Reflexões sobre o caso José Mayer

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Charge do Clayton (Jornal O Povo/CE)

Silvia Zanolla

Como psicóloga e educadora, acredito que qualquer situação trágica obrigatoriamente leva a uma condição ambivalente: causa intenso sofrimento e possibilita crescimento, melhoria na consciência individual e coletiva. O caso José Mayer é exemplo disso. Não posso, como mulher e mãe (de um homem e uma mulher adolescentes) concordar com apologias à punição quando o problema do machismo vai além do universo masculino. A sociedade é responsável pelo machismo. A sociedade inclui homens e mulheres.  O feminismo historicamente tem um papel primordial na autonomia da mulher. Isso não está em questão. O problema é quando há extremismo na contraposição ao machismo que se converte em oposição ao masculino (se inverte dominação masculina em dominação feminina).

É fato que a exploração da mulher ultrapassa o tempo, ressignifica-se na violência, na exploração e na impotência feminina frente à força do modelo do patriarcado ocidental (na Grécia antiga a mulher sequer possuía alma), além disso, nunca é demais ressaltar o alto índice de feminicídio no país. Que jamais ignoremos essa realidade bárbara.

O que tudo isso tem a ver com o assédio de José Mayer a uma mulher “branca e bonita” (palavras da própria)? Significa que, independente dos argumentos, a denunciante Su Tonani tomou a decisão correta de denunciar o abuso. Mas isso não pode se transformar em motivo para se fazer apologia à penas de morte simbólica do denunciado.

NATUREZA SOCIAL – Explico, essa experiência traumática e bárbara só poderá ser revertida se possibilitar uma profunda reflexão sobre a natureza social do gênero humano feminino e masculino. José Mayer errou e pelo visto não foi o primeiro caso, mas agiu corretamente em argumentos ao se manifestar por carta pedindo desculpa. Foi também uma atitude corajosa de um homem que viveu uma geração em que a mulher era muito mais desvalorizada do que o é hoje.

Uma leitura atenta da carta de Mayer levará a uma percepção do significado da denúncia como elemento de formação e aprendizagem. Depois da denúncia de Su Tonani, ele não poderia ter atitude mais correta. Nós mulheres, não podemos perder de vista que criamos os homens culturalmente e organicamente. Nossa responsabilidade nessa formação se duplica no que diz respeito à formação de valores.

MACHISMO – O machismo reflete a cultura de um tempo (ou tempos) da força sobre a sensibilidade. A mulher é uma figura enigmática ao mundo masculino, representa o sagrado e profano, a origem mater da vida. Isso por si, se não trabalhado, causa sentimentos ambivalentes ao universo masculino. A muitos homens a figura feminina ameaça como sendo de um poder indefinível. É compreensível que muitos homens, em uma mentalidade retrógrada e primitiva, manifestem seus medos em relação à mulher agredindo-a e diminuindo-a. Mas não é aceitável.  Ainda assim, prefiro pensar como a filósofa Hanah Arendt, para quem em qualquer circunstância a que se submete o julgamento pela punição ou condenação é preferível a reflexão profunda sobre o problema, no sentido de superá-lo como exemplo de aprendizagem e crescimento.

Parabéns à Su Tonani pela coragem de denunciar e abrir o debate. Parabéns a José Mayer por ter reconhecido seu erro primitivo e fazer de sua tragédia pessoal exemplo para muitos jovens de como não se deve tratar uma mulher.

27 thoughts on “Reflexões sobre o caso José Mayer

  1. A mídia (muito mais a globo em suas telenovelas), incentivam esse tipo de atitude machista, onde a mulher é vista como um objeto sexual. Muitas das mulheres. tais como as “frutas”, também incentivam esse tipo de atitude. Elas mesmos perdem o respeito, ainda mais quando expõe, nessa mesma mídia, seus desejos sexuais e suas intimidades. Elas confunde o significado da palavra “liberdade”. Liberdade é fazer o bem, continuamente. A outra tal liberdade, na cabeça delas e deles, é libertinagem. A outra tal liberdade, na cabeça delas e deles, é a falta de respeito com as pessoas e as famílias, pois mostrar suas partes íntimas é uma agressão a moral e aos bons costumes. Não sou puritana, mas certos valores devem ser preservados, pois os valores da sociedade estão todos, praticamente deturpados.

    • Daniela,

      Teu comentário é pertinente.

      Hoje as mulheres (não são todas),perderam o pudor, a vergonha, a moral.É só você dá umas voltinhas no seu próprio bairro,e notar como andam o mulheril de hoje.

      Parabéns pelo comentário.Neste post,até agora,para mim,foi o melhor.

      Abraço.

  2. A tal “Carta de Retratação”, nada mais é que uma tomografia, do caráter doentio deste sujeito.

    Tentar, com sutileza, conquistar uma mulher não é crime.

    A funcionária da Globo, foi assediada sexualmente, e pelo visto, o caso se enquadra também, pelo nova legislação, como vítima de estupro, por ter sido tocada em suas partes íntimas, sem o seu consentimento.

    O que o “Galã” decadente fez é crime, e o Ministério Público deveria processá-lo.

    Figura lamentável!

  3. O comportamento desse ator acabou “caindo na rede” e teve a necessária repercussão imensa.

    Penso que muita coisa vai mudar, para melhor, na mentalidade de homens que gostam de agir de forma semelhante a ele.

    Tenho um chefe, no trabalho, que adora atirar as suas “cantadinhas” para todas mulheres da equipe de trabalho. E até para mulheres de outras equipes. Ele age no sentido do “se colar, colou”.

    Mas eu tenho certeza de que as mulheres do local onde eu trabalho certamente não gostam nem um pouco disso, que ele (infelizmente) considera como simples “brincadeirinhas”. E não o são!

      • Concordo, Alvarez. Mas nem toda mulher, principalmente em relação ao chefe hierárquico, tem a coragem de expressar um “NÃO” bem direto. Pois ela pode pensar inclusive que sofrerá represálias diversas.

        Quando a mulher tem a tal coragem e nega veementemente, ela ainda corre o risco de estar lidando com um homem que faz parte dos supostos 5%, conforme você abordou acima. E esse tipo de homem não desiste. Portanto pode tornar ainda mais intenso o assédio sexual.

  4. Ahh, sei lá.A coisa não me cheira bem, o rumo, sei lá.
    Somos criados por mulheres, então tem que colocar sua parcela de culpa na balança também.
    Já fui abusado com mulheres no intuito de sair com elas, mais quando teve um ‘NÃO’ bem dito, alto e de bom tom, me retirei e parei na hora.
    Gosto de pensar que não sou a excepção.
    Ultimamente assuntos são levados ao extremo e isto não vai terminar bem. Religião, feminismo, racismo, futebol, etc.)

  5. A cantada não é o problema, até porque a mulher tem o direito de dizer não e por ponto final na intenção do Dom Juan.
    O relacionamento homem/mulher pressupõe que haja um intendimento para que o relacionamento se consume.
    O problema é quando a mulher rejeita o assédio e o homem parte para a insistência, ai a coisa se complica, por que ultrapassa o limite do razoável e normalmente descamba para a violência.
    O homem sempre que possível deve ter o seu “desconfiômetro” ligado, afinal ha também o conflito de gerações, um indivíduo de 67 anos ao assediar uma jovem 28 anos, já deve imaginar que sera uma aventura de sucesso duvidoso.
    Quanto a Globo, já passou da hora de por todo o seu acervo de ultrapassados num museu.

  6. Apesar de septuagenário, supostamente experiente, Mayer se deixou levar pela moral da época, ou seja, pela sua inexistência.

    Famoso, bem de vida, boa estampa, ator da Rede Globo, entendeu que suas condições profissionais e pessoais seriam suficientes para abusar e humilhar qualquer mulher que decidisse, pois ela iria sucumbir aos seus encantos, somados à falta de princípios e valores na sociedade brasileira e corroborados pelos papeis que representava nas novelas onde atuava.

    A vida real e imaginária se misturaram na mente de Mayer, que decidiu levar a sua existência sem baliza alguma, apenas de acordo com a sua vontade e capricho.

    Surgiu-lhe pela frente uma mulher que disse que não aceitaria seus galanteios e carinhos roubados, sem autorização, sem consentimento.

    E denunciou o célebre ator. Reclamou de seu comportamento desrespeitoso. Protestou porque se sentia humilhada e constrangida todas às vezes que a sua função nos estúdios da Globo os colocava juntos ou perto um do outro.

    Mayer inicialmente tentou se esquivar da sua culpa, acusando a sua geração, o machismo que havia sido criado, porém nada que alegasse para justificar sua conduta serviria como pretexto de imaginar que aquela mulher deveria se submeter a seus devaneios!

    E, discordo da articulista, quando parabeniza(?!) Mayer porque pediu perdão, como se este gesto, que seria o mínimo e de obrigação intransferível, fosse maior que a agressão sexual que cometera contra a sua colega na Globo!

    A autora do texto corrobora com a flexibilidade da ética e da moral exatamente como entendeu o ator leviano, ao enaltecer um reles pedido de desculpas, enquanto precisaria manter a sua crítica com relação à forma de vida que hoje está sendo proposta por diversos movimentos sociais, pelas autoridades constituídas, pelos poderes do país, que apregoam mediante interesses e conveniências modalidades de condutas relativas, conforme à situação, de acordo com mentes deturpadas e abjetas!

    Mayer se achou inatacável, imune a qualquer crítica pelo abuso que praticara, tanto usando por base seus papeis nas telenovelas quanto pelo comportamento deletério de nossos parlamentares e governantes, impunes aos crimes que praticam contra o país e povo!

    Digo mais:
    Aproveitou-se para ser um predador sexual da mesma forma que o seu colega José Abreu, outro porco imundo, discípulo do cuspidor-mor do parlamento, aquele indivíduo com nome de jipe, ao cuspir em uma mulher no restaurante que se encontrava, e sequer foi repreendido pela diretoria da Globo, que usou dois pesos e duas medidas!

    Em nome de uma política ladra e abjeta – em face das implicações comerciais que a emissora poderia receber, caso criticasse o petista asqueroso no seu gesto imperdoável ou até o punisse -, o porco Abreu ficou impune.
    Mayer foi atrás dessa possibilidade, e se deu mal!

    A Globo REPRESENTOU um papel, de manter dentro de suas instalações uma relação ética e moral entre ela e seus funcionários, mas, como uma atriz de poucos recursos técnicos não só deixou a desejar na sua atuação quanto à sua decisão de afastar o ousado Mayer foi uma atitude cínica e hipócrita!

    Em outras palavras:
    Cuspir pode, participa até do Faustão, o imundo, mas passar a mão nas mulheres não pode, a menos que Mayer fosse petista declarado, então a sua agressão teria ficado por isso mesmo!

      • Prezada Isis,

        Se estavas te dirigindo a mim, obrigado pelas palavras.

        Na condição de avô de três netas, preocupa-me o comportamento dos homens em geral com relação ao desrespeito com as mulheres.

        Ainda mais aqueles que se arvoram como os mais belos, mais talentosos, os melhores representantes da masculinidade!

        O endeusamento dessas pessoas, o enaltecimento de suas funções, que nos fazem passar o tempo, que servem como distração, colocam seus egos nas nuvens, e os deixam imunes e impunes a quaisquer observações no sentido de respeitar o próximo e obedecer as leis.

        Assim, repudio esta conduta imoral, e não perdoo o agressor, muito menos aquele homem crápula, amoral, abjeto, que agride a mulher da forma mais desprezível e repudiável que pode praticar contra um ser humano:
        Cuspir-lhe na cara, a maior das ofensas praticadas, a meu ver.

        E esta agressão deplorável e desgraçada, a Globo foi irresponsavelmente omissa com José Abreu, cujo comportamento foi pior que o de Mayer, errado, merecedor da punição sofrida, mas infinitamente menor na gravidade do gesto do petista infame e abjeto!

        Um abraço, Isis.
        Saúde e paz.

      • Isis,

        Obrigado por teres lido o comentário, e ele ter ido ao encontro do que querias ler a respeito deste caso.

        Um abraço.
        Saúde e paz.

    • Olá Bendl,
      Que bom que comentou o artigo! Para mim é um prazer!
      Acrescento apenas que não considerei o assédio de José Mayer menor do que seu pedido de desculpas. Falei em aprendizado.
      Para mim prevalece o que restou dessa celeuma aberrante! O que faremos com uma história que se repete dezenas de vezes em diferentes contextos (sou mulher e sei muito bem o que é isso). Ao ponto, não raras vezes de levar mulheres a serem assassinadas. Parabenizei Mayer por ter assumido publicamente e possibilitado uma lição a milhões de homens e mulheres, não por ter cometido o abuso. Tudo o que fazemos de errado reflete desdobramentos para bem ou, para a continuidade do mal.
      Não acredito em pessoas perfeitas ou, totalmente más. A maldade tem um toque infalível de ignorância. Isso não isenta o sujeito da maldade. constata necessidade de mudar o foco das ações e das concepções. Isso é formação de valores, penso eu. Acredito no desenvolvimento e no crescimento das pessoas. por mais que esteja difícil ultimamente!
      Abraço.

      • Prezada Silvia,

        Obrigado pelo comentário.

        Apresentei as minhas razões quanto ao pedido de desculpas que, somente ele, não basta para compensar a humilhação sofrida pela sua colega na emissora.

        Enfim, eis um caso pontual sobre o assédio masculino e que precisa ter limites, sob pena de amanhã ou depois se tornar tanto quanto a violência hoje em dia, fora de controle.

        Um abraço, Sílvia.
        Saúde e paz.

  7. Se o Zé Mayer tivesse assediado um homem e com isso revelasse seu lado gay, certamente estariam todos o elogiando e no dia seguinte seria convidado a aparecer em dos programas esgotos como o da Fátima Bernardes e lixo “Amor e sexo”!! kkkkkkkkk Quanta palhaçada!!!

  8. Silva Santos,

    Por favor, as tuas críticas são dirigidas para quem apóia o afastamento de Mayer das telenovelas pelo seu comportamento desrespeitoso com a sua colega na Globo ou para quem acha que esta questão por ser corriqueira, de os homens submeterem as mulheres às suas vontades, assim como colocada é exagerada?

    Se quiseres explicar a tua posição, claro.

    • Sou contra a atitude do Zé Mayer, claro!!! Se a atitude foi do jeito que contaram, sou absolutamente a favor de seu afastamento e de sua punição!! MAS SERÁ QUE FOI ASSIM MESMO????

  9. A mim, me parece, que o José Mayer é fruto da própria cultura da Globo. Quem já viu algumas novelas sabe. O bandido, que mata, rouba, sacaneia todo o mundo, agride as mulheres, em geral, acaba sendo perdoado no último capítulo, como se nada tivesse feito. As próprias novelas, vendem uma imagem, geralmente negativa das mulheres. Então, quem vive no meio acaba assumindo o status quo.

  10. Concordo. Se o problema fosse apenas o Mayer estaria a caminho da resolução. Temos a mania de ver as coisas como se nosso olhar fosse único. Por isso admiro o filósofo Kant, para quem é preciso estar atendo quanto às limitações do próprio pensamento!
    Você ampliou a análise. Muito bom!

  11. A mulher hoje é “valorizada” nos bailes funk e nas suas letrinhas carinhosas… Por isso no Rio o funk das favelas é patrimônio cultural…

  12. Bendl, concordo, plenamente, com seu artigo.

    Além do mais, trabalho é local de trabalho. Jamais, de atitudes nos padrões do “politicamente correto” da Globo que, de moto contumaz, viola milhões de lares brasileiros.

    A mulher adquiriu sua posição de igualdade na civilização ocidental por seu próprio esforço; o homem pouco fez em seu favor. Na maior parte das vezes apenas registrou os fatos da época.

    Lembro que Karl Marx, em O CAPITAL (1848) registrou que “a mulher, atualmente, é manceba do homem. A mulher só será independente quando o for economicamente.”

    A mulher saiu do analfabetismo e, na civilização judaico-cristã, atingiu plena igualdade cultural com o homem.

    Aquela frase “atrás de um grande homem sempre tem uma grande mulher” está obsoleta, pois elas provaram que não atrás e sim ao lado.

    • Celso,

      Obrigado pelo comentário.

      Apesar do ano que nos encontramos e as lutas que as mulheres enfrentaram, e tantas outras que ainda terão de combater, decididamente temos de repudiar comportamentos masculinos que agridem não só as mulheres, mas que depõem contra homens que as respeitam!

      Um abraço, Celso.
      Saúde e paz.

  13. Deturpação da verdade!

    Há muito mais atores pedindo o retorno do ladrão Lula, que apoiando a volta dos militares.

    Agora, essas manifestações são democráticas ou não?

    Se vociferar em favor de corruptos e desonestos para comandar este país – um golpe inquestionável na Constituição e Leis Penais – é liberado, da mesma forma e na mesma dimensão, devem ser liberadas as manifestações contrárias aos ladrões, e medidas de como se evitar que acampem no Planalto mais uma vez!

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