Reflexões sobre as Quatro Verdades de Buda

Christian Cardoso

Sem pretensão de esgotar o tema Religião e Espiritismo, frequentemente abordado aqui no Blog. pedimos permissão para também tangenciar, ainda que rapidamente, o assunto dos “estados de consciência” à luz da tradição do budismo.

Nas religiões hindus de modo geral e, especialmente no budismo, a busca pelo nirvana visa à superação da consciência “individual”. Nirvana, em sânscrito, quer dizer “extinção”. O nirvana hindu consiste na união da alma individual (”atman”) à alma universal (”Brahman”, O Absoluto). O nirvana budista, por seu turno, refere-se à extinção da “ilusão eu individual”.

Uma tal ilusão se dá em virtude da precariedade da nossa posição no Universo e diante da Vida. As “Quatro Nobre Verdades” ditadas pelo Buda resumem, em certa medida, a “condição humana”.

Segundo a Verdade do Sofrimento, viver é sofrer, só a iluminação corresponde à alegria perene. A Verdade da Causa do Sofrimento identifica sua origem: o desejo (ou “sede”), o qual instila na pessoa sensações que variam no “continuum” afeto-aversão. Mesmo a satisfação de um desejo (fenômeno tão caro ao Ocidente hodierno), por mais singelo que o seja, reflete nossa condição de sofrimento.

A terceira verdade, Verdade da Extinção do Sofrimento, preconiza que o penar pode ser destruído. E a Verdade do Caminho para Extinção do Sofrimento corresponde à Senda Óctupla, princípios dos ensinamentos (”Dharma”) do Buda os quais abrangem: atitude interior (reta contemplação e reta decisão); agir moral (reto falar, reto agir, reto ganhar a vida) e; prática de meditação (reto esforço, reta atenção/concentração, reto aprofundamento) (Burkhard Sherer).

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RENASCIMENTOS

Em vez de uma única vida, as religiões indianas contam sempre com novos renascimentos, os quais não são, necessariamente, fatos extraordinários, não exprimem uma “segunda chance“ para “redenção”. Pelo contrário, nos renascimentos são acentuados sempre os lados difíceis da vida: a dor, a doença, a perda, a morte (Burkhard Sherer).

A meta da Senda Óctupla é, pois, atingir o nirvana. Albert Samuel usa a “alegoria da lâmpada” para descrever o nirvana budista: como a lâmpada que se apaga quando acaba o óleo, a pessoa não mais alimenta o fogo de seus desejos, escapando ao ciclo das reencarnações/renascimentos (”Samsara”).

Assim, quanto à questão da consciência, tem-se uma franca polarização entre a razão instrumental da tradição ocidental moderna e a razão simbólica das religiões hindus. Aquela, exasperando o “cogito” cartesiano e levando-o ao utilitarismo extremo, pretende afirmar a supremacia da individualidade. Antes, porém, encontrou terreno fértil entre iluministas e positivistas, a despeito de antigos ou modernos, como Kant, advertirem para os riscos de arbitrariedade no uso do “logos”.

A sabedoria popular e o poeta também reconhecem tais limites (“o coração tem razões que a própria razão desconhece”). Como reflexo desse utilitarismo exacerbado temos um homem moderno ocidental atomizado e “autossuficiente”…

A visão budista, por seu turno, busca mesmo um “estado de inconsciência”, de “esvaziamento do eu individual”. Através da experiência nirvana, do vazio, intemporal e imutável, dirige-se à suprema alegria e à clareza do espírito. Outro ponto de contato com o Espiritismo refere-se à “lei do karma” (ou lei da causa e efeito). No budismo sulista (Pequeno Veículo/Hinayana), por exemplo, atingido o nirvana ainda em vida (”pari-nirvana”), permanece-se neste mundo de aparência até o esgotamento do “karma” restante.

São humildes considerações.

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