Ruptura de Bolsonaro e Mourão reflete posição militar contra o golpe do presidente

Exército rejeita qualquer investida antidemocrática de Bolsonaro

Pedro do Coutto

A reportagem de Daniel Gulino e Gabriel Mascarenhas, O Globo de domingo, matéria excelente, destacou não apenas uma profunda divergência entre o vice Hamilton Mourão e o presidente da República, mas sobretudo revelou uma tendência do Exército em rejeitar qualquer investida antidemocrática de Bolsonaro para permanecer no poder a qualquer custo, mesmo que esse custo seja a Constituição, a democracia e a liberdade.

Sem dúvida, a concretização de uma ruptura que vinha sendo desenhada há vários meses, transformou-se no fato político mais importante neste fim de semana, funcionando também como abertura de um horizonte contra a utilização das Forças Armadas para um governo que é o maior opositor dele próprio.

ENFRENTAMENTO –  A partir de agora, desta segunda-feira, os campos passarão a ser ocupados por tendências muito mais aparentes do que ocultas. Hamilton Mourão assumiu o enfrentamento de representar um plano de combate contra todas as forças antidemocráticas, estejam elas na superfície ou na sombra dos acontecimentos que irão se desenrolar.

Não é difícil prever a queda do governo que, conforme assinalou Bernardo Mello Franco em artigo ontem no O Globo, só está contando agora com o apoio de radicais da direita, isolando-se assim das demais forças existentes na política brasileira.

Por falar em radicais da direita, como os que defenderam o sequestro e a prisão do ministro Alexandre de Moraes através das fake news, vale lembrar que a Força Expedicionário Brasileira lutou nos campos da Itália na 2ª Guerra Mundial exatamente contra a extrema direita representada pelo nazismo de Hitler e pelo fascismo de Mussolini.

MARCAS NO TEMPO – A história deixa sempre as suas marcas no tempo, seja no terreno dos combates, seja nas águas profundas dos mares que afogaram mais de mil brasileiros tripulantes de navios mercantes e mistos que navegavam sob a bandeira de nosso país.

A extrema-direita nazista e fascista possui ramificações profundas na América do Sul. Tanto assim que o Brasil foi o único país do continente a declarar guerra à Alemanha e à Itália. Sofremos o afundamento de 33 navios do total de 35 torpedeados covardemente por submarinos alemães, como lembrou o general Cordeiro de Farias ao firmar um convênio com o presidente da LBA, Luís Fernando da Silva Pinto, destinado a fornecer apoio aos que integraram a nossa Marinha Mercante.

Os afundamentos começaram em 1941 com o cargueiro Taubaté nas águas do Egito no transporte comercial de cargas. Os atentados continuaram até 1944 com o afundamento do navio Vidal de Oliveira. Oito navios, entre eles o Baependi, foram afundados no litoral brasileiro. Cordeiro de Farias lembrou na ocasião o heroísmo dos homens da Marinha Mercante que não tinham à bordo sequer uma metralhadora para se defender.

COMPORTAMENTOS –  Haviam três comportamentos de comandantes de submarinos alemães. Um o de torpedear o navio e seguir em frente. Outro, o que aconteceu a um vizinho meu de Ipanema, de vir à tona e jogar água, pães e sal aos náufragos. Mas havia um terceiro, este absolutamente sinistro, que era de vir à tona e metralhar os que nadavam pela vida. O Brasil declarou à Alemanha e à Itália em 1942.

Havia integrantes do governo Vargas  que tinham simpatia pelo eixo nazi-fascista. Triste fato, mas é verdade também que na urbanização do Castelo, no Centro do Rio, Vargas inaugurou duas ruas, Franklin Roosevelt e Winston Churchill.  Não inaugurou nenhuma rua com o nome de Hitler ou de Mussolini. Mas essa é outra história.

O que surpreende na existência de radicais da direita é que os integrantes desta corrente não têm compromisso com a memória dos fatos. O que é direita hoje? É somente a tentativa de repetir uma ditadura que foi de Vargas de 1937 a 1945, mas principalmente um esforço contra o tempo para reviver os crimes hediondos que levaram Hitler ao esgoto da história universal.

RENDA DO TRABALHO – A reportagem é de Fernando Canzian, Folha de S.Paulo deste domingo e os dados são de Marcelo Neri, diretor da Fundação Getúlio Vargas para área social. Com o declínio, as classes D e E voltaram a crescer e nada menos do que 24 milhões de brasileiros e brasileiras passaram a viver com uma renda familiar inferior a R$ 1205 por mês, o que representa um rendimento per capita de somente R$ 300. Se alguém estava tentando descobrir o caminho para a fome, o resultado aí está.

Enquanto isso, Lauro Jardim, O Globo, informa que o ministro Paulo Guedes está contratando uma empresa de publicidade para uma campanha de apoio à Reforma do Imposto de Renda. Repito então a frase que ficou na névoa do tempo e que deu margem a um dos temas da campanha de JK na sucessão de 1955: “Salário não é renda”.

Saudades dos anos dourados que Jânio Quadros destruiu com a sua renúncia em agosto de 1961. Recebeu o governo democratizado e jogou fora grande parte do futuro do Brasil.

10 thoughts on “Ruptura de Bolsonaro e Mourão reflete posição militar contra o golpe do presidente

  1. Fatos históricos de fundamental importância para esclarecimento do leitor, que Pedro do Couto enumera neste artigo.
    Não é crível, o país lutar contra o nazifascismo representados por Hitler e Mussoline, os ” mitos” da segunda guerra, e agora pender para um viés golpista de direita, com apoio de milícias radicais e disseminadores de fakenews, por dinheiro, apenas uma capa ideológica para faturar alto no acirramento da crise.
    Os fatos atuais, guardam semelhança com o início da década de 60, como deixa entender o articulista atento a história. Juscelino entregou o país a Jânio Quadros, em pleno desenvolvimento, livre, democrático, após seu Plano de Metas( cinquenta anos em cinco). Pois bem, o sucessor jogou tudo pela janela, na tentativa frustada de se tornar um ditador, na famosa 171 da renúncia. Assumiu João Goulart. Sem apoio do estamento militar e do empresariado, adveio o golpe militar, em 31 de março de 1964, que durou 21 anos, findando em 1985.
    A farsa tende a se repetir agora, com outros atores. Temer entregou a presidência a Bolsonaro em 2019, mas, o clima pré -1964 está de volta, agora em 2021.
    Se pudesse e tivesse o direito de aconselhar o atual presidente, diria, que ele só tem chance de permanecer mais quatro anos, agora cada vez mais remota, vencendo nas urnas, pois um golpe clássico desferido pela cúpula militar, no Brasil, o comandante em chefe seria um general. Os exemplos de Deodoro da Fonseca, presidente da Primeira República e Castelo Branco em 1964, um marechal e o outro general, já anunciam a melodia e o enredo. Somente no regime democrático, um militar bate continência para o civil. Não vejo outra saída.

  2. Bolsonaro está cada vez mais isolado do mundo real.
    Ele se ilude com o cercadinho diário e com as motociatas.
    Ele como autêntico miliciano só mantém relações casuais em pontos de interesse específico e momentâneo.
    A excessão são seus filhos que tem o mesmo (mau) caráter de Bolsonaro.
    Depois de mais de dois anos, impossível que os comandantes militares não tenham percebido a diferença entre a pessoa e o cargo que ela DEVERIA exercer.

    • Marcos, o presidente já comentou. Porque é o único integrante do governo, que Bolsonaro não pode demitir.
      Mourão o vice e general tem opinião própria e não embarca 100% nas bravatas presidenciais.
      Ele não é falastrão, como o comentarista Eliel, aqui embaixo asseverou. O grande falastrão, fala todo dia, nos cercadinhos do Alvorada, nas motociatas e nas Lives, sem contar o Twitter.
      Mourão é discreto e seus comentários são a cereja do bolo.
      Quem discorda do presidente é logo demitido. Primeiro foi o Gustavo Bebiano, depois o general Santos Cruz, em seguida o juiz Sérgio Moro, Mandetta e uma série de auxiliares, que foram na contramão das ideias presidenciais
      Simpl s assim

  3. Ruptura só a do Bolso-Dória, o Bolso ficou na situação e o Dória foi para a oposição. O IMPASSE POLÍTICO A QUE CHEGAMOS É HISTÓRICO, CARO RK. Oxalá seja a batalha final da disputa de poder, de 131 anos, entre o militarismo e o partidarismo, politiqueiros, e seus tentáculos, velhaco$. E, cá entre nós, o melhor que poderá acontecer será a morte de ambos, militarismo e partidarismo, politiqueiro$, enquanto alternativas políticas únicas de poder, com os diabos recolhidos de volta às respectivas garrafas, como propõe a Democracia Direta com Meritocracia, levando com ele$ o conjunto da obra, a primeira, a segunda, a terceira, a quarta, a quinta… vias do dito-cujo, que já infernizaram demais as nossas vidas, com as disputas selvagens dos me$mo$, em constante estado de guerra, tribal, primitiva, permanente e insana, por dinheiro, poder, vantagens e privilégios, sem limite$, à moda todos os bônus para ele$ e o resto que se dane com os ônus. O sistema é diabólico, e, sob a égide do dito-cujo, faz-se os diabos por eleições e golpes, sobretudo, pelo poder da chave do erário, portões abertos para toda sorte de oportunistas, vigaristas, charlatões, aventureiros e aproveitadores de todas as estirpes e matizes. Depois de tudo que vc disse no seu artigo, Caro RK, vc acredita que vivemos, ou sobrevivemos, ou vegetamos, numa democracia de verdade, ou numa plutocracia putrefata com jeitão de cleptocracia e ares fétidos de bandidocracia, cercados, vitimados, reféns, súditos e escravos da democracia da ditadura partidária, consorciada e protegida por outras seis co-irmãs, militar, sindical, midiática, econômica, criminal e miliciana, que se prestam ao papel de fiéis escudeiras, comensais e milicianas da dita-cuja, que perfazem uma espécie de cortina de ferro enferrujada, inviolável e impenetrável, face às quais nós, povo, estamos completamente dominados, com já dizia o Tigrão, há cerca de 20 anos ? https://istoe.com.br/sim-no-brasil-o-crime-compensa-e-muito-ao-menos-para-os-amigos-da-corte/?fbclid=IwAR2nWiZ93kury5BVARabE0lQS5OHKieAN4AT1z2Nuhsi01erRqKlY-egPFk

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