Reprteres se expem morte para documentar queda de Mubarak

Pedro do Coutto

Um comportamento emocionante, sem dvida, o dos jornalistas, reprteres, fotgrafos, cinegrafistas das redes de televiso, arriscando a vida e sua integridade na praa central do Cairo, cenrio de batalhas campais dirias, para documentar a queda, cada vez mais iminente, do ditador do Egito, Hosni Mubarak. Sua permanncia frente do governo torna-se, com o passar das horas, cada vez menos sustentvel.

Na noite de quarta-feira, em Washington, o porta-voz do presidente Barack Obama, Robert Gibbs, numa entrevista coletiva, disse textualmente, de acordo com matria da Folha de So Paulo, que faz cobertura excelente da crise, que Mubarak deve sair ontem do poder. No preciso dizer mais nada: ruram as bases internacionais do governo do Cairo.

Assim aconteceu com o rei Farouk, em 1953, o monarca que recebia de imposto o seu peso avaliado em ouro, a cada ano. Foi um movimento de coronis para acabar com a monarquia. Farouk escapou para Paris. Assumiu Mossadegh. Resistiu trs semanas, apenas. Foi desfechado novo golpe. Surgiu Nagib. Permaneceu tambm menos de um ms. Gamal Abdel Nasser emergiu da sombra e conquistou o poder pelas armas. Afirmou-se logo inimigo total de Israel.
esta a preocupao dominante de Jerusalm, e dos Estados Unidos, quanto ao desdobramento da convulso que est predominando no Egito. At porque, coincidentemente, um dos filhos de Gamal Abdel Nasser participa do movimento para derrubar Mubarak.

O fim de seu governo que dura h 30 anos est prximo, todos percebem. Mas o processo que vai ocorrer em consequncia, ainda no previsvel. O relacionamento entre Egito e Israel pode voltar a ser tumultuado. Existem ainda reas egpcias ocupadas, da mesma forma que a colina estratgica de Golan, esta na Sria, fronteira com Israel, seu principal inimigo contido pelo espao geogrfico. Mas eu me referia no incio coragem e ao esprito de sacrifcio dos jornalistas, cinegrafistas, fotgrafos, todos trs alvos preferidos pelo dio das ditaduras e pelos governos que comeam a desabar. Isso porque a repercusso de seu encurralamento encurta, de forma natural, seu tempo deresistncia e sobrevivncia.

Na cobertura da guerra urbana na Praa Tahrir, praa central do Cairo, teatro das operaes das hordas em conflito, com ntida vantagem para as foras da oposio, fiquei imoressionado com o desempenho fantstico do reprter Ari Peixoto, da Rede Globo. Exps sua vida para colocar no Jornal Nacional de quarta-feira a luta violenta entre as correntes em choque. Risco enorme porque o Exrcito decidiu no intervir, o que abala ainda mais Mubarak, e a polcia civil tentou enfrentar a multido sem farda ou identificao, mas usando camelos e cavalos, seguidamente derrubados pelos revoltados, que se transformaram em tropas de revoltosos armados com pedras e paus. Minha mulher, Elena, identificou a participao, no menos corajosa, do reprter Herbert Moraes, da TV Record News.

sempre assim. Os reprteres dos jornais, revistas, emissoras de rdio, cinejornais, (a televiso estava nascendo), estiveram no front da segunda guerra, avanando e recuando junto com as batalhas. Estiveram em Hiroshima e Nagasaki, aguardando as bombas atmicas. Elas podiam ter ido neles ou lhes transmitido radiao. Estiveram no Vietn, em Buenos Aires, Santiago do Chile quando o ditador Pinochet assumiu. O cinegrafista Leonardo Erickson, baleado por um militar, conseguiu filmar parte de sua prpria morte. A histria se escreve e registra assim.

Ari Peixoto e Herbert Moraes tornaram-se autores de mais um captulo do tempo. Eles e os muitos outros que, como eles, estavam e esto nas ruas do Cairo e do destino.

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