Resposta ao comentarista Rafael Amoedo sobre a integridade do jornalista Carlos Chagas, que só aceitou ser assessor de Costa e Silva porque os amigos o pressionaram.

Carlos Newton

O comentarista Rafael Amoedo, que tem feito excelentes intervenções aqui no blog da Tribuna, cometeu um equívoco em relação ao fato de Carlos Chagas ter aceitado ser assessor do então “presidente” Costa e Silva em 1967.

Chagas conheceu Costa e Silva como jornalista, ao cobrir a ascensão dele à Presidência. Eram dezenas de repórteres trabalhando nessa cobertura. Nessa época, Chagas ainda trabalhava também como promotor de Justiça e já era um profissional consagrado no jornalismo, fazendo uma coluna política diária em O Globo.

Sempre foi um jornalista profissional aguerrido, tratou o general com respeito, mas sem a menor submissão. Costa e Silva, espertamente, então teve a ideia de convidá-lo para ser assessor de imprensa. Era uma forma de demonstrar aos jornalistas que faria um governo mais “aberto” do que Castello Branco e iria restaurar a democracia, convocar eleições e tudo o mais que o País ansiava.

Chagas não queria aceitar. Na redação, procurou os amigos mais chegados (Antonio Vianna de Lima, Jair Rebelo Horta e eu) e nos contou a respeito do convite. Nós três dissemos a ele que devia aceitar. Na época, estava havendo muita tortura, lembramos a Chagas que, próximo ao presidente, poderia atuar em defesa dos perseguidos políticos, poderia ajudar de alguma forma.

Lembro que reforcei a sugestão dizendo que, pessoalmente, eu não gostava de trabalhar em O Globo, devido à adesão incondicional de Roberto Marinho ao regime militar. Eu tinha vontade de deixar o emprego, mas um amigo que sofreu muita tortura na época, José Fernandes Rego, da Ultima Hora e que era muito ligado a Sebastião Nery, também torturado, me disse para ficar, argumentando que na redação do Globo eu poderia atuar burlando a censura, era melhor do que deixar a vaga para um serviçal do regime militar.

Chagas nos ouviu, ficou relutante, mas acabou decidindo aceitar. Essa é uma história que ninguém jamais contou. Você, Amoedo, não poderia saber. Antonio Santos Aquino e Carlos Frederico Alverga também não sabiam, de vez em quando criticavam o Chagas por esse motivo.

Digo mais sobre o Chagas, ele é tão digno que foi trabalhar em Brasília, mas nunca aceitou emprego público e sinecuras. Foi o único a proceder assim, entre todos os jornalistas de prestígio que foram para a capital. Sempre viveu de seu trabalho como jornalista e como professor da Universidade de Brasília, um exemplo ao vivo para seus afortunados alunos. Detalhe; todo ano ele era escolhido como paraninfo, pegava até mal para os outros professores.

Lembro que Carlos Castello Branco (o Castellinho) era considerado vestal intocável, nunca vi ninguém falar mal dele, mas na verdade era o contrário de Chagas: tinha três empregos públicos, onde não trabalhava. Era procurador do INSS (nem sabia onde ficava a repartição), funcionário da Câmara e do Senado. Na verdade, só trabalhava escrevendo a coluna no Jornal do Brasil, e tinha um padrão de vida altíssimo, porque a mulher dele era juíza.

Já vi críticas indevidas aqui no blog também a Villas Boas Correa, que também é uma pessoa da maior integridade. Nunca foi ligado ao regime militar, não merece esse tipo de questionamento.

Da mesma forma, há quem critique Helio Fernandes por ter se manifestado a favor da queda do presidente João Goulart. Ora, queriam o quê? Que Helio defendesse Jango, que mandou prendê-lo e pediu sua condenação a 15 anos de cadeia pela Lei de Segurança Nacional?

Motivo: Helio apenas publicara um documento confidencial das Forças Armadas que lhe fora entregue pelo general Cordeiro de Faria. Jango não teve coragem de punir o general, mas mandou prender Helio Fernandes e exigiu 15 anos de prisão para quem apenas estava exercendo sua profissão da melhor maneira possível.

Helio foi julgado no Supremo e ganhou a liberdade numa decisão apertada, de 4 a 3. E vocês queriam o quê? Ver Helio defendendo esse presidente “democrata” que tinha medo de militar e mandava prender jornalista? Como diz o Barão de Itararé, “era só que faltava”.

Nao tenho procuração para defendê-los, acho até que o Helio vai se aborrecer comigo por me meter nisso, mas sou assim mesmo, não aguento me omitir.

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