Revelações. 1- O golpe contra JK em 11 de novembro de 1955. 2- A tentativa de cassação de Lacerda. 3- Seu asilo na embaixada de Cuba. 4- A viagem no Tamandaré. 5- Idéia de um governo paralelo em São Paulo. 6- Mudança da capital. 7- Lacerda governador com 29% dos votos

É bom conversar com você sobre história e fatos, Antonio Santos Aquino. Teu conhecimento é enorme, nossas visões bastante semelhantes, embora tenhamos vivido distante, não no tempo mas nas fontes e raízes.

Em 11 de novembro de 1955, existiram dois golpes (como sempre) e não apenas um. O golpe para dar posse a Juscelino, que vencera a eleição,e outro para não dar posse a ele, alegando que não obtivera maioria absoluta, que a Constituição não exigia.

O marechal Lott dormia profundamente, não sabia de nada. Por volta de meia noite, acordou para ir ao banheiro, viu luz acesa na casa do marechal Denys, achou estranho foi ver o que era.

(Antes da mudança da capital, o Ministro da Guerra e o Comandante do 1º Exército, tinham casa oficial uma ao lado da outra. Ficavam entre o tradicionalíssimo Colégio Militar e o local onde foi construído o Maracanã. Este, nos terrenos do Derby Clube, que em 1932, presidido pelo ex-prefeito Paulo de Frontin, fez fusão com o Jóquei Clube. Surgiu então o Hipódromo da Gávea, protesto gerais, ninguém sabia onde ficava a Gávea).

Tentavam garantir a posse de Juscelino. Quem coordenava tudo eram os coronéis irmãos gêmeos, José Alberto  Bitencourth e Alexinio Bitencourth. Competentíssimos, mas como coronéis não podiam ser citados acima de generais. (Você, Aquino conhece muito bem essa nossa formação militar, coronel é coronel, general é general, estamos conversados).

Naquele momento minha posição como observador, era privilegiada.  Em setembro de 1954, já candidato a presidente (apesar do medo do seu próprio partido, o PSD) embora ainda governador de Minas, me convidou para dirigir a comunicação de sua candidatura. Me disse logo: “Helio, tenho que te dizer, não há dinheiro para coisa alguma”.

Aceitei logo, acho que pelo fato dele dizer que não havia dinheiro, e a grande vantagem, passar 1 ano conhecendo o Brasil diariamente. Muito amigo de Carlos Lacerda, considerei que devia comunicar o fato a ele. Não só pela amizade mas também porque ele já apoiava o general Juarez Távora, (Chefe da Casa Militar de Café Filho) que seria o candidato oficial.

Lacerda se levantou e me disse, até com veemência: “Você não pode aceitar, Helio, isso é inacreditável”. Respondi: “Já aceitei, Carlos, e considero que esta é a última oportunidade de evitarmos uma nova ditadura. Já tivemos uma de 15 anos, não podemos nos arriscar”.

Não nos falamos mais durante toda a campanha eleitoral. Portanto as informações sobre Lacerda não vinham dele. Nesse final de 54 e durante todo o ano de 1955, não tivemos o menor contato.

Tudo se resolveu no mesmo dia, 11 de novembro de 1955. Começou tarde, acabou às 6 horas da manhã do dia seguinte. Não havia ninguém para ordenar o ASILO de Carlos Lacerda e ele também não tinha o mínimo de condições para se EXILAR, se considerava vitorioso.

Não existia Poder algum, nem antes do 11 de novembro nem até 31 de janeiro de 1956, posse de Juscelino. Café Filho, que era vice, foi para o hospital. Segundo a ordem estabelecida pela Constituição assumiu o presidente da Câmara, Carlos Luz, que só ficou 1 dia, embarcou no Tamandaré. (O presidente então passou a ser Flores da Cunha, vice presidente da Câmara, não tiveram tempo, nem vontade de acordar o presidente do Supremo)

Agora o Tamandaré. Lacerda não se refugiou nele, fazia parte do golpe. Além de Lacerda, embarcaram: o presidente (nominal) Carlos Luz, Ministro da Marinha, Amorim do vale, Ministro da Aeronáutica, Eduardo Gomes, o Comandante da Esquadra, Pena Botto, militares e civis de projeção. Foram para São Paulo, Carlos Luz, os Ministros da Marinha e da Aeronáutica e mais Carlos Lacerda, imediatamente recebidos pelo governador Jânio Quadros.

Foi Lacerda que falou, já estava estabelecido o que iria dizer. Na verdade não disse, apenas pediu: “Governador, queremos seu apoio para formar um governo paralelo, é a forma de evitar uma guerra civil”. Nada deixa Jânio perplexo, aquilo era inacreditável, mas não demonstrou.

Espertíssimo, sentiu logo que não estavam brincando, era um presidente em exercício, ministros da Marinha e da Aeronáutica, iria “sobrar” para ele. Jânio sabia que seria presidente da República em 1960, conversou com eles “docemente”, convenceu-os, foi um alívio. (Para ele).

Carlos Lacerda ficou com medo mesmo foi depois da posse de Juscelino, aí havia Poder. Vieram os episódios militares de Aragarças e Jacareacanga, Lacerda, em 1956, resolveu ir para a embaixada de Cuba. (Era o segundo “governo” Batista, o primeiro como sargento, o de agora como marechalíssimo).

Como Lacerda era deputado e não estava presente, convenceram Juscelino que devia cassar o jornalista, ele teria que ir para o exterior. Prepararam tudo, mas como o voto era secreto, não conseguiram os dois terços exigidos pela Constituição de 1946.

Lacerda estava na embaixada de Cuba, uma casa normal, pequena, na Avenida Copacabana quase esquina de Miguel Lemos. Lacerda provocaria um drama familiar. O embaixador era extraordinário admirador de Lacerda. Sua mulher odiava Lacerda, nem descia para as refeições. Como se tornara público que o presidente Juscelino decidira abandonar Lacerda, apenas lhe tirara a televisão, e como o constrangimento não podia ser maior, Lacerda resolveu deixar a embaixada de Cuba e voltou para a Câmara.

Em 1958 foi reeleito, mas em 1960 Juscelino dava ao adversário e inimigo, um grande presente: com a mudança da capital, houve eleição para governador, Lacerda foi eleito com 29 por cento dos votos. Sem a maioria absoluta que ele exigira de Juscelino. Essa eleição mudou o destino e até a interpretação que muitos faziam de Lacerda.

* * *

PS- É preciso sempre esclarecer a história. Lacerda lutou contra a posse de Vargas por ter obtido apenas 43 por cento dos votos, a Constituição não exigia maioria absoluta. O mesmo sobre JK que teve só 36 por cento, Lacerda bem abaixo.

PS2- Juscelino e Lacerda passaram a vida se hostilizando. Juscelino mudou para a capital, Lacerda que era glorificado como orador e panfletário (que não é negativo) lembrado até hoje como o maior governador do Estado. Igual a Pedro Ernesto, o primeiro prefeito eleito do Rio

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