Retrato do mendigo, nas visões poéticas de Chico Pereira e Paulo Peres

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Foto sem autoria, reprodução do Arquivo Google

Carlos Newton

Os poetas cariocas Chico Pereira e Paulo Peres escreveram este poema em parceria, ou seja, cada um escreveu uma estrofe. Na primeira estrofe, o personagem se autodefine perante parte da sociedade que o marginaliza, enquanto na segunda estrofe esta sociedade que o marginaliza passa a utilizá-lo como objeto de promessas, quase nunca concretizadas, nos pseudos programas sociais e ridículas campanhas eleitorais.

O MENDIGO
Chico Pereira e Paulo Peres

Eu broto
igual flor suja, morta… morto…
Eu saio dos bueiros que ficam nos
cantos dos asfaltos
dos grandes centros urbanos

Eu sou o resto,
a sobra da humanidade
sou o filho do erro
ou o próprio erro

Como quem imagina, não vê,
só imagina…
Convivo com o rato
divido tudo com o rato
não tenho visão, nem tato,
audição e nem olfato

Como quem dança numa
breve manhã
como quem emana
do nada
como quem respira
o vazio
como quem espera
um assovio de ninguém…

A minha água é aguardente
a minha companhia é a solidão
a minha vida não é de gente
e a minha fome é ser cidadão
(Chico Pereira)

Eu sou o “outdoor” dos políticos
com promessas ilusionistas
de palavras equilibristas
entre tráficos sonhos trágicos.

Eu sou a sujeira varrida
para baixo dos tapetes
das calçadas, das marquises,
máscara, engano e ferida…

Sou a elite, destino trapos,
silenciosa e letal
das cidades em farrapos,
avesso cartão-postal.

Sou o limite humano
do negativo social,
escravo mundano
poema marginal.
(Paulo Peres)

One thought on “Retrato do mendigo, nas visões poéticas de Chico Pereira e Paulo Peres

  1. “O MENDIGO
    Chico Pereira e Paulo Peres
    “Convivo com o rato
    divido tudo com o rato
    não tenho visão, nem tato,
    audição e nem olfato”

    Estes versos lembram-me “o bicho de outro poeta Manuel Bandeira;
    O bicho

    Vi ontem um bicho
    Na imundície do pátio
    Catando comida entre os detritos.

    Quando achava alguma coisa,
    Não examinava nem cheirava:
    Engolia com voracidade.

    O bicho não era um cão,
    Não era um gato,
    Não era um rato.

    O bicho, meu Deus, era um homem.

    Manuel Bandeira, Rio de Janeiro, 27 de dezembro de 1947

    Em ambos os poemas encontramos o homem vivendo uma vida de miséria, confundido-se com os bichos que saem dos bueiros. Por outro lado, os politicos servem-se de pequenos outdoors com exploração dessa pobreza para se elegerem.

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