Regina Duarte e o crepúsculo dos deuses

Pedro do Coutto

No depoimento que prestou na quarta-feira ao Centro Cultural do Banco do Brasil, primeiro do país no gênero e exemplo de exposição permanente de arte e artistas, a atriz Regina Duarte – grande atriz por sinal – lamentou não receber hoje tantos convites para atuar como até há alguns anos, deixando no ar uma leve nostalgia de tempos idos. Uma nuvem. Uma lágrima, talvez. Estaria ela (que absurdo) se aproximando do crepúsculo dos deuses, de Billy Wilder, sem dúvida uma das maiores fitas do cinema? Não creio.

Talento para interpretar não lhe falta, vigor também não, como são testemunhas a viúva Porcina e a Chiquinha Gonzaga, papeis que viveu intensamente, transferindo a cada passagem, a cada sequência, o tom, o olhar e a atmosfera certos. Sua ausência das telas da TV é de lamentar, mas que perde para esperança de seu retorno, de seu aproveitamento pelos diretores da nova geração. Aliás brilhantes. Diretores e diretoras, pois não se pode excluir entre eles Denise Sarraceni, bem ao nível de Jaime Monjardim.

Matérias de Joaquim Ferreira dos Santos (O Globo) e Denise Menchen (Folha de São Paulo), nas edições de 29 de julho, focalizaram muito bem o depoimento da atriz de Roque Santeiro, sob a direção de Paulo Ubiratan, e ao lado de seu antigo parceiro de palco, lembra ela, Lima Duarte. Na história do teatro e do cinema, grandes atrizes e atores ingressaram no crepúsculo dos deuses, título em português com muito mais carga de poesia dramática do que o original Sunset Boulevard. Entre as atrizes, surgem em minha memória Beth Davis, Gloria Swanson, Ana Mangani, Lauren Bacall, Liz Taylor, Vivien Leigh, esta de O Vento Levou e de Um bonde Chamado Desejo. Batidas Fortes na porta –compôs Aldir Blanc — é o tempo. No crepúsculo dos deuses (das deusas) pode-se incluir Greta Garbo. Mas esta, em 1941, com apenas 35 anos de idade, retirou-se de cena. Para sempre. Regina Duarte, disse ela própria, está com 63 e 45 de carreira. Não quer jogar a toalha, não quer deixar o palco, inclusive porque, deixou transparecer, ele é sua vida. Passou ao longo da entrevista   –  Joaquim Ferreira dos Santos captou – que o público sempre deseja saber como é o artista por dentro. Não é preciso, disse ela. Seu interior está exposto nos seus personagens. Ótima frase. Nela está resumida a ponte entre a vida e a arte. Que, no fundo, são uma coisa só. Ninguém escreveu até hoje algo que não tenha acontecido. Mesclar e jogar com as situações como no lance de dados de Mallarmé, é outra coisa.

Criar fatos a humanidade criou sempre e em todas as épocas. Reproduzir atmosferas e pontos de inflexão, de forma convincente, com ritmo de boa narrativa, é outra história. A aventura humana, em todos os níveis, é incessante. Não dorme nunca. Haverá sempre pessoas brilhantes e de talento para tornar interminável o processo de fazer e viver a arte. Regina Duarte, a mim parece, aguarda o momento da volta. Retornar é sempre uma emoção, principalmente voltar à juventude, porém mantendo a sensibilidade da existência madura. Somos sempre eternos aprendizes de nós mesmos. Pois, esta é a verdade, não podemos existir sem esperança e sem os outros.

Um dia, há uns vinte anos, o New York Times publicou um anúncio nos classificados que acabou se tornando notícia mundial. Dizia o texto:” Atriz experiente se oferece para atuar no cinema, teatro ou televisão.” O anúncio, de poucas linhas, era assinado por Beth Davis.

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