Reproduo do artigo publicado em 12 de maro de 1967, com o ttulo natural: Sada de Castelo do governo, que a histria recordar como o DIA DO ALVIO NACIONAL

Foi o ltimo dos trs artigos publicados com Castelo Branco presidente. J escrevera diversos, vrios, muitos, sempre com alguma represlia ou ameaa de intimidao contra o reprter. Mas como jamais falei com Castelo (como tambm nunca estive nem perto de Costa e Silva, Mdici, Golbery, Otavio Medeiros ou qualquer um outro) no tomei conhecimento do que ele dizia.

S que um dia aconteceu fato estranhssimo, mas rigorosamente verdadeiro. Carlos Lacerda conversava muito com Castelo, ou a chamado (no incio) ou indo por vontade prpria. Sofrendo oposio de muitos jornais e reagindo com violncia, ainda governador, Lacerda se queixou ao presidente: No suporto mais tanta restrio, o senhor precisa me ajudar.

O prprio Carlos Lacerda me contou, que Castelo abriu uma gaveta da mesa de trabalho, tirou um monte de Tribunas, mostrou a ele, dizendo ou perguntando: E eu, o que fao? Tenho que agentar diariamente as criticas do jornalista, sempre violentas. Com uma diferena. Ele me ataca e jamais me procura, ao contrrio do senhor, que me ataca pela manh e me procura noite.

Aproveitei para dizer a Lacerda; Ele est coberto de razo. No se pode servir a dois senhores, tentar ao mesmo tempo ser governo e oposio. O governador no disse nada, estava confuso e no conseguia se definir. Tambm, como dizem, no foi o artfice da Frente Ampla. Participou dela quando estava em ebulio, o que provocou seu encontro com Juscelino e com Jango. E at gostou de conversar com eles.

Daqui em diante, tudo reproduo do que foi publicado em 12 de maro de 1967. Naturalmente entrelaando o que Castelo disse a Juscelino quando queria ENTRAR, as traies e mentiras DURANTE os 3 anos, e a alegria do povo praticamente na vspera dele SAIR.

Est se aproximando o que venho identificando como O DIA DO ALIVIO NACIONAL. A sada de Castelo Branco da presidncia, unir, pelo menos de longe, mas com a satisfao geral, todos os brasileiros, sejam civis ou militares. Castelo est deixando o Poder, e o Brasil inteiro prepara grandes festas, manifestaes de satisfao. E embora o regime j esteja suficientemente endurecido, a maior parte dessas violncias coube a Castelo propor, referendar e praticar.

O que disse no artigo de anteontem, que Ernesto Geisel, (Chefe da Casa Militar) investigara em Pernambuco sobre tortura, e voltara com a afirmao, est tudo normal, porque para eles, a tortura fazia parte da normalidade, no os impedia de dormir. Neste 12 de maro de 1967, a tortura se institucionalizara, sob o comando do presidente que est indo embora. (Mas segundo ele, no para sempre, serei chamado para ocupar o cargo novamente).

Dentro de 3 dias, teremos na Avenida Rio Branco, a tradicional chuva de papel picado, s reservada aos dias de grande emoo nacional. E nada mais significativo e expressivo dessa emoo, do que o fim do mandato do pior presidente de toda a histria do Brasil.

A partir do dia 15, estar no governo o general Costa e Silva, que pretendia o Poder em 1964, ficou revoltado por causa da preterio, (como ele dizia) tendo como causa a mobilizao de Castelo no meio militar e civil. Foram colegas de turma no Realengo, sempre muito ligados. A partir de 1964, Costa e Silva conseguiu ser Ministro da Guerra, mas s tratava Castelo de senhor, no se reconciliaram jamais.

Agora, Costa e Silva ser presidente, trs anos depois do esperado e assume at com possibilidades e esperanas de um governo inteiramente diferente do que vai sendo enxotado pela maioria da populao.

No entanto, temos que ressaltar e ressalvar, que a esperana em Costa e Silva vem menos pelo que possa fazer, e mais por suceder a um ditador nefasto como Castelo Branco. Para se tornar popular ou no ficar to impopular quanto o presidente que sai, Costa e Silva precisa realizar muita coisa.

E o que chamo de muita coisa, tem que se basear principalmente em trs fatos principais. 1 Desenvolvimento. 2 Nacionalismo. 3 Democratizao. No governo Castelo, (que ser obrigado a ler tudo isso, ainda como presidente), nada disso aconteceu porque ele se cercou do pior e mais antipatritico grupo de traidores.

Os incapazes congnitos como Castelo, tm que apelar para a ditadura e a tortura, e assim sufocar os protestos de uma grande parte da populao. Durante esses quase 3 anos, (atingindo ao auge em 1966) entregou tudo atravs do Ministrio, com um Ministro que durante mais de 20 anos trabalhou em empresas privadas, nacionais e multinacionais. (Foi indicado por Roberto Campos, querem o qu?).

Durante 3 anos, as riquezas nacionais, o patrimnio do Brasil, e o potencial do futuro, FORAM MISERAVELMENTE ROUBADOS por ladres estrangeiros, associados a personagens da maior importncia no que Castelo Branco acreditava que fosse o governo.

Durante esses trs anos, Castelo tambm traiu os compromissos polticos que assumiu voluntariamente com Juscelino. Com 2 meses no cargo, teve que fazer viagem rpida ao exterior, o vice indicado e nomeado por ele, Alckmin, precisou atravessar a fronteira e ir dormir por 4 dias num motel no Paraguai.

Cassou e submeteu a inqurito desgastante, inquietante e torturando, o prprio Juscelino, a quem garantira eleies diretas em 1965. E depois mandou prend-lo, COVARDEMENTE. Alis esta palavra, usada em relao a Castelo Branco, sempre R-E-D-U-N-D-A-N-T-E.

***

PS O que no est neste artigo (e logicamente nem nos outros dois): Costa e Silva foi uma surpresa, s que no tinha o menor Poder para fazer o que pretendia. As foras armadas estavam divididas entre SENSATOS e INSENSATOS, estes com maioria, eram chamados de linha dura.

PS2 Costa e Silva era contra a tortura, no pde evitar a criao do DOI-CODI, que surgia da mente de Orlando Geisel. Tambm foi contra o AI-5, (o amaldioado Ato Institucional) retardou a deciso por 36 horas, ficou diante da opo: ou ASSINAVA ou era DEPOSTO.

PS3 J estava em conversas francas com o vice Pedro Aleixo, para PROMULGAR uma nova Constituio. Se reuniam num apartamento alugado por Jos Aparecido (grande e inesquecvel figura), na Rua Domingos Ferreira. Em 1969 foi atingido por um trauma violento, ficou incapacitado, apesar de ter quase 24 horas por dia, ao seu lado, o mestre da neurologia, meu amigo Paulo Niemeyer, irmo do tambm meu amigo Oscar. (A quem saudei h meses, quando fui designado para isso, ele recebia o Trofu Dom Quixote).

PS4 hoje quase lugar comum mdico e cientfico: Estresse acelera o caminho para o cncer. Podem acrescentar: trombose e dano cerebral, que transitam pela mesma estrada. Costa e Silva, incapacitado em 1969, foi atingido pelo AI-5 de 1968.

PS5 A ressurreio da eleio direta, (desculpe, Paulo Slon) teve que esperar exatamente 20 anos. S seria realizada em 1989, com as alternativas democrticas conhecidas. E consagrao “democrtica”, com aspas e apenas de fachada.

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