Rio, cidade aberta à violência e ao crime

Pedro do Coutto

Claro o título deste artigo é inspirado na obra de Roberto Rosselini, Roma Cidade Aberta, um clássico do cinema neorealista italiano, focalizando os últimos dias da ocupação nazista quando se estabeleceu uma desordem generalizada pouco antes de fechado o cerco pelas forças americanas e inglesas. Os acontecimentos trágicos verificados nos últimos dias no Rio de Janeiro conduzem à certeza de que a segurança urbana encontra-se  fora de controle. A Polícia Militar e Civil agem com vigor e enfrentam os desafios que sucedem. Mas eles são enormes. E explodem em qualquer lugar, a qualquer hora. E isso numa capital que figura entre as finalistas na disputa para sediar os Jogos Olímpicos de 2016. Uma tarefa hercúlea a de reverter o panorama terrível, lembrando o herói da primeira maratona, antes da era cristã.

Reportagem de Fábio Vasconcelos e Sergio Ramalho, O Globo de 16 de setembro, focalizou uma torrente de crimes ao longo de poucas horas. O motociclista Ricardo Wagner foi assassinado em Ipanema. A atriz Ivone Hofman e o cenógrafo José Dias assaltados em Botafogo a caminho das Urca. A professora Cinéa Cordeira apedrejada na Linha Amarela. O mesmo aconteceu, no local, com o engenheiro Marcelo Tognozi. Tiroteio intenso em Vicente de Carvalho pela manhã de quarta-feira. À tarde, tiroteio nas Vilas Pinheiro e do João, complexo da Maré. Na véspera, ladrões arrombaram e assaltaram a Escola Ane Frank, ao lado do Palácio Guanabara. Bandidos invadiram um edifício na Avenida Delfim Moreira. Poucas horas se passaram e, talvez os mesmos, invadiram um edifício no bairro de Botafogo. Um criminoso condenado e que cumpre pena foi liberado para se ausentar do presídio. Simplesmente não voltou. Uma situação de calamidade se instalou na cidade. O que dizer de tudo isso?

A insegurança foi sucedida pelo medo. O medo pelo pânico está dando lugar ao terror. Sim. Porque o que a cidade do Rio está vivendo é exatamente um quadro de terror.Os bandidos enfrentam a PM  abertamente. Às vezes tomam até a iniciativa do ataque. Estão armados. Mais do que isso, são municiados, treinados, recebem armamentos. Quando  estes são capturados, surgem novas peças de reposição de origem misteriosa. Não digo apenas quanto ao ingresso no país e na cidade. Mas a respeito da forma com que sobem as ladeiras do crime e das trilhas da morte. A repressão se faz sentir, não se pode negar. Pois caso contrário tudo estaria ainda pior. Mas ela somente não está conseguindo resolver a questão dramática. É preciso um choque de descompressão social. Como o que aconteceu, por exemplo, em Nova Iorque na administração do prefeito Giuliani. Não foi só a ordem policial que se impôs. Seus mandatos coincidiram com os do presidente Bill Clinton. Havia ampla oferta de emprego na Quinta Avenida e nas ruas centrais. Melhorou. Claro o problema lá continua. Mas perdeu intensidade.

No Rio, a cada dia ele ganha mais intensidade. O governador Sergio Cabral necessita observar todos os ângulos do problema e se fazer presente. A presença é essencial para transmitir autoridade. As forças policiais militares e civis têm que se movimentar de modo permanente. Isso porque a mobilidade sem dúvida duplica a ação de segurança. E nós estamos precisando de atuação em caráter duplo. O Rio se transformou na cidade aberta de Rosselini, 65 anos depois que a obra notável abordou a anarquia que precedeu o desespero nazista e a derrocada do nazismo.

Aqui, infelizmente, estamos descendo ladeira abaixo. Despencando em matéria de segurança. Já chegamos no último andar.

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