Renda dos pobres subiu mais que a dos ricos? Uma fantasia

Pedro do Coutto

Mais uma dica para discusso no segundo turno: reportagem recente no caderno econmico da Folha de So Paulo, com base em estudo do economista Marcelo Neri, da FGV, sustenta que, em 2009, a renda anual dos mais pobres da populao subiu trs vezes mais que a dos mais ricos. Uma fantasia absoluta. Pensei, ao ler, que estivesse sonhando, mas no. O texto era verdadeiro. J a pesquisa nem tanto. Como possvel algum fazer uma afirmao dessas? Rompe com todo e qualquer raciocnio lgico, colide com a realidade. s comparar o lucro do Bradesco e do Ita, por exemplo, com o realinhamento da massa salarial. Basta cotejar a taxa Selic anual, em torno de 10%, com os reajustes de salrio, estes na escala de 5 a 6%. Alm disso, suficiente cotejar os juros anuais, do mercado, na mdia 40% cobrados pelos bancos e pelo comrcio, com o poder aquisitivo da populao.

A renda dos mais pobres no pode, de forma alguma, ter subido mais que a dos ricos, uma vez que os lucros empresariais alcanam escalas bem acima da taxa inflacionria do IBGE,enquanto os aumentos nominais aplicados aos vencimentos do trabalho, na melhor das hipteses, empata, com os nmeros daquele instituto e tambm, com os ndices da Fundao Getlio Vargas.

No meio do estudo, uma afirmao destacada pela Folha de So Paulo. O professor Marcelo Neri sustenta que a classe C agora dominante em poder de compra. Ela que vai comandar o pas, no s economicamente, mas tambm em termos polticos. A declarao espantosa textual. Quem duvidar do que escrevo consulte a edio de 14 de setembro da Folha de So Paulo, pgina 3B. Incrvel.

Ora, se a classe C fosse dominante, ela no seria simplesmente mais classe C. Seria B ou ento A. O Anurio Brasileiro de Mdia, relativo a 2010, lanado pela Editora Meio e Mensagem, sediada na capital paulista, destaca, com base em levantamento do Datafolha, que a classe C numericamente maior que as demais. Ela pesa 40,7% em So Paulo e 42,9% no Rio de Janeiro. Entretanto, os assalariados que a compem encontra-se na faixa de 3 a 10 salrios mnimos mensais. Faixa tipicamente de renda menor, j que inclusive ela se subdivide entre os que ganham de 3 a 5 pisos e os que percebem por ms de 5 a 10 SM. Como possvel que o rendimento da enorme parcela da populao que ganha pouco pode ter avanado trs vezes mais do que o rendimento dos grupos sociais de renda muito mais elevada? E como se pode cometer o absurdo, a exemplo do que praticou Marcelo Neri, de sustentar que ela a classe C vai comandar o pas politicamente?

Se ela fosse comandar o Brasil politicamente, ela j tinha deixado de ser classe C h muito tempo. No mnimo uma ingenuidade pensar o contrrio. Ns no estamos no reino Mgico de OZ, filme famoso da Metro, dirigido por Victor Minelli, o mesmo diretor de O Vento Levou, e que consagrou Judy Garland. Obra magnfica, at hoje encanta o pblico de gerao em gerao. Atravessa o tempo. Mas esta outra histria.

Deixando OZ e voltando realidade, lendo a pesquisa do IBGE sobre a inexistncia de rede de esgotos em 56% dos domiclios brasileiros tima reportagem de Rafael Galdo, O Globo de 21 de agosto, nos vem a certeza de que, sob hiptese alguma, ou ngulo de anlise correto algum, os rendimentos das classes situadas do meio da pirmide para baixo podem ter crescido trs vezes mais que a receita dos mais ricos.

Se assim fosse, o dficit sanitrio do pas no seria gigantesco como . de 56% porque a maioria absoluta da populao brasileira no tem recursos para adquirir casa prpria ou pagar aluguel em rea atendida por esgotos. A ampliao da rede de esgotos no depende totalmente do governo. E sim do acesso a habitao mais digna. Tal acesso no existe.

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