade, “O governo ouve somente sua própria voz; sabe que ouve somente a sua voz; entretanto, tenta convencer-se de que ouve a voz do povo, e exige a mesma coisa do povo. O povo, portanto, cai parcialmente numa superstição política, ou isola-se totalmente da vida política, tornando-se uma multidão privada”, dizia ele.

Artigos de Karl Marx publicados no jornal alemão “Rheinische Zeitung” (Gazeta da Renânia), em 1842, mostram sua posição intransigente contra os governos que restringiam o papel da imprensa. Marx não aceitava nenhuma forma de censura aos jornalistas. Dizia: “Uma imprensa censurada é ruim, mesmo se produzir bons frutos”. O filósofo defendia a liberdade de imprensa como instrumento para vigiar o poder púbico e manter o Estado trabalhando a serviço do povo.  Para ele, “a função da imprensa é ser o cão de guarda público, o denunciador incansável dos dirigentes, o olho onipresente, a boca onipresente do espírito do povo que guarda com ciúme sua liberdade”.  

Tudo isso vem à tona quando lemos notícias na imprensa e recebemos grande número de e-mails denunciando a milionária recontratação do jornalista Luis Nassif pela Rede Brasil, depois dele ter feito acordo com o BNDES para reduzir a também milionária dívida de sua empresa “Dinheiro Vivo”, que nunca tencionou pagar. É triste ver um jornalista tão talentoso fazer esse papel de amestrado.

Há muitos outros iguais a ele, que não se envergonham desse papel que desmerece a profissão. São tão rancoroso nessa bajulação a quem está no poder que até costumam chamar de PIG (Partido da Imprensa Golpista) quem faz oposição ao governo. Na verdade, nem são mais jornalistas, são apenas colaboradores ou colaboracionistas, que se venderam  por 30 dinheiros.  Nassif é apenas um deles, faz parte da exceção que confirma a regra estabelecida pelo genial Millôr.

Já ia esquecendo. O sensacional programa de Nassif na Rede Brasil estreou semana passada. Você viu? Nem eu. Ninguém assiste a jornalismo chapa-branca, como se dizia antigamente. Aliás, isso nem é jornalismo.

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