Rubens Paiva e Eunice, um casal a ser eternamente lembrado

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Eunice e Rubens Paiva, antes do golpe militar de 64

Sebastião Nery

Era 20 de janeiro de 1971, feriado, dia de São Sebastião, padroeiro do Rio e meu. Antes das dez da manhã, a caminho da praia, parei o carro em frente à casa do deputado do PTB paulista, cassado, Rubens Paiva, na Avenida Delfim Moreira, Leblon, Rio. Minha filha, colega da filha dele, desceu para pegar a amiga. Mandei um recado:

– Diga ao Rubens que não entramos porque estamos todos com roupa de praia. Quando voltarmos, passaremos aqui para dar-lhe um abraço.

Ela subiu, demorou um pouco, desceu com a Malu e me perguntou:

– Você brigou com o tio Rubens?  Ele estava no quarto, calçando o sapato, com três homens de paletó e gravata.

Fiquei calado. Vi quatro suspeitas kombis brancas em torno da casa, com varias pessoas dentro, olhando estranhamente para nós. Quando chegamos à praia, disse à minha mulher :

– Estão prendendo o Rubens. Aquelas kombis estão sem placas.

ERA A AERONÁUTICA – Não fiquei tranquilo. Apressamos o banho de mar e na volta já ninguém chegava mais perto da casa cercada, com a avenida fechada. Parei mais adiante e o porteiro de um prédio próximo me contou:

– É a Aeronáutica prendendo um cara daquela casa.

Voltei rápido e aflito. Era preciso espalhar urgente a notícia. Mal entramos em casa, ali perto, na Marquês de São Vicente, toca o telefone:

– Minha filha está com vocês?

– Está, sim. O que aconteceu?

– Cuidem dela.

E desligou. Era Eunice, mulher do Rubens, que seria presa a seguir.

ZÉ APARECIDO – Peguei o carro, fui correndo à casa do José Aparecido. Na véspera, havíamos jantado lá com o Rubens. Entre outros, lá estava o Bocaiúva Cunha, também cassado e sócio de Rubens numa empresa de engenharia. Na saída do jantar, Rubens pegou um cartão (“Rubens Paiva, engenheiro civil”), escreveu dois números de telefone (“223.1512  e  227.5362”), me entregou (guardo até hoje):

– Você anda sumido, acompanho pela “Tribuna” e o “Politika”. Vamos conversar. Passe lá amanhã para um uísque. É dia de seu padroeiro.

Eu o conhecia desde 1953. Em 1962, nos elegemos, ele deputado federal por São Paulo, eu estadual pela Bahia. E nos encontrávamos nas lutas do governo Jango. Ele foi diretor do “Jornal de Debates” e cassado na primeira lista do golpe militar de 1964, por ter feito parte da CPI do IBAD, que denunciou inclusive o farsante do Lincoln Gordon, embaixador dos Estados Unidos no Brasil. Em 1965, Rubens assumiu a direção da “Ultima Hora” de São Paulo, onde vivi um ano clandestino e trabalhei escrevendo anonimamente.

AVISAR OS AMIGOS – Foi uma noite desesperadora. Com Aparecido, tomando todos os cuidados, fomos à casa de Bocaiúva e também à de Waldir Pires. Ninguém devia falar ao telefone, naqueles sinistros anos do governo Médici. Mas era preciso avisar aos amigos, sobretudo de São Paulo e Brasília, fazer um cerco antes do pior.

Não adiantou. No dia 21, soubemos que fora levado para o notório Brigadeiro Bournier, da Aeronáutica, e de lá entregue ao DOI-CODI do Exercito, na Barão de Mesquita.

Já no dia 23, a certeza de que tinha sido assassinado. O jornal “O Dia”, do Chagas Freitas, em manchete fraudada, com a foto de um carro queimado, dizia que “o carro que o transportava do comando da 3ª Zona Aérea da Aeronáutica para o DOI-CODI do Exercito tinha sido interceptado por desconhecidos, que o teriam sequestrado”.

Eunice Paiva, presa com uma filha e incomunicável durante 15 dias, quando saiu lutou como uma leoa. Morreu na semana passada.

7 thoughts on “Rubens Paiva e Eunice, um casal a ser eternamente lembrado

  1. Esse tal IBAD-Instituto Brasileiro de Ação Democrática, era acusado de ser uma sucursal da CIA, aqui no Brasil. Também seria a rubrica através da qual o governo e milionários protestantes estadunidenses repassavam milhões de dólares, com o objetivo de pagar pela doutrinação de uma nova fé entre nós. Ou seja: aculturar os tupiniquins, nos moldes do neocolonialismo ianque.

  2. Nunca gostei de eulogias por uma simples convicção: ninguém é tão bom ou valoroso para merecê-las. Um exemplo: se o João de Deus morresse antes da denúncia de estupro, não faltariam padres, pastores, poetas, compositores baianos com seus cacarejos, macumbeiros refinados a quem chamamos espíritas, para recomendar-lhe o céu e um busto merecido. O que todos nós merecemos como dádiva final é a terra como túmulo e silenciosa reverência.

    • -Por mais importantes que nos julguemos, nada mais somos que meros cadáveres ambulantes com prazo de validade.
      -Neste mundo de lendas e mitos, a única verdade absoluta é a morte. Pois, nem mesmo o nascer é inevitavelmente real, já que pode ser abortado. E o que vem a ser o abortamento, senão a própria morte?
      -Desde os primórdios da civilização, quem sempre predominou, foi aquele que manipulou e, sobretudo, que matou com maior eficácia. Esse sinequanon prevalecerá, enquanto o ser humano for sugestionável e, principalmente, mortal.

      PS: estes três pensamentos são da minha autoria! Ao Meritíssimo Sapo de Toga.

  3. A história pode ser farsa ou tragédia, depende do olho e da caneta.
    Os que foram perseguidos lá estavam no poder acá, e do poder para a Papuda foi um pulo, democraticamente.
    Mas vamos em frente, num futuro próximo as viúvas de Mao, Stalin e Fidel deixarão de ser carpidas.

    • As pessoas e instituições que tem as mãos sujas de sangue se confundem muito. Fazem estranhas ilações para justificar que suas vítimas poderiam ser retiradas de casa, levadas para serem bárbara e covardemente torturadas, dando sumiço em seus corpos – ato de uma vilania em qualquer lugar do planeta e em qualquer religião -, desestruturando tragicamente famílias e crianças que terão para sempre seqüelas emocionais, e como justificativas citam terrenos, imóveis, ligações pessoais de qualquer tipo, ainda que distantes, querendo fazer crer que eram representantes de Deus ou de um bem supremo na Terra, conversa velha de torturador que assim já agia na Inquisição. Ao menos a Igreja Católica assumiu seus erros quanto a isso, enquanto os mãos sujas de sangue do século passado tentam esconder o óbvio nada justificável para quem não se tornou um monstro, simplificando fatos que, somente um imbecil degradado aceitaria com justificativa para o injustificável e diabólico justiçamento que lhes trazia muito privilégio material naquelas alturas em que ocorriam. E chutando qualquer conceito divino ao espaço, pregam isso até no Natal!!!!

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