Réplica-crítica ao artigo do general Rêgo Barros, ex-porta-voz do presidente Bolsonaro

Ex-porta-voz do governo, pernambucano Otávio do Rêgo Barros critica  Bolsonaro: 'Poder corrompe'

Brilhante articulista, desta vez Rêgo Barros errou a dosagem

Jorge Béja

Muito admiro o general de divisão Otávio Santana do Rêgo Barros. Gosto de ler seus artigos. O homem é sensível. É de fino trato. Fidalguia e cultura são duas de suas muitas virtudes. De janeiro de 2019 até julho de 2020, foi o porta-voz da presidência da República. No início aparecia muito. Depois sumiu.

Quando aparecia no “briefing diário”, tratava com fidalguia os jornalistas. Tom de voz ameno, pausado e suave. Semblante descontraído. Porte majestático e gestual elegante.  Ao término e na despedida, sempre dizia aos repórteres: “Paz e Bem”. E assim também termina seus artigos que escreve para os grandes jornais.

EM SUA HOMENAGEM -Um dia hei de conhecê-lo pessoalmente. Um dia hei de me sentar ao piano e tocar para ele as mais sublimes peças dos imortais compositores. E Rêgo Barros, sensível que é, certamente vai se emocionar e vai chorar. Não, pelo virtuosismo do pianista, que é nenhum. Mas pela beleza de um “Clair de Lune”, de Débussy. De um “Rêve D’amour”, de Franz Liszt. De um “Jesus Alegria dos Homens”, de Bach. De um “Rêverie”, de  Schumann. De um “O Cisne”, de Camille Saint-Saens……

Mas deste seu último artigo, publicado no Correio Braziliense e republicado aqui na Tribuna da Internet, (edição de 4/9) não gostei nada, nada. Sob o título “Entre o lobo do bem e o lobo do mal, escolha qual deles você pretende alimentar”, o general utilizou, no começo de cinco parágrafos, cinco vezes a primeira pessoa do plural do pretérito imperfeito do subjuntivo do verbo ser.

DIA DA INDEPENDÊNCIA – “Se fôssemos um país organizado…”. “Se fôssemos um país em que lideranças…”. “Se fôssemos um país em que as lideranças políticas mais dialogassem…”. “Se fôssemos um país onde planejamentos estratégicos ultrapassassem…”. “Se fôssemos um país em que as lideranças soubessem…” . Tudo isso para lamentar que este 7 de Setembro “não será mais um dia de comemoração da passagem do Dia da Independência”.

General, ouça e/ou leia o que tenho a lhe dizer. Se este 7 de Setembro não for um dia de comemoração pela passagem do Dia da Independência, a culpa é do governo ao qual o senhor serviu por 22 meses. Não ponha a culpa no Brasil, no seu povo-eleitor, nas instituições, na falta de planejamentos estratégicos, nas lideranças que, segundo o senhor, não inspiram “por exemplos positivos”. E nem culpe outras circunstâncias mais. Simplesmente porque são meras circunstâncias, meros acidentes de percurso da História. Circunstâncias e acidentes de pouca duração.

SOMOS, SIM – Este seu artigo é um libelo contra o Brasil e contra os brasileiros. Logo no primeiro parágrafo o senhor escreveu que “Fôssemos um país organizado (civilizado)…”

Respondo: Somos organizados, sim. Somos civilizados, sim. Se a economia vai mal, se o desemprego é alto, se a gestão não é bem conduzida, se falta inclusão social e proteção ao meio ambiente, se falta isto, se falta aquilo – e tudo isso e muito mais senhor escreveu –, tanto é passageiro, é circunstancial e por isso vai passar logo.

E nada vai tirar o brilho, a importância e o civismo de todos nós brasileiros por mais este 7 de Setembro, a ser comemorado no dia de amanhã, terça-feira.

CULPA DO GOVERNO – General, todos os seus lamentos expostos no artigo, tais como a cultura que não é tratada como patrimônio da sociedade e que precisa de suporte financeiro; os habitantes que sofrem endemicamente a desesperança do isolamento e o esquecimento do poder central; as instituições que não significam referência de serenidade ao cidadão comum; as leis que não alcançam todos que delas fizessem pouco-caso…

Tudo isso e tudo mais que o senhor escreveu, torno a dizer, acontece no Brasil por causa do conturbado governo que se instalou no 1º de janeiro de 2019 e ao qual o senhor serviu e depois foi exonerado.

Não, não vou compreender caso o senhor venha dizer agora que “pulou fora” quando constatou que o governo, ao qual o senhor servia, descambava para o abismo. Primeiro, porque o senhor “não pulou fora”.  Não saiu porque quis, nem deixou o governo por ato voluntário. O senhor foi exonerado. Salvo se a exoneração foi a pedido. Neste caso, desde já fica retificado o registro.

QUASE DOIS ANOS – Segundo, porque foram quase 22 (vinte e dois) meses dentro do Palácio do Planalto!. Não foram 8 ou 80 dias. Foram mais de 600 dias, visto que sua exoneração foi publicada no Diário Oficial do dia 7 de outubro de 2020. 

Toda a sua rica bagagem de patriotismo, de civismo, de experiência nacional e internacional ao longo da carreira, de hombridade, de entrega à Pátria e a seus cidadãos, nada disso foi suficiente para, desde logo, antever que o caminho que estava sendo trilhado levaria ao caos em todos os sentidos, em todas as áreas?

E mais: o senhor não é uma criança, não é um jovem, nem um inexperiente. O senhor é general de divisão R1, detentor de seis medalhas ao mérito, é doutor em Ciências Militares e com brilhante desempenho no Exército Brasileiro. Do alto dos seus 61 de idade, o senhor não conhecia, não sabia e nada ouviu dizer sobre a história de vida, ao menos no próprio Exército, daquele a quem o senhor prestou seu serviço de porta-voz? Ou não? Ou nunca ouviu falar dele? Ou não sabia quem era?

O MAL DA DISCÓRDIA – Não, prezadíssimo e doutíssimo general Otávio Santana do Rêgo Barros. Deste seu referido artigo não gostei. Não gostei quando, lá no finalzinho, o senhor escreveu: “Doloroso é reconhecer o mal que a discórdia, que vem se impregnando em nossa sociedade, faz a todos nós”.

Por que o senhor não disse logo quem é o responsável pela “discórdia”? Quem semeia, planta e implanta a discórdia? Mas nada disso afeta, minimamente, minha admiração e meu respeito pelo senhor.  Na esperança de um dia conhecer o senhor pessoalmente e o senhor me ouvir ao piano, faço como o senhor faz. Seus artigos terminam sempre com este voto-saudação “Paz e Bem”.

Este meu, no sentido contrário da argumentação do seu artigo, pois o Brasil e os brasileiros, nós tudo temos e tudo somos, termino com um “Habemus Et Summus”.

7 thoughts on “Réplica-crítica ao artigo do general Rêgo Barros, ex-porta-voz do presidente Bolsonaro

  1. Concordo plenamente com o Dr. Béja.

    Pedindo licença, ousando complementar que : “Somos organizados, sim. Somos civilizados, sim”
    Em minha opinião acho que para atravessarmos esse estado temporário consequência da deficiente ou falta de gestão e questões sociais com ênfase às desigualdades e ausência de política sustentável no capitalismo, muito por falta de comprometimento em cumprir compromissos, tratados… A Constituição tem amplo conteúdo programático mas nenhum político pensa no bem comum, nas outras gerações, senão em si e na própria prole quer deixar fazendo política e enrolando o povo.

  2. Assim como a beleza só existe nos olhos do observador (beauty is in the eye of the beholder), fidalguia e cultura são facas de dois gumes. Um conman, por exemplo, não pode ter sucesso se não for fidalgo, pois a fidalguia é usada para conquistar a confiança da vítima.
    A cultura é um conceito muito pastoso para servir de régua para julgarmos a importância das pessoas em vista da sociedade (cultura art, cultura crença, cultura costume – que cultura, afinal?). Por isso, como valor social, cultura é insossa e não serve nem pra fazer sopa.
    Ademais, a definição de FIDALGO, segundo meu dicionário de inglês, é : The lowest title of nobility in Portugal! Acredito que isso diga tudo.
    Para terminar: o homem deve ser julgado pelo que ele faz – pelas suas obras e ações.

  3. Texto magnífico do atilado Béja. Desde cedo escrevi observando que o general, graduado e educado, não era o homem talhado para o cargo de porta-voz da PR. Posto de moer ossos e carnes de quem se arrisca a ocupá-lo. Ou seja, o general não é-era do ramo. Aos poucos foi colocado para escanteio. Atitude desonesta, servil e estúpida. Seguramente por algum serviçal graduado do mito de araque. Até hoje a PR não tem profissional qualificado que consiga passar informações boas e seguras aos credenciados. Bolsonaro meteu na cabeça oca que é porta-voz dele mesmo. Coitado. Se estrepa completa e melancolicamente. Parabéns, Béja.

  4. Sobre o 7 de setembro dos meus tempos de ginasiano:

    O cabra é coroado imperador Pedro I aqui e depois vai além-mar ser coroado rei Pedro IV, lá… Independência?! Arre, égua!
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    PS. Essa notícia falsa – independência -, perdura até hoje.

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