Respeitem a História!

Percival Puggina

Durante a maior parte do século 20 as organizações comunistas sequer cogitavam tomar o poder por outro modo que não a luta armada. A dúvida era sobre onde começá-la. No campo ou na cidade? Marx, com aquela segurança de quem julga conhecer tanto o futuro que o descreve como déjà vu, previra o protagonismo do operariado. Os fatos, também nisso, o desmentiram. Era no campo que as coisas aconteciam numa época em que aqueles movimentos não apostavam no carteado do jogo democrático. Aliás, abominavam-no. A ditadura do proletariado exigia virar a mesa e sair no braço. Por isso, desde os anos 20, planejavam e ensaiavam levantes armados.

A sirene de alarme disparou mais intensamente, no Brasil, nos anos 60, quando Fidel passou a exportar revolução. Desde então, a Guerra Fria ferveu em todos os países da região. Respirava-se revolução. Março de 1964 teve tudo a ver com isso.

Na Europa e nos Estados Unidos, a Guerra Fria se travava entre dois lados. EUA versus URSS. Pacto de Varsóvia versus OTAN. Na América Latina era pior. Era ebulição interna, fervente, no âmbito de cada país. Dê uma pesquisada na rede, leitor, e encontrará o que vários historiadores comunistas escreveram sobre aquele ânimo revolucionário. Afirmar que a esquerda foi às armas como reação à repressão inverte as relações de causa e efeito.

Os crimes cometidos pelas partes – violência, tortura, “justiçamentos”, terrorismo, seqUestros, abusos de poder e o empenho em preservá-lo por duas décadas, constrangem e revoltam. É história triste. Passado que não se pode mudar. Cabe aos pesquisadores, historiadores, jornalistas, com irrestrito acesso aos documentos, escrever essa história conforme cada um a sentir, compreender e interpretar. Mas é certo: tivessem os comunistas vencido, as 356 mortes de militantes e as 120 por eles causadas seriam multiplicadas por milhares.

VERDADE???

A ideia de instituir uma Comissão da Verdade para “efetivar o direito à memória e à verdade histórica e promover a reconciliação nacional” é disparate. Primeiro: porque a verdade não é coisa que se prometa entregar pronta e encadernada. É algo que se busca. A garantia de encontrar, portanto, é charlatanice. Segundo: porque conceder a uma só pessoa, a presidente Dilma, o poder de escolher, a ponta de dedo e caneta, seus sete auditores da História, empregando-os a soldo na Casa Civil, é – isto sim! – medo da verdade. Terceiro: porque aceitar tão unilateral encargo, assumindo-se como caminho, verdade e vida para os anais da História vale por confissão de falta de princípios. É emprestar o nome para uma farsa, em troca de dois vinténs de fama e contracheque. Quarto: por fim, o que menos interessa à Comissão é reconciliação.  Reconciliação quem fez foi a festejada Anistia. Ampla, geral e irrestrita.

Nossos governantes não incluem a verdade na lista de seus amores. A evidência dispensa prova. Preferem encomendar versões. Nada sabem sequer do que fazem. Ignoram a verdade sobre o tempo presente e tratam de transfigurá-la no próprio passado.

Com História não se brinca! Menos ainda se põe sob o braço e se sai andando com ela por aí, como se fosse coisa da gente. Não é. É História. Ponto. A nenhum partido político, a nenhum comissariado ou comissão é dado oficializá-la ao gosto ou usá-la como serventia. Ela não se presta, saibam, para transformar bandidos em heróis nem doutrinas totalitárias em faróis da democracia e do humanismo.

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5 thoughts on “Respeitem a História!

  1. Eu não entendo o porquê do medo do comunismo . a sociedade é muito mais justa. parece -me que o medo da classe alta é perder as riquezas e a cabeça. é melhor milhões viverem em igualdade do que meia dúzia com todo a riqueza da nação.
    não sou comunista mais seria muito mais feliz se tivesse nascido em cuba ou na china. lá pelos menos o corrupto civil e militar perde o pescoço e não é preciso se preocupar com bandidos, e aqui…

  2. O Regime Militar foi responsável por 356 mortes. O Governador Eleito de São Paulo (Fleury Filho), chegou neste número só num dia.Hoje morrem 100 pessoas assassinadas por dia aqui no Brasil, por falta de Autoridade.
    Quando em 1984 eu saía entusiasmado nas “Diretas Já”, meu pai me alertava:
    ” Você não gosta do Geisel nem do Figueiredo; espere só para você ver o que virá. “

  3. Estive ontem no sexto ato promovido pelo MPL. Como todos sabem, os manifestantes se reuniram na Praça da Sé e de lá partiram com destino a Prefeitura de Sp, antes de se dirigirem a Av. Paulista. Era muito grande a quantidade de pessoas e consequentemente de cartazes. Parecia que tudo que elas tinham engasgadas, tudo que estivesse preso na garganta, deveria ser escrito em um cartaz para uma espécie de catarse ( e olha que são muitas as coisas que nós temos presas na garganta). Vi e fotografei os mais variados cartazes que se possa imaginar, desde ” Datena Dentuço”, “Haddad Corno”, “Fora Dilma”, ” + Rock – música idiota”, “Não a PEC 37”, “Feliciano essa é pra vc”, “Saimos do Facebook” até os já clássicos “Fora Globo”, “3,20 é roubo” “Legalize a maconha”etc. ou seja, um verdadeiro samba-do-crioulo-doido! Tudo corria tranquilamente até um grupo não muito numeroso (não sei, talvez 12 pessoas) começou a depredar a Prefeitura. Daí virou o CAOS. Presenciei, por mais ou menos umas 2 horas, um espetáculo de vandalismo não só ao bem público como também ao privado. Além da Prefeitura, carros com vidros quebrados, uma van da Rede Record incendiada, uma guarita policial também incendiada, muros pichados etc…Pensei “agora chega o CHOQUE e TODO MUNDO AQUI VAI APANHAR”. Para minha surpresa, horas se passaram e NADA, NINGUËM apareceu. Ao perceber que o local estava se tornando terra-sem-lei, esses mesmos manifestantes começaram então a invadir uma agência do Itaú ( só não saquearam os caixas pq é preciso dinamitá-los). Pensei novamente “Nossa, agora mexeram com peixe grande, com gente errada. AGORA SIM a policia chega descendo o cacete em todo mundo”. NADA, ESTRANHAMENTE NADA!!!! Começaram então os saques as lojas em uma cena surreal onde tais elementos ESCOLHIAM as lojas que seriam saqueadas. Lojas Americanas, de operadoras de celular, joalheria, loja de roupas etc …Apareceu então um grupo de uns 20 policias que começou uma perseguição a estes manifestantes, sendo também o grupo de policiais perseguido por outro grupo de manifestantes ( creio que mais curiosos e barulhentos do que violentos, mas em um clima de guerra como aquele vai saber!)
    Sai de lá preocupado com o rumo ( ou a falta de) que as coisas estão tendo. Entendo que são inúmeras as ansiedades do nosso povo, como também são inúmeras as injustiças perpetuadas já há séculos neste país ( e ontem muitos foram a forra, mas alguns de forma violenta), porém noto que esses inúmeros anseios e a falta de foco nas manifestações ( não digo por parte do MPL que já declarou inúmeras vezes que está ali pela redução do preço das passagens) pode levar uma manifestação pacifica, que luta por uma sociedade mais justa, a um caminho também super CONSERVADOR! (É aí que quero chegar, neste limite tênue que existe). Vejo cartazes e posts no FB pedindo o impeachment da Dilma como se ela fosse uma criminosa ( Bem, de terrorista ela já é chamada há tempos), como se ela não tivesse sido eleita pela MAIORIA da população ( não estou aqui querendo protegê-la, mas goste ou não da Dilma, isso É FATO!). Vejo pessoas em demonstrações de nacionalismo piegas, cantando aquela musica coxinha “eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”, fazendo até FILA pra tremular uma bandeira nacional gigante ( eu vi isso), coisas que, como uma pessoa que não acredita em nacionalismos, em fronteiras, em raças mas sim em SERES HUMANOS me faz ter calafrios!!!! Tudo isso me deixa sim preocupado pois algo que pode ou poderia ser bacana periga transformar-se em algo tenebroso. Vale a reflexão feita ontem pela minha amiga Inti Queiroz, ao relembrar que os militares utilizaram uma suposta insatisfação da população com a política “comunista” de Jango e a sua aproximação com a URSS para justificar um golpe militar…

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  4. Dilson, deixar o país não é boa idéia; dizer que sob o comunismo a sociedade é mais justa exige reflexão. Só um exemplo: leia DIRCEU, de Otávio Cabral, depois decida.

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