Relações tensas, apesar da festa

Carlos Chagas

Não se espantou quem assistiu a chegada de Dilma Rousseff, ontem, ao Congresso, para ser homenageada com o Prêmio Berta Lutz, destinado a exaltar as mulheres que se destacam nas campanhas feministas. Mesmo chegando com trinta minutos de atraso, a presidente cumprimentou efusivamente José Sarney, Marco Maia e muitos parlamentares que a esperavam na entrada do Salão Negro, junto com dezenas de senadoras e deputadas. Além do vice-presidente Michel Temer. Até o ex-líder do governo, Romero Jucá recebeu afagos, apesar de demitido na véspera.

O singular na solenidade, além dos tradicionais beijinhos para todo lado, foi que nenhum dos presentes demonstrou o menor constrangimento, a começar por Dilma, apesar da delicadeza que marca o relacionamento entre Executivo e Legislativo. Os presidentes da Câmara e do Senado andam agastados com Dilma. Michel Temer, também. Para não falar de Jucá.

À margem da festa, dos papagaios e das papagaias de pirata, vistos em profusão, acima e além dos discursos protocolares, registre-se que desde sua posse a presidente Dilma não havia retornado ao Congresso. Como também jamais enfrentou situação tão incômoda no diálogo com as forças partidárias que a apóiam. Sua presença no plenário do Senado não terá sido bastante para desfazer tensões.

O interregno dessa celebração do papel das mulheres na vida nacional, na manhã de ontem, não foi suficiente para afastar a sombra de mais dias de tensão entre o governo e os partidos que o apóiam. Dilma abriu brechas no PMDB a ponto de a bancada de deputados do partido haver-lhe enviado manifesto de protesto contra o que chamaram de discriminação favorável ao PT. Para não falar na súbita defenestração de Romero Jucá da liderança do governo, substituído por Eduardo Braga, não propriamente nas graças de dirigentes como José Sarney e Renan Calheiros.

Mesmo disposta a prestigiar o PDT e o PR, devolvendo a seus parlamentares os ministérios do Trabalho e dos Transportes, obstáculos ainda turvam o dialogo entre a presidente e esses partidos.

Nesta semana poderão ser votados na Câmara e no Senado projetos polêmicos de interesse do governo. Caso sobrevenha outra derrota, como no caso da rejeição de Bernardo Figueiredo para a Agencia Nacional de Transportes Terrestres, pelo Senado, fica evidente que o palácio do Planalto irá retaliar.

José Sarney e Marco Maia despejaram monumentais elogios sobre Dilma, do tipo “popularidade ímpar”, “excepcional capacidade política”, “criatura extraordinária”, “grande liderança” e outros. Mais beijinhos, abraços e sorrisos, entre diplomas, placas e flores, mas a pergunta feita por parlamentares, claro que em surdina, era a respeito de qual o próximo lance nesse delicado jogo de xadrez. Nada de xeque-mate, mas, quem sabe, xeque à rainha?

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REAÇÃO NA SOMBRA

De público, nenhum companheiro confirmará, mas a verdade é que no PT não apenas paulistano e paulista, mas nacional, registram-se sinais de que se Fernando Haddad não decolar nas próximas pesquisas, poderá não chegar a outubro como candidato.

A situação do ex-ministro da Educação complicou-se a partir da decisão de José Serra candidatar-se a prefeito. Líderes petistas começam a refletir que se Haddad perder de forma espetacular, sequer indo para o segundo turno, a derrota fatalmente se refletirá nas eleições gerais de 2014. Depois de chegar a dispor da maior bancada na Câmara dos Deputados, o que aconteceria se o PT perdesse a posição? Melhor aguardar.

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