Rendição unilateral: a Grécia teve de entregar tudo

Celso Ming
Estadão

Não há expressão melhor para qualificar o que a cúpula da área do euro decidiu, em Bruxelas, sobre a saída da crise da Grécia do que a que está no título acima. A Grécia teve de entregar tudo, inclusive sua soberania fiscal, para receber dinheiro novo cujo objetivo imediato é reabrir os bancos. Não haverá corte da dívida, apenas prorrogação de prazos. Ao contrário, a dívida aumentará porque a ela será incorporado o socorro de 86 bilhões de euros, a ser recebido em parcelas, se as cláusulas forem cumpridas. Nada menos que 50 bilhões de euros em ativos estatais da Grécia terão de ser leiloados sob a supervisão do grupo do euro.

As condições do pacote são mais duras do que as rejeitadas pelo plebiscito realizado apenas oito dias antes e ainda mais duras do que as aprovadas, em princípio, pelo Parlamento da Grécia, na última quarta-feira, que, por sua vez, tinham sido mais austeras do que as que foram objeto do plebiscito.

Essa consulta popular foi um evento absurdo, convocado e executado às pressas. Seus termos falavam de um plano de superação da dívida já extinto, cujos resultados (rejeição do acordo) foram ignorados tanto pelos líderes do eurogrupo quanto pelo primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras.

DE JOELHOS

A Grécia foi colocada de joelhos, à mercê da cúpula do euro. A outra opção à submissão seria a saída da área do euro, hipótese que provocaria um desastre maior na economia e na vida do povo grego.

A bola está agora com o Parlamento, que terá de aprovar ou rejeitar os termos da capitulação. Se aprovar, terá de pronunciar-se novamente contra a decisão do plebiscito. Se rejeitar, atirará a Grécia para o precipício. Nessas condições, a quebra da maioria dos seus bancos ficaria inevitável.

As sete páginas do documento, negociado no fim de semana durante 17 horas, levam as assinaturas dos chefes de Estado e de governo dos 19 membros do eurogrupo – e não apenas as de Angela Merkel, que comanda a cavalaria prussiana.

CATÁLOGO DE ATROCIDADES

O documento contêm longa lista de imposições que a revista alemã Der Spiegel chamou ironicamente de “catálogo de atrocidades”. Exigem reforma do sistema tributário com aumento de impostos, reforma do sistema judiciário, reforma do regime previdenciário, que reduzirá aposentadorias e imporá idade mínima de 67 anos, e encolhimento do setor público.

O tempo dirá até que ponto o ambíguo Tsipras e seu partido com propostas nacionalistas radicais, o Syriza, se desmoralizaram, não apenas entre seus pares da área do euro, mas também na Grécia. Para aprovar o pacote que antes considerava abominável, o primeiro-ministro depende agora da oposição e dos que votaram contra ele no plebiscito. E sabe-se lá se essa dependência não lhe vai custar a sobrevivência política.

Do ponto de vista prático, ficou claro que, em casos de crise fiscal, não há saída que não envolva austeridade e muito sacrifício. E essa não é uma lição que serve apenas para “folgados” que habitam as terras do outro lado do Atlântico. Serve especialmente para nós, brasileiros, que adoramos o consumo fácil baseado no avanço do endividamento “a perder de vista”.

(artigo enviado pelo comentarista Guilherme Almeida)

11 thoughts on “Rendição unilateral: a Grécia teve de entregar tudo

  1. A entrada da Grécia e de outros paises pobres como Portugal e Espanha na ZONA DO EURO foi uma gigantesca irresponsabilidade dos seus governantes, mas principalmente dos líderes europeus. Enriqueceram através de decreto e como todos sabemos não existe almoço gratis.

    • Dorothy, esses países para entrar na zona do euro tiveram que cumprir uma série de medidas de austeridade fiscal. Aceitaram, prometeram cumprir, começaram e depois abandonaram. Abandonaram pelos mesmos motivos que aqui no Brasil, onde também impera a irresponsabilidade: demagogia política, populismo e mau caratismo. Sabem que a bomba vai estourar, mas se reelegem e vivem o com o limite do cheque especial. Quando estoura o limite e não tem mais recursos, culpam os bancos e mostram os aposentados como vítimas dos “carrascos” que emprestaram o dinheiro.
      Até quando vamos continuar com essa venda nos olhos ? Temos que atacar as causas e não os efeitos.
      Temos que nos perguntar, sem paixões, onde está a causa de que sempre estamos devendo e sempre culpamos os outros pelas nossas mazelas.
      Esta crise em que a anta e o analfabeto nos meteram, apoiados pela base enlameada, está apenas começando. É séria.
      Quantos ministérios criados para contentar a base enlameada e dar emprego para sindicalistas pelegos já foram fechados ?

  2. A Grécia faz lembrar um outro pais, nos trópicos, que quando os “excluídos” chegaram ao poder, tiraram o
    atraso.
    Agora a conta esta chegando, entre gastança e roubalheira a vaca esta indo aceleradamente para o brejo.
    Se os gregos tem a União Européia para se socorrer, nós por cá, talvez possamos nos valer do Mercosul, para
    também não afundar.
    Já o Tsipras, lembra um outro bravateiro mais velho, que também anda correndo atras do prejuízo que causou
    ao pais, ao “nomear” a criatura tenebrosa para ser o nosso “cavalo de Tróia”.
    Pois agora, nem gregos, troianos ou brasileiros, tem como sair da situação, que os salvadores da pátria, meteram os países.
    Já acho que nestas alturas dos acontecimentos, só imitando o zé dirceu e entrando com o pedido de
    Habeas corpus preventivo, contra o aprisionamento pela “miséria”, que já se faz anunciar.

  3. Não estou entendendo. Não houve um referendo na Grécia em que o povo escolheu um caminho?
    Por que não estão seguindo? O que houve com a tal “democracia”?
    O cara foi içado ao estrelato pelos ‘intelequituais’ e artistas em geral e agora não está cumprindo a vontade do povo? E a culpa de novo não é dele?
    Estranho, muito estranho.

  4. Meu ponto de vista é que no final a Grécia vai para cadafalso, sacrifício, para servir de exemplo aos outros DEVEDORES DO MUNDO, como Portugal, Irlanda, Letônia, Polônia, Eslováquia, Espanha, Itália, países da África, América Latina, Ásia, etc .…….

    Sempre foi assim e não é agora que isto irá modificar.

    “Entre nações não existe amizade e sim interesses”.
    John Foster Dulles, Secretário de Estado Americano
    (1888-1959)

  5. A formação do Euro-Grupo de 19 Países que passaram a operar com a Moeda Comum EURO, +- a partir do ano 2000 foi uma grande vantagem para todos enquanto a bolha enchia ( Endividamento em Euros a Juros +- baixos), mas especialmente a Alemanha que é disparado o maior exportador Europeu. Desde 7 – 5 anos atrás quando se chegou a saturação do Endividamento, as Economias de menor produtividade PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia, Espanha, e outras mais, e até a França, tiveram que entrar em AUSTERIDADE tipo FMI, imposto pela Troika. Não há almoço grátis, como bem diz acima Sra. DOROTHY.
    A Alemanha ficou sempre numa Boa, porque antes do EURO, os Países de menor produtividade costumavam +- a cada ano, “Desvalorizar suas Moedas”, o que encarecia o produto Made in Germany. Agora a Alemanha em 19 Países não tem mais esse problema, e nada de braçadas. Os outros que tratem de aumentar suas Produtividades até o alto nível Alemão. Não é fácil.
    Quanto a Grécia, os Gregos são muito SABIDOS. Não dá para acreditar o que a TROIKA diz “oficialmente”. Eles tem que meter medo nos outros DEVEDORES. Claro que a Grécia vai perder sua Companhia de Telefonia, algum Porto, Aeroporto, enfim Ativos do Governo, mas na real, recebeu MUITO MAIS do que vai PAGAR.
    Os Gregos estão no Comércio há mais de 4.000 Anos. Abrs.

  6. A aceitação da moeda forte por parte da Grécia expôs toda a fragilidade e a fraqueza dos fundamentos da economia grega.

    Neste sentido, fica sim a lição para o Brasil, se é que este lixo que nos governa pode extrair alguma lição: não adianta criar condições para aumentar a demanda interna se não se cria condições de expandir também a oferta interna por meio do crescimento da produtividade nacional. Sem essa premissa básica ou a economia afunda em inflação ou afunda em recessão induzida, entre outras coisas, pelo déficit em conta corrente. Ou os dois ao mesmo tempo.

    Fomentar a demanda pura e simplesmente é a coisa mais imbecil e medíocre que um governo pode fazer. Foi o que o governo petista fez nestes últimos doze anos. E a Grécia, com moeda forte, também fez.

    A conta, lembrando o Sr. Bendl, desgraçadamente, é o povo quem paga.

  7. Nos anos 70 Portugal e Espanha eram os primos pobres da Europa.
    Nos anos 90 entraram para o grupo dos ricos, receberam uma bolada, mas foram aconselhados a seguirem metas.
    Lá para o ano de 2000/2001 vejo a Espanha sendo o 1º ou 2º país que mais investia no Brasil.

    Atualmente com a Grécia estão em dificuldades e se assemelhando às republiquetas da América Latina.
    Não estão na lama como nós latinos porque afinal de contas são países de uma região próspera e com nível educacional elevado.
    Ao menos eles já têm uma base de desenvolvimento (boa educação, prosperidade econômica e instituições que funcionam) sólida e nas crises não sofrem tão quanto os países onde suas bases de sustentação são tão sólidas quanto um prédio construído só com areia.

  8. Não sou historiador, mas tenho quase 100% de certeza que país algum da Europa no século XX (tirando o período da 1ª e 2ª Guerra Mundial) tiveram governantes tão ruins, incompetentes e corruptos quanto os nossos.
    Não incluo aí a URRS e seus satélites.
    Estou falando dos países democráticos.
    Ah, e se tiveram não se eternizaram no poder por longos anos tipo a seita que atualmente nos governa.

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