Repartindo o pão

Carlos Chagas

Diz o refrão popular que quem parte e reparte fica com a melhor parte. Outro dia o  presidente do PMDB, vice-presidente na chapa de Dilma Rousseff, repartiu o pão. Disse aos seus  deputados e senadores, num  jantar de gala, que o partido   não abriria  mão do que tem direito, no futuro.

Mais tarde, Temer desmentiu estar o PMDB loteando o governo Dilma. Se alguém pensasse  assim estaria  enganado e desautorizado. O novo ministério dependerá da presidente, o partido  não vão exigir nem impor ministérios.  A conclusão a tirar dessa aparente contradição é de que o pão será primeiro  repartido no Congresso, nessa  refeição inicial  da aliança do PMDB  com o PT. A chefia e a condução do Executivo será da candidata, se ganhar a eleição, como parece.

Mas o comando do  Congresso será deles, peemedebistas, da mesma forma se elegerem as maiores bancadas na Câmara e no Senado. Traduzindo: preparam-se para  ocupar as presidências das duas casas. Num caso com Henrique Eduardo Alves. No outro, com José  Sarney. Aos companheiros serão oferecidos pedaços de pão, como lugares importantes nas mesas diretoras. Para os partidos menores, migalhas.

Como se trata do café da manhã,  será preciso projetar as refeições  seguintes, o almoço, o jantar e a ceia. Repartir o pão, claro, mas  se Dilma Rousseff fizer o mesmo, ou seja, se abrir para o PMDB  vagas no ministério,   em  troca do apoio para a aprovação dos múltiplos projetos de interesse do futuro  governo. Nessa hora valerá até servir pão dormido,   prelúdio das negociações. Quanto a saber o seu tamanho e   paladar,  dependerá do resultado das eleições.

Por que não fizeram?

Uns poucos dias de propaganda eleitoral obrigatória no rádio e na  televisão servem para mostrar como a busca de votos aproxima-se do ridículo. Todos prometem tudo, dos candidatos presidenciais aos pretendentes aos governos estaduais, ao Congresso e às Assembléias.  Seria cômico se não  fosse trágico assistir velhos e moços, homens e mulheres, anunciando escolas, hospitais, estradas, hidrelétricas,  transportes coletivos, segurança pública,   ascensão social,  empregos, distribuição de renda e até felicidade.

Razão  mesmo   parece ter Plínio de Arruda Sampaio, que em seus curtos segundos de exposição na mídia consegue perguntar em tom hilariante: tiveram dezesseis anos para realizar tudo o que prometem agora e não realizaram. Quem acredita? No caso, a referência é para os oito anos do tucanato de Fernando Henrique e os oito do Lula…

Agora não vai dar

Uma característica do processo político brasileiro é de que, como regra, todo presidente  chega ao poder culpando  o antecessor pelas dificuldades encontradas. Criticar o passado constitui saída fácil  para quem se mostra em dificuldades para  enfrentar   o futuro. Há  exceções, como no caso de Juscelino Kubitschek, mas é bom lembrar que Getúlio Vargas assumiu jogando farpas em Eurico Dutra.

Depois,Café Filho prometeu exorcizar a era Vargas. Aliás, foi o primeiro mas não o último. Jânio Quadros disse o diabo  de Juscelino, ainda que estrategicamente pelo rádio, sabendo que levaria um soco na cara se discursasse de corpo presente. João Goulart mandou rever a política econômica e social de Jânio, a quem acusava de desequilibrado.

Dos militares, é bom lembrar que o marechal Castello Branco escreveu ao filho  dizendo-se síndico de uma massa falida. Costa e Silva, ao prometer humanizar o governo, atingiu  Castello  na moleira, ao tempo em que Garrastazu Médici meteu a faca na metade do governo Costa e Silva. Ernesto Geisel referia-se na intimidade de forma pejorativa aos tempos do “milagre brasileiro” de Médici,  enquanto João Figueiredo deu o  gelo em Geisel.

Com a democratização, mesmo cauteloso  enquanto candidato, Tancredo Neves apelidava certos juristas do  período  militar de  “jurilas”, metade gorilas. José Sarney não sossegou até  reformar o ministério escolhido por Tancredo e foi ofendido por Fernando Collor, a ponto deste anunciar que mandaria prender aquele. Itamar Franco isolou completamente Fernando Collor, a quem acusava de pecar contra os dez mandamentos.  Fernando Henrique, mesmo eleito por obra e graça de Itamar, jamais perdeu uma oportunidade de expô-lo ao  ridículo.  E quanto ao Lula, por longo tempo lembrou a “herança maldita” recebida do sociólogo.

Essas lembranças vem à tona por conta da impossibilidade técnica de Dilma Rousseff fazer o mesmo diante do antecessor. Ou não?

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