Rússia deterá a queda do rublo e continuará a vender petróleo

Marin Katusa
Fortune, in Strategic Culture

A queda do rublo estimulou muita conversa sobre a catástrofe do país, com gente dizendo até que a nova Rússia estaria a ponto de seguir a trilha da velha URSS. Não acreditem em nada disso. A Rússia não é os EUA, e os efeitos de moeda em queda livre por lá são muito menos dramáticos do que seriam nos EUA.

Importante, para lembrar, é que a queda do rublo foi acompanhada de queda igualmente vertiginosa do preço do barril de petróleo. Mas essas duas cotações não são tão intimamente conectadas como se poderia supor. Sim, a Rússia tem economia baseada nesse recurso principal, e se ressente de qualquer abalo que o petróleo sofra. Mas seu petróleo é vendido em dólares norte-americanos em praticamente todos os pontos do mundo, e o dólar goza de considerável poder, ainda.

Significa que os produtores de petróleo russo podem vender o produto deles nesses dólares fortes, mas pagar suas despesas em rublos desvalorizados. Assim, podem fazer melhorias de capital, investir em novas capacidades, prospectar mais por menos do que lhes custaria antes de o valor do rublo ser ceifado pela metade contra o dólar. O setor permanece saudável e capaz de continuar a fornecer a parte do leão das arrecadações governamentais.

ESTATAIS

A volatilidade do rublo não afetará também a capacidade de muitas empresas russas pagarem o serviço de suas respectivas dívidas. A maior parte da dívida privada denominada em dólares a ser rolada nos próximos meses foi contraída por empresas estatais, que têm entrada estável de moeda estrangeira, das exportações de gás e petróleo.

Os consumidores russos serão atingidos, é claro, dados os altos preços dos bens importados e ao aperto que a inflação impõe aos salários. Porém, pelo mesmo processo, as exportações serão muito mais atraentes para compradores estrangeiros. Rublo barato faz crescer a perspectiva de lucros para todas as empresas russas envolvidas no comércio internacional. Além do mais, quando à atual fraqueza da moeda soma-se a sanção que impede que se importem alimentos da União Europeia, as duas forças podem eventualmente levar a um boom de substituição de importações na Rússia.

Em qualquer caso, aconteça o que acontecer, que ninguém espere que as privações inspirem tumultos nas ruas de Moscou. A popularidade do presidente Vladimir Putin já chegou à estratosfera, desde o início da crise na Ucrânia. Os russos confiam no presidente. Apertarão os cintos e não se verá nenhuma revolta contra suas políticas.

INDÚSTRIA E AGRICULTURA

Além do mais, o alto preço do petróleo durante o superciclo da commodity, combinado a uma taxa de câmbio alta, levou a um grave declínio nos setores russos de indústria e agricultura ao longo dos últimos 15 anos. Essa correlação – que os economistas chamam de “doença holandesa” – fez baixar a parte correspondente ao setor de indústria na economia russa, de 21%, para 8%, em 2000.

Quanto mais tempo o rublo permanecer fraco, porém, menos a doença holandesa dará as cartas. Moeda mais baixa significa que volta a fazer pleno sentido econômico investir na agricultura e na indústria russas. Ambos devem receber impulso real.

Baixos preços também são bons para os grandes consumidores do petróleo russo, especialmente a China, com quem Putin está construindo laços cada vez mais fortes. Se, como se espera que aconteça, Rússia e China passem a fazer transações em rublos e/ou yuan, o mecanismo aproximará ainda mais os dois países e minará mais ativamente a hegemonia do dólar em todo o mundo. Putin sempre pensa décadas à frente. Qualquer perda nas entradas de energia no curto prazo será largamente recompensada em ganhos de longo prazo das alianças econômicas que estão sendo construídas.

No desenvolvimento mais recente, o Banco Central Russo reagiu e elevou as taxas de juro para 17%. Por um lado, visa também a conter a inflação. Por outro, é resposta direta aos vendedores especuladores de curto prazo que estão atacando o rublo. Agora, terão de pagar prêmios adicionais, dado que a razão risco/recompensa aumentou. Os especuladores terão de pensar duas vezes, antes de atirar-se novamente ao ataque.

TAXAS DE JUROS

O aumento nas taxas de juro faz lembrar o modo como Paul Volcker, ex-presidente do Fed dos EUA, combatia a inflação nos EUA no início dos anos 80s. Funcionou para Volcker, quando o mercado de ações nos EUA embarcou em disparada vertiginosa. Os russos – cujo mercado foi derrubado na crise petróleo/moeda – esperam resultado similar.

Mas o mercado russo não é, nem de perto, tão importante para a economia daquele país, quanto o mercado dos EUA é importante para a economia norte-americana. Os russos não usam o mercado como os norte-americanos. Na Rússia, não há nada semelhante ao Mad Money de Jim Kramerovsky da CNBC.

A Rússia não está em vias de virar um Zimbábue. Está assentada sobre vasto superávit de moedas estrangeiras e confortável fundo de reserva de cerca de $375 bilhões. Mais que isso, tem forte razão dívida/PIB de apenas 13% e estoque gigante e crescente de ouro.

E há o relacionamento de energia entre Rússia e a União Europeia, principalmente com a Alemanha. Putin mostrou seu peso quando ‘costurou’ o gasoduto “Ramo Sul” e anunciou que faria passar as tubulações através da Turquia. Bastou anunciar, para que a União Europeia voltasse atrás e lhe desse o que ele exigia para repor o Ramo Sul no trajeto anterior. A Alemanha jamais admitirá que a Turquia converta-se em guardião da segurança energética da Europa.

CHEGOU O INVERNO

Com a chegada do inverno, a dependência da União Europeia ao gás e ao petróleo russos assumirá o centro do palco, e a interação terá, mais uma vez, influência estabilizadora sobre a Rússia.

Em resumo: por menos que a atual situação trabalhe a favor da Rússia, o país está longe da bancarrota. Com certeza os russos conterão a queda do rublo e continuarão a bombear petróleo. A economia se contrairá, mas não quebrará.

A dura realidade é que os campos de xisto dos EUA têm muito mais a temer dos preços em queda livre do petróleo, que os russos (ou os sauditas), porque os custos de produção são aí muito mais altos. Muitos dos poços de xisto dos EUA tornar-se-ão antieconômicos, se o preço do petróleo cair mais. E se começarem a fechar, será desastroso para a economia dos EUA, uma vez que o crescimento da indústria do xisto serviu 100% como base para o crescimento econômico dos EUA nos últimos vários anos.

Os que estão festejando a queda do rublo bem fariam se observassem o que se passa em outros países que enfrentam crise real de moeda, e países integralmente dependentes da economia do petróleo, como Venezuela e Nigéria, além da Ucrânia. Daí, não da Rússia, é que virão os problemas realmente graves. (artigo enviado por Sergio Caldieri)

5 thoughts on “Rússia deterá a queda do rublo e continuará a vender petróleo

  1. O articulista tangencia no problema … será problema mesmo???
    … … …
    http://www.cesarmaia.com.br/2014/12/09-de-dezembro-de-2014/ tem:

    MOISÉS NAIM (07/12): A ASSOMBROSA REVOLUÇÃO DOS PREÇOS DO PETRÓLEO!
    3. As razões para a queda dos preços do petróleo são conhecidas. O consumo de energia diminuiu, porque a economia mundial cresceu pouco e a oferta aumentou dramaticamente graças às novas tecnologias que estão sendo aplicadas, principalmente nos EUA. De 2008 até hoje, os EUA aumentaram a sua produção de petróleo em 80%. Esse crescimento supera sozinho tudo o que é produzido por cada um dos países da OPEP, exceto a Arábia Saudita.
    … … …
    http://www.jb.com.br/economia/noticias/2014/12/23/ft-lider-da-opep-promete-nao-cortar-producao-do-petroleo/ tem:

    “A Opep não vai cortar a produção mesmo se o preço do petróleo cair a US$ 20 o barril, disse o líder do cartel, ao divulgar uma dramática mudança de política que vai ter implicações de longo alcance para a indústria mundial de energia”. Foi o que noticiou o jornal Financial Times em artigo publicado nesta terça-feira (23/12). … Analistas dizem que a Arábia Saudita está lançando o desafio para todos os recursos de custo elevado do petróleo bruto — das areias petrolíferas do Canadá e o xisto americano ao pré-sal do Brasil e do Ártico — em uma tentativa de enfrentar a ameaça que eles apresentam à sua participação no mercado. Naimi disse que se o reinado reduzir sua produção, “o preço vai subir e os russos, brasileiros, e produtores americanos de xisto vão pegar minha parte”.
    … … …
    http://www.jb.com.br/economia/noticias/2014/12/27/meditacao-sobre-mercados-uma-analise-sobre-as-quedas-do-preco-do-petroleo/

    Enquanto isto em Pindorama a produção da Petrobrás continua estabilizada desde 2009!!! !!! !!!

  2. A seu modo, o texto tenta passar otimismo, mas a Russia, membro do BRICs está perto do desespero, com as incertezas das políticas macro de Moscou.
    Para muitos russos, o inverno que se avizinha poderá ser mesmo trágico… se não acontecer um cobertor chinês ou europeu que agasalhe, rapidinho, sua economia.

  3. “E se começarem a fechar, será desastroso para a economia dos EUA, uma vez que o crescimento da indústria do xisto serviu 100% como base para o crescimento econômico dos EUA nos últimos vários anos.”

    E nossa produção estabilizada desde 2009 … serviu para quê???

  4. Uma baita crise, sim.

    O país que tinha mais de US$500,0 bilhões em reservas hoje, depois da queda do preço do petróleo, as reduziu ao mesmo montante das reservas do Brasil US$375,0 bilhões.

    Este curso é, logicamente, trágico para a URSS se o preço da commoditie continuar recuando.

    É a maldição do petróleo.

  5. Está corretíssima a análise feita no artigo. A queda do rublo é o que de melhor poderia ter ocorrido para a economia da Rússia. O maior problema econômico desse país é a baixa diversificação econômica, fato que decorreu principalmente da famosa doença holandesa – causada pela produção de petróleo que sobrevalorizou a moeda por vários anos, tal qual observou o articulista. A atual desvalorização do rublo já vem representando um imenso incentivo à uma arrancada industrial e de diversificação econômica do país, que passará a elevar suas exportações e reduzir drasticamente as importações. É o caminho do desenvolvimento. O governo russo não deve, de modo algum, gastar suas importantes reservas em dólares, ouro, etc., para tentar manter o valor do câmbio, pois essa seria a pior jogada nesse momento, justamente a armadilha que os EUA querem que a Rússia caia. Basta ver o grave erro cometido pelo Brasil para manter sobrevalorizado o Real na época de FHC, erro que literalmente quebrou o país. O único problema é alguma elevação do custo de vida à população no curto prazo, mas nada de extraordinário. Bastará o governo e a população apertarem um pouquinho o cinto e logo estarão navegando em céu de brigadeiro, com elevadas taxas de crescimento. Sempre foi assim, em todos os países. Desvalorização cambial é sinônimo de crescimento e fortalecimento econômico a médio e longo prazo. A China que o diga.

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