Roberto Marinho e Lincoln Gordon esqueceram Costa e Silva

Pedro do Coutto

Num texto brilhante publicado na Folha de São Paulo de 5 de maio, o jornalista Ricardo Melo publica telegrama enviado em 1965 ao Departamento de Estado de seu país pelo embaixador norte-americano no Brasil, Lincoln Gordon, sobre o panorama político em nosso país, a partir de conversas que manteve com o jornalista Roberto Marinho, presidente das Organizações Globo. A televisão surgia exatamente naquele ano, resultado de uma associação com o grupo Time-Life, rompida por iniciativa de Marinho cerca de dois anos depois. mas esta é outra questão.

O fato é que, lendo-se o que Gordon enviou a Washington, verifica-se que tal documento partia de pensamentos desinformados a respeito da ditadura político-militar brasileira. Lincoln Gordon, que teve participação de importância no golpe que depôs João Goulart, não revelou, segundo seu telegrama, estar por dentro da situação no Brasil. Roberto Marinho, apesar de seu poder e acesso às fontes de informação, também não. Pois caso contrário, não teria passado ao embaixador a opinião de que o rumo conduzia à reeleição do general Castelo Branco pelo voto indireto.

O que aconteceu, isto sim, foi a prorrogação de seu mandato, que, ao invés de terminar em janeiro de 66, foi estendido para janeiro de 67. Com tal fato, não houve a eleição presidencial de 65. Candidato declarado, o governador Carlos Lacerda sentiu que não era o nome desejado pelo poder militar.

OUTRO PROJETO

A ditadura tinha outro projeto. Aí resolveu romper com Castelo Branco de forma total e contundente. Roberto Marinho e Gordon esqueceram esse episódio fundamental. Ambos também omitiram o apoio total de O Globo à candidatura Negrão de Lima, oposição a Lacerda, ao governo da Guanabara. Negrão foi vitorioso, maioria absoluta dos votos.

Enfurecido, Lacerda passou a tramar contra a posse do eleito. Mais uma vez, Lacerda investia contra a posse legítima do eleito. Assim foi em 55, contra Juscelino, assim aconteceu em 61 contra João Goulart, vice de Jânio Quadros, que renunciou, assim ocorreu em 50 contra Getúlio Vargas. Lacerda, inclusive, escreveu um artigo na Tribuna da Imprensa, antes da sucessão do presidente Eurico Gaspar Dutra, dizendo que Vargas não podia ser candidato. Se candidato, não devia ser eleito. Se eleito (textual), não devia ser empossado. Se empossado, não deveria chegar ao final do mandato.

Rompendo com o governo Castelo, Lacerda abriu uma crise militar dentro do quadro crítico geral. Abalou Castelo e este, para se manter, passou a depender do general Costa e Silva, ministro do Exército. A corrente de Costa e Silva aceitou manter Castelo, mas ao preço da eleição indireta do ministro, pelo voto indireto do Congresso, em novembro de 66.

Nenhuma tendência, nenhum sintoma, nenhuma interpretação feita por Roberto Marinho e Lincoln Gordon voltou-se, em algum momento, para a hipótese de uma divisão já flagrante no sistema da ditadura militar. Gordon conduziu a Casa Branca a um universo de absoluta desinformação. Ambos esqueceram Costa e Silva e não analisaram a cisão aberta nas Forças Armadas, a partir da contradição de Carlos LacErda, de fato o grande ator trágico da política brasileira. Para comprovar o que afirmo, basta consultar a memória dos fatos. Uma sugestão que faço a Ricardo Melo.

19 thoughts on “Roberto Marinho e Lincoln Gordon esqueceram Costa e Silva

  1. Caro CN … No envio sobre Requião e TV Paulista, relato as divergências entre Castello, Costa e Silva e a tropa pára-quedista … Fui testemunha … … … As FFAA no período constitucional pós 46 refletiam nosso ambiente político partidário … Havia oficiais getulistas, juscelinistas e lacerdistas … E disputavam entre eles a favor dos líderes civis Jango, JK e Lacerda.

  2. Caro CN … Desculpas pelo comentário incompleto … oficiais JK levam a melhor garantindo a posse … oficiais Jango levam a melhor também garantindo sua posse … oficiais JK e Lacerda duvidam que Jango respeitaria as eleições previstas para 65. Lionço Ramos Ferreira

  3. Muito interessante a última frase evidenciada na figura, onde o Lincoln Gordon fala de manter o Juracy disponível como um possível candidato alternativo e “melhorar o funcionamento deste ministério (da Justiça) politicamente importante cujo atual chefe Milton Campos é um velho cavalheiro altamente respeitável mas inteiramente fora de moda (obsoleto)”…
    Terá sido nesta época que a respeitabilidade dos nossos homens públicos passou a ficar fora de moda? Uma pena.

  4. Castelo Branco:
    “Como brasileiro peço; como amigo solicito; como chefe determino; não me falem mais de prorrogação do meu mandato”. Dias depois, a prorrogação foi aprovada no Congresso (cercado por tanques, etc) … por um voto.
    A partir daí, Carlos Lacerda passou a combater os militares, pois viu frustrado seu propósito de enfrentar JK nas urnas. O ‘embate nas urnas’ – era assim que Lacerda se expressava – configurava-se como inevitável. Os muros das capitais estavam todos pichados com CL65 e JK65. Teria sido um espetáculo, o embate.
    No LP “O Caminhão da Esperança”, ouvimos as vozes de Carlos Lacerda, Raul Brunini e Afonso Arinos, denunciando o gigantesca fraude que foi a eleição de JK para presidente. Nas seções “Há 50 anos” dos jornais O Globo e Jornal do Commércio, lemos que a diferença entre JK e Juarez foi de 430 mil votos. Só em Caxias/Rio, foram descobertos 30 mil votos em JK dados por mortos e ausentes. Tenório Cavalcanti, ao votar, descobriu que já havia estado ‘votando’ oito vezes! … em JK.
    E as violentíssimas declarações de Jânio Quadros? Ele denunciou que JK e Jango haviam recebido milhões do Partido Comunista para a eleição. Tenho jornais da época, mostrando em detalhes estas denúncias nunca desmentidas.
    E o episódio … “se eleito, não tomará posse: se tomar posse, não governará”, foi dito por Lacerda em relação a JK. Lamentáveis!!! Mas bem dentro do quadro (tão podre) que existia.
    Ainda sobre Carlos Lacerda. Foi um governador extraordinário da Guanabara, sua gestão até hoje é exaltada inclusive por adversários, principalmente na área da Educação. Foi a Lisboa e Montevidéu, pela Frente Ampla, apertar as mãos de JK e Jango. O Helio Fernandes já escreveu mil colunas sobre aqueles maravilhosos momentos, quando estes líderes se encontraram e confraternizaram.
    Em Lisboa ouviu JK dizer: “Juntos, Carlos, poderíamos ter realizado tanto, pelo Brasil” … E Jango disse ter ficado surpreso com a desenvoltura (sic) com que Lacerda se expressava a respeito do desenvolvimento do Brasil.
    Caro Pedro, da maneira como as coisas estão sendo colocadas neste blog, muitos jovens estarão pensando que tudo de mal que aconteceu naqueles anos foi por culpa do Carlos Lacerda.
    O Helio escreveu (muitas vezes) que gostaria de ter visto Carlos Lacerda e Leonel Brizola presidentes da República. “Se o Brasil iria melhorar, ninguém pode garantir. Mas tudo teria sido diferente”, disse o Grande Jornalista e Super Patriota Helio.

  5. O experiente e arguto Jornalista Sr. PEDRO DO COUTTO nos mostra que os EUA, nunca entenderam o funcionamento do Poder, dentro das nossas FFAA, e que pouca ou nenhuma influência tiveram na escolha dos nomes. Tanto que em 1965, o Embaixador LINCOLN GORDON ignorava totalmente o poder do então Ministro da Guerra, Gen. COSTA E SILVA, que chefiava a chamada Linha Dura, que depois das Eleições Estaduais de 65, com a vitória de ISRAEL PINHEIRO (PSD-PTB) em MG, e NEGRÃO DE LIMA (PSD) GB, estratégico antigo DF, com isso desprestigiando a Revolução de 64, e os principais Líderes civis da Revolução de 64, CARLOS LACERDA (UDN-GB), e MAGALHÃES PINTO (UDN-MG), essa Linha Dura se amotinara e tranquilamente iria depor o Presidente CASTELO BRANCO em 1965. COSTA E SILVA convenceu-os a manter no poder, sob controle, o Presidente CASTELO BRANCO, e que no fim do Mandato em 1967, quem entrava era ele, COSTA E SILVA, como de fato aconteceu.
    É incrível que um Embaixador dos EUA, CIA, etc, não soubessem que desde a Guerra do Paraguai (1864-1870), as FFAA Brasileiras atuassem na prática como um bem organizado PARTIDO POLÍTICO NACIONAL, que em 1889 Proclamaram a República, que direta ou indiretamente controlaram toda a Política Nacional quase até hoje. O outro Partido Político Nacional verdadeiro, apareceu em 1922 e foi o Partido Comunista. Os outros Partidos, do Império e da República nada mais eram do que Agrupamentos Estaduais das Oligarquias, como praticamente até hoje.
    E isso, com atenuante, vale até hoje, e quem não entender isso NÃO ENTENDE NADA DE POLÍTICA BRASILEIRA, e sempre poderá ter surpresas.

  6. COLUNA DE HELIO FERNANDES. TRIBUNA DA IMPRENSA. 06 DE DEZEMBRO DE 2006.
    “Em plena ‘frente ampla’ (que começou na minha casa), Juscelino pediu a um amigo para fazer um almoço entre nós dois, nunca mais nos faláramos. No almoço, Juscelino me disse com a maior sinceridade: “Helio, queria te explicar que não fui eu que mandei tirar você da televisão, mas quando soube fiquei aliviado e concordei”. E acrescentou: “Helio se ponha na minha situação, era difícil aguentar você falando quase todo dia. Ainda mais, você, o Millor e o Carlos Lacerda. (os dois também censurados, JK não escondeu nada).
    PS – O mundo se transformara, nós também, nos abraçamos. Mas, reconheço, teria ficado mais furioso se Juscelino me dissesse; ‘Helio, eu não soube de nada’. Com a confissão sincera dele, não concordei, mas compreendi”.
    Eis o estadista democrata (argh!!!) Juscelino Kubitschek de Oliveira.

  7. Prezado Almério Nunes, sempre concordo com você, temos pensamentos
    semelhantes, mas no caso de Lacerda, penso diferente: Lacerda foi o civil
    cabeça do golpe de 64 e em todos os governos anteriores com exceção do
    Presidente Dutra, tentou derrubar governos eleitos, com golpes. Se a ditadura
    permitisse eleições em 65, é evidente que o Lacerda seria o preferido, neste caso
    a cassação de Juscelino seria antecipada. Os Jornais da época estavam alinhados
    com a ditadura, com exceção da Última Hora, valia tudo para desmerecer a eleição a eleição de JK, Tenório Cavalcanti era suspeito, apoiou o Lacerda nas eleições para governador contra o Sérgio Magalhães. O único beneficiado com a frente ampla, seria
    o Lacerda, por isso o Brizola condenou veementemente a assinatura de Jango em apoio
    a frente ampla. Sem dúvida, Lacerda foi um bom administrador, só se administra bem
    com dinheiro, ele foi Governador do Estado da Guanabara, que além de ser um Estado
    pequeno, tinha uma boa arrecadação e contou ainda com ajuda da Aliança para o Progresso.

  8. Caro Sr. Flávio José Bortolotto … Muito real seu escrito … … … em 64 a conspiração era geral … Até Jango na Central com reformas na MARRA … Cruzada do Rosário e Marchas da Família disputavam com Jango quem colocava mais gente nas ruas … e os militares divididos não se definiam, até que Jango quebra a HIERARQUIA ao conversar com as tropas sem a presença de oficiais … Isto ocasiona perda de apoio dos oficiais getulojanguistas, ficando estes sem apoiar Jango quando precisou.

  9. Conspirava-se, mais ninguém dava o bote … Todo mundo em posição de ataque e preparando defesa, até que o supersticioso Carlos Guedes se subleva em BH em 29/3 com apoio de Magalhães e de Alckmin, do PSD de JK … Dentro do esquema lacerdista e de Gordon, porém como ato isolado.

  10. Prezado Sr. LIONÇO, Saudações.
    Concordamos na interpretação dos Fatos de 1964. Apenas me permita informar que o Gen. CARLOS GUEDES e o Gen. OLÍMPIO MOURÃO, que desencadearam o movimento das Tropas Rebeldes, estavam de olho na Lua, não por superstição, mas por claridade que a Lua proporciona nas operações militares noturnas. Abrs.

  11. Caríssimo Nélio Jacob !!!
    Discordemos sobre o Carlos Lacerda, não há problema algum nisto. Ao contrário, só de poder contar com sua atenção ao que escrevo é uma satisfação.
    E … você é um valente BRASILEIRO !!!!
    Fique com a minha estima e admiração.
    Almério

  12. Almério Nunes, são pessoas como você que enriquecem este blog, não
    só pelo que escreve, mas o respeito a opinião contraria a sua, demonstrando
    todo seu cavalheirismo.
    Um grande abraço.

  13. Caríssimo Flávio !!!
    Novamente recorro ao HELIO FERNANDES, na sua Coluna na TRIBUNA DA IMPRENSA do mesmo dia …
    06 de dezembro de 2006.
    “Um dia fui chamado pelo coronel Olímpio Mourão Filho (ele mesmo, de 64), presidente da CTR (Comissão Técnica de Rádio). Simpático, foi logo me dizendo: ‘Helio, extraordinário teu programa, que clareza, que informação, mas você não vai falar mais’. E não falei mesmo”.
    Flávio, o que ocorria nos bastidores … ANTES de 64? Estavam armando tudo? “Estavam … quem?” Olha só a posição de Poder que tinha o Olímpio Mourão Filho. Simplesmente acabou com um programa de rádio!!! E o que dizia o Helio neste programa? Dizia que o Brasil estava sendo roubado escandalosamente, que os grupos internacionais nos exploravam, etc, e TUDO com nomes de empresas, pessoas e datas.
    É muito triste, a nossa trajetória. E … às vésperas do golpe de 64, Kennedy enviou para cá navios de guerra com aviões e munição pesada, além de soldados. No meio do caminho … veio a ordem para que retornassem à base. ELIO GASPARI conta isto com detalhes de arrepiar. Teríamos sido invadidos e bombardeados, caso necessário.

  14. É muito fácil discorrer sobre quem já morreu. Os mortos não têm como se defender. Eu defendo a volta da Macha com Deus pela Liberdade. E o envio dos comunistas a Cuba, sem passagem de volta.
    Cadeia para os petistas corruptos. Idem, tucanos. Jango foi justamente derrubado porque vivia cercado de comunas por todos os lados.
    E os pelegos instalados no Poder só sabiam mamar, sem trabalhar.
    Hoje, há blogs limpos e sujos. Os sujos recebem dinheiro de fontes imundas.
    Que venham os milicos pra poder ordem na casa.
    Antes que Roma pegue fogo.

  15. Prezado Sr. ALMÉRIO NUNES, Saudações.
    O Gen. OLÍMPIO MOURÃO FILHO era conterrâneo do Presidente JUSCELINO KUBITSCHEK, de Diamantina-MG. Foi colocado a dedo pelo Presidente JK, na Comissão Técnica de Rádio, antigo DENTEL, para rigorosamente proibir a presença dos grandes Jornalistas Sr. HÉLIO FERNANDES e Sr. CARLOS LACERDA, no Rádio e na TV Brasileiros, e cumpriu a risca o Mandado. Mais um dos “truques do extraordinário e democrático Presidente JK”.
    O fato do Presidente LYNDON JONHSON dos EUA, de enviar para o litoral do Brasil, uma Força-Tarefa Aero-Naval, em 1964, é mais uma prova de que os EUA estavam completamente “por fora” de como funcionam as FFAA BRASILEIRAS, experientes de mais de 120 anos em operar na Política do Brasil, e até hoje. Absolutamente isso não influiu em nada.
    O que sim foi fatal, foi a total quebra da Disciplina e Hierarquia das FFAA Brasileiras, executadas pelo Presidente JOÃO GOULART. Um Presidente que tem todo o interesse em preservar a Lei & a Ordem, principalmente a Disciplina e Hierarquia Militar, quando faz o que o Presidente JOÃO GOULART faz com sua Política com os Sargentos, aí não tem mais volta. Abrs.

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