Reflexões sobre o congelamento da produção e o preço do dinheiro no Brasil

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Charge do Allan Sieber (Arquivo Google)

Mathias Erdtmann

As pessoas esquecem com muita facilidade, portanto é sempre bom lembrar que o dinheiro é uma abstração, uma construção humana. Ainda mais etéreo são os juros (ou usura), que é o direito que alguém tem de receber dinheiro pelo fato de ter dinheiro. Hoje se assume como líquido e certo este “direito”, sobretudo no Brasil, mas se esquece que ele é uma mera convenção social.

Pela natureza concentradora da acumulação bruta de capital e pela falta de produtividade que acarreta, esta atividade já foi vista como um câncer pelas sociedades antigas, levando a situações drásticas como a proibição da usura pela Igreja Católica (que personificou o mal pela entidade Mamon).

PÓS-CONCEITOS – De fato, se pensar na situação, a impressão que dá é que ignoramos completamente os ensinamentos dos milênios (todos esses que aconteceram antes da revolução industrial), no qual a humanidade, em sua gênese, experimentou de tudo, sem preconceitos, criando assim pós-conceitos interessantíssimos.

Uma deles é o jubileu judaico. Em sua sabedoria milenar, entenderam o ciclo econômico (bolhas, como queiram), definindo que, após 49 anos, o próximo, para fechar o ciclo de 50 anos, é o ano do perdão das dívidas: escravos são alforriados, aquele que colocou sua terra ou sua casa como garantia volta a ter plenos poderes sobre ela, e todo mundo “zera” – ninguém deve nada a ninguém. Os católicos tentaram copiar, reduzindo para 25 anos o período.

Não me parece que uma entidade divina estivesse preocupada com os bolsos dos perdulários, mas sim que, havendo experimentado sem sucesso o endividamento infinito, esta sociedade antiquíssima entendeu que nenhuma sociedade evolui adequadamente com dívidas infinitas, sem “zerar” de vez em quando.

RENTISTAS – Além disso, é uma medida disciplinar aos rentistas, que não podem depender exclusivamente da renda gerada pelo capital, pois à medida que se aproxima o ano do perdão, terão que se virar com outras atividades (produtivas).

Outro lado da moeda, a propriedade de bens físicos (casas, máquinas, carros, fábricas, usina de álcool, alambique, terras) sempre promove a cobrança de aluguéis e rendas. Estas são análogas ao juros, mas obrigam o proprietário a investir em coisas físicas que, se não exigem seu próprio suor, vai exigir que ele pague pelo suor alheio. Desta forma, são uma forma de “poder do capital” muito mais branda e com distribuição de renda muito maior, do qual a mínima distribuição é proporcional ao salario mínimo, e a máxima depende da generosidade do proprietário dos bens.

VALOR DO RETORNO – No final das contas, o que define onde os investidores colocarão seu dinheiro é o retorno, obviamente. Para os bens físicos, existe uma regra de ouro que orbita desde os milênios esquecidos até hoje: 5% ao ano. Por algum motivo, as pessoas esperam receber um-vinte-avos de sua propriedade em aluguel todo ano – este número clássico pode ser encontrado nos registros de terras arrendadas desde a aurora dos tempos. Claro que há variações para mais e para menos, porém dificilmente foge de ser algo entre 3% e 7%. Pode fazer a conta: seu aluguel deve estar custando 4% do valor do imóvel por ano. Fato é, que hoje, o juros rende muito mais que isso no Brasil: com a Selic a 11,25%, ainda garante-se 6,75% de juros acima da inflação, ao ano. Isto não é conjuntural: a média dos últimos 30 anos é de 6% de juros reais.

Quando Dom Pedro II fundou a poupança, definiu o retorno de 6% ao ano (naquela época não sabiam muito bem somar a inflação). Se descontar o imposto de 15% em ambas as opções, o retorno do investimento em bens físicos vai a 4% ao ano, enquanto o juros fica em 5%. Esta diferença, aliada com o desejo de não sujar as mãos, faz com que os investidores brasileiros prefiram enfiar seu dinheiro na divida pública ao invés de fazer algo produtivo com ele.

DÍVIDA AUMENTA – Por isso que a dívida pública só aumenta, enquanto o setor produtivo definha, sem recursos. Claro que, se a política pública priorizasse o investimento físico (menos imposto, mais BNDES, utilização da dívida captada em bens físicos etc.) ou despriorizasse o investimento bancário (menos juros), a situação poderia melhorar.

Cabe um parênteses: se os juros pagos pelo governo são maiores do que o retorno sobre o investimento físico, qualquer coisa que o governo fizer com o dinheiro captado será deficitário. Mas ainda assim, é de amargar que os capitalistas brasileiros não estejam dispostos a ganhar 1% a menos ao ano para ao menos saírem da classe dos rentistas e poderem ser classificados como investidores desenvolvimentistas.

A grandeza do Brasil está no tripé: casa+comida+energia (todas grandezas físicas) e todo brasileiro que se preze tinha que valorizar isso, inclusive colocando seu dinheiro ali.

3 thoughts on “Reflexões sobre o congelamento da produção e o preço do dinheiro no Brasil

  1. Excelente e compreensivo Artigo no qual o Autor Sr. MATHIAS ERDTMANN analisa o Retorno em Investimento entre Bens Físicos ( Terra, Imóveis Comerciais, Residenciais, etc), 5% aa; e a Tx de Juros Básica Líquida, (SELICaa – Inflaçãoaa) remuneradora dos Títulos de Dívida Pública do Tesouro, 6%aa.
    Do ponto de vista de retorno do Capital Investido, hoje no Brasil, é mais Lucrativo ser Rentista que Proprietário de Imóveis.

    A meu ver, a Tx SELIC Líquida ( 6%aa) é mais alta do que a Tx de Retorno em Imóveis (5%aa), porque sempre há dúvidas sobre a Solvência ( capacidade de pagar do Governo), e há grande Instabilidade de Segurança Jurídica na execução dos Contratos, o que exige um Premium por parte dos Rentistas.
    Também acho que em matéria Financeira, Dívidas e Juros, a Sociedade HEBRAICA segundo a Lei de MOISÉS ( 1250 AC), e a Igreja Católica antiga, com sua Moratória de 01 ano cada 7 anos, e o Jubileu cada 49 Anos no 50º Ano, são bem mais Humanas que nossa atual Legislação.

  2. Até faz muito sentido toda essa argumentação.Mas não se pode de forma impune se baixar drasticamente os rendimentos dos rentistas(que estão aplicados em renda fixa, M3 e M4 no jargão economês). A coisa tem que ser naturalmente gradual para que esses ativos saiam dessa renda fixa(principalmente titulos do governo) e venham para outros ativos(de preferencia ações que financiarão o crescimento das empresas e consequentemente do país). O que não pode acontecer é de uma hora para outra essa enorme massa de recursos financeiros irem para o consumo e imóveis. Aí a hiperinflação pode voltar. Por isso o Banco Central tem que ser cuidadoso para ir baixando os juros.

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