Roteiro do caos

Carlos Chagas

Fechou-se mais uma porta para Dilma Rousseff escapulir da crise, melhor dizendo, de perder o mandato. Ao enviar ao Senado o pedido de recondução do Procurador Geral da República, Madame cumpriu seu dever  ético para com o Ministério Público. Rodrigo Janot foi o mais votado na corporação. Só que a presidente perdeu razoável chance de evitar a incorporação do Senado à Câmara, em vias de dar andamento ao inevitável processo de impeachment. Porque Renan Calheiros já havia transmitido seu recado de autodefesa, na terça-feira: se Eduardo Cunha instaurar o processo, não haverá como ele se esquivar da tramitação. Afinal, Congresso e Procuradoria estão em pé de guerra, esperando-se para os próximos dias que Cunha e Renan venham a ser denunciados por Janot como envolvidos no escândalo da Petrobrás, além de pelo menos trinta e cinco senadores e deputados. Com outro Procurador, talvez as denúncias fossem proteladas ou esquecidas.

A revanche dos dois presidentes será o sacrifício de Dilma. Traduzindo: impedir a recondução de Janot seria mecanismo para ela  continuar  no palácio do Planalto. Como optou por preservar o compromisso de respeito à opinião do Ministério Público, sofrerá as consequências. Obviamente se o Tribunal de Contas da União ou o Tribunal Superior Eleitoral vierem a pronunciar-se pela existência de crime de responsabilidade da chefe do governo, seja ao rejeitar suas contas de 2014, seja pelo uso de dinheiro podre na recente  campanha presidencial.

Rodrigo Janot parece o único a salvar-se do incêndio. Dilma, Eduardo Cunha e Renan Calheiros, além de outros, correm o risco de perder o mandato. Michel Temer não se livrará da suposição de haver saltado de banda na hora final, visando galgar o poder. O Congresso continuará nas profundezas, mesmo afastando a presidente. O PT se desmancha no caos e na impossibilidade de respaldar o governo. O Lula se perderá na corrente pelas críticas permanentes que faz à performance da sucessora. O PMDB dificilmente ressurgirá das cinzas da fogueira dos presidentes da Câmara e do Senado.

Como a economia só faz despencar, adeus Joaquim Levy, ignorando-se quem um hipotético novo presidente da República indicará para tentar evitar a bancarrota. Até porque, sabemos que  Michel Temer assumirá,  no caso da  prevalência da tese do Tribunal de Contas da União,  atingindo apenas Dilma, ou se perderá a oportunidade para   alguém  ser escolhido em novas eleições, diretas ou pelo Congresso, se o Tribunal Superior Eleitoral considerar anulado o pleito que deu a vitoria à dupla hoje no poder.

Em suma, em toda a História da República raras vezes se viu confusão igual, um enigma envolto por um mistério, cercado por uma charada. Como estamos no Brasil, pode até não acontecer nada dessas variadas hipóteses, continuando tudo como está, ou quase, pois os panelaços dão a impressão de se eternizar.

OPORTUNIDADE PERDIDA

Por uma dessas armadilhas que a tecnocracia nos prega, meu  computador grimpou na quinta-feira, não tendo transmitido aos assinantes a coluna enviada para sexta-feira.   Revelei, mas ninguém leu, que a presidente Dilma Rousseff havia manifestado a intenção de renunciar, como uma das opções para a crise. Por isso tinham vindo em seu socorro Michel Temer, Aloísio Mercadante, Joaquim Levy e outros ministros, falando em união nacional, reconhecendo erros e prevendo dias ainda piores.

Pois não é que por inconfidências de fontes provavelmente gêmeas, ontem fui ultrapassado por um querido amigo, comentarista de bem maior quilate, que divulgou igual informação. Fica minha frustração diante dessa diabólica parafernália eletrônica.

One thought on “Roteiro do caos

  1. “ou se perderá a oportunidade para alguém ser escolhido em novas eleições, diretas ou pelo Congresso, se o Tribunal Superior Eleitoral considerar anulado o pleito que deu a vitoria à dupla hoje no poder.”

    O Sr. Carlos Chagas segue a mesma visão que tenho. O TSE deve anular a eleição, caso os votos da chapa PT/PMDB sejam anulados e convocar novas eleições. 😉

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