Respeitamos mesmo as crenças dos outros?

Sandra Starling

Assistimos apavorados ao ataque terrorista perpetrado contra um jornal de chargistas franceses. Nada pode justificar a matança de pessoas desarmadas e rendidas. Imagino a agonia dos que, trabalhando, foram assassinados de forma bárbara! Sinto muita dor. Vem-me à mente a velha canção de Paul McCartney: “Ébano e marfim vivem juntos em perfeita harmonia/ Lado a lado no meu teclado, oh Deus, por que nós não?/ Todos sabemos que as pessoas são iguais aonde quer que vamos/ Há mal e bem em todo mundo/ Aprendemos a viver, aprendemos a dar/ Uns aos outros o que precisamos para sobrevivermos juntos”.

Não me conformo. Por toda a parte, na Europa Ocidental, vão se fortalecendo grupos xenófobos que não querem aceitar em seus territórios imigrantes vindos, sobretudo, do Oriente Médio e do norte da África. Repudiam essa estranha gente de turbante ou véu, pele morena e cabelos escuros que invade o Velho Continente. São os novos bárbaros – argumentam. Como se barbárie alguma tivesse havido na “colonização” europeia nas Américas, na África, na Ásia e no Oriente Médio.

Seres humanos como nós, são eles os deserdados de oportunidades, os flagelados da falta de esperança, os clandestinos da busca de liberdade, os fugitivos da ausência de igualdade.

O BARCO ESTÁ CHEIO

Refugiados empilham-se aos montes em barcos e tentam alcançar o solo europeu. A Europa, por sua vez, berço da liberdade, igualdade e fraternidade, rejeita-os: “O barco está cheio!” – dizem. Esses imigrantes ilegais acabam abandonados à própria sorte, não sem antes serem escorchados. Entregam tudo o que possuem aos coiotes do desatino. Há dias, dois cargueiros foram interceptados pela guarda costeira italiana, abarrotados de “sem papéis”. Um detalhe impressionou todo mundo: não havia tripulação a bordo de nenhuma das embarcações!

O primeiro sentimento que nos assalta é o velho choque de civilizações de que falava Samuel Huntington. Como no tempo das Cruzadas. Repudio com veemência essa posição. É curioso ver que o jornal “Charlie Hedbo” satirizava não apenas o islamismo, como também o judaísmo e o cristianismo. Sob o manto de nossas sagradas liberdades republicanas, talvez estejamos fazendo do recurso à sátira uma oportunidade de vexar aqueles “ignorantes” que temem a Deus, qualquer que seja a denominação que se lhe dê, e que não se curvam às excelências da razão ocidental, lastreada na ciência e que dispensa crendices. Goethe dizia que a melhor forma de se aquilatar o caráter de uma pessoa é ver o que a faz dar gargalhadas.

Por outro lado, o fundamentalismo e fanatismo religiosos, sejam eles islâmico, judaico ou cristão, se mostram infensos a aceitar o regime de franquias constitucionais do Estado democrático de direito como garantia a sua própria liberdade de credo. Assumem a violência como meio de vingança divina.

Se não lograrmos conceber um sistema internacional de justiça social e amplíssimas liberdades, seremos todos tragados pela barbárie. Não estamos muito longe disso, ante tanta intolerância! (transcrito de O Tempo)

2 thoughts on “Respeitamos mesmo as crenças dos outros?

  1. Cara Sandra, no reino animal, os mais fortes comem ou dominam os mais fracos.
    O ser humano, não é diferente, ou melhor é pior, por ter inteligência mais sofisticada
    do que os animais, a usa para matar, não para saciar a fome, mas para atender suas
    vaidades. A história do mundo está cheia de exemplos: A inquisição, as Cruzadas, o
    nazismo, As grandes potências invadindo covardemente países fracos, para se apoderar
    de seus bens e os fundamentalista e fanáticos religiosos implantando o terrorismo.
    Infelizmente, assim é a humanidade.

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