Rússia pode inviabilizar as exportações de gás dos EUA

Kurt Cobb
Oil Price

Rússia e China assinaram dois grandes acordos de gás natural nos últimos seis meses, depois que a Rússia moveu seus interesses na direção leste, como reação contra as sanções e à crescente tensão em suas relações com a Europa, atualmente o maior mercado importador da energia russa.

Mas o movimento tem implicações que vão além da Europa. Nesse departamento tudo se conecta, e os produtores norte-americanos de gás natural podem estar assistindo ao ocaso do seu sonho de exportações substancialmente maiores de Gás Natural Liquefeito (GNL), por causa das exportações russas para o mercado chinês – precisamente o mercado que se esperava que viesse a ser o maior e mais lucrativo para o gás norte-americano.

Art Berman, geólogo especializado em petróleo e consultor – que sempre se mostrou consistentemente cético quanto à viabilidade de os EUA virem a exportar GNL – comenta, por e-mail, que o suprimento russo forçará para baixo o preço do GNL entregue à Ásia, para algo entre $10 e $11, baixo demais para que as exportações norte-americanas de GNL sejam lucrativas.

E O GÁS DE XISTO?

Mas, voltemos até um pouco antes. Os produtores norte-americanos de gás natural insistem em tentar vender a história de um renascimento energético dos EUA, que seria baseado num crescente suprimento de gás de xisto extraído de depósitos profundos – atualmente explorados mediante uma nova modalidade de fraturamento do solo por bombas hidráulicas.

O problema é que superextração e os baixos preços – agora, o preço é uma pequena fração dos $13 por mil pés cúbicos (Mcf) alcançados no pico, em 2008 – minaram a estabilidade financeira das empresas perfuradoras de gás. Eis por quê: O gás natural betuminoso, chamado ‘gás de xisto’, é em geral mais caro para produzir que o gás natural convencional.

Para o gás de xisto ser viável, o preço do gás natural teria de ser muito superior ao que é hoje – dos cerca de $4 por mil pés cúbicos, para com certeza acima de $6 por mil pés cúbicos e talvez ainda mais, para pagar os custos de extrair o gás e garantir lucros.

Mas, a esses preços, o Gás Natural Liquefeito norte-americano deixa de ser competitivo na Europa. E agora, por causa dos acordos Rússia-China para construir os gasodutos de gás natural, o mais provável é que o GNL norte-americano deixe de ser competitivo também na Ásia. E esses são os dois maiores mercados para o GNL. Sem esses mercados, nada assegura que os EUA consigam exportar muito GNL –, a menos que comecem a exportar com prejuízo…

O CUSTO É ALTO    

Aí, pois, está o problema: Para converter o gás natural norte-americano em gás liquefeito, metê-lo em navios tanques especialmente construídos para esse tipo de transporte e enviá-lo para Europa ou Ásia, o custo não será inferior a $6 por mil pés cúbicos. Se o custo do gás norte-americano for de $6 por mil pés cúbicos, o preço total do GNL dos EUA entregue será o custo do gás mais o custo da conversão, do embarque e da viagem, quer dizer, algo em torno de $12 por mil pés cúbicos.

O mais recente preço de GNL entregue na Ásia, como informa a Federal Energy Regulatory Commission, foi de $10,10 por MMBtu para a China; $10,50 para Coreia; e $10,50 para o Japão. Para a Europa, os números são até mais moderados: $9,15 para a Espanha; $6,60 para o Reino Unido; e $6,78 para a Bélgica (todos os valores expressos em dólares norte-americanos).

Esses números refletem, provavelmente, preços de momento, não contratos de longo prazo, e estão baixos porque a demanda de energia é menor, o que pode ser resultado da economia mais lenta na Ásia e na Europa.

Mas, sim, são suficientes para mostrar como será difícil para o GNL norte-americano competir no mercado mundial. Os preços do GNL melhorarão, mas, de modo geral, compradores de GNL assinam sempre contratos ‘custo-mais’. Nos EUA seria o custo Henry Hub do gás natural (negociado na New York Mercantile Exchange) mais o custo da liquefação e do transporte. Sem qualquer garantia de que o gás Henry Hub permaneça no preço atual (cerca de $4) – e muitos indícios de que não permanecerá –, no longo prazo, é difícil ver como poderia haver compradores de longo prazo para o Gás Natural Liquefeito norte-americano.

E OS 14 TERMINAIS?

Fica-se sem saber, até, quantos, dos 14 terminais propostos para exportação de GNL norte-americano chegarão a ser realmente construídos.

Depois desse longo circunlóquio, permitam-me voltar aos gasodutos russo-chineses para gás natural, e a significação que têm nesse drama.

A Gazprom, a gigante russa do gás natural que realmente entregará o gás, estimou o primeiro negócio, em maio, em cerca de $10,19 por MMBtu. O segundo negócio ainda não teve valor anunciado, mas um analista que consultei acredita que os chineses cobrarão cerca de $8 por MMBtu. Ainda que os chineses acabem por aceitar preço próximo do primeiro negócio, cerca de 17% da oferta de gás natural chinês estará chegando da Rússia, quando os gasodutos estiverem completados, daqui a vários anos. E isso, pode-se dizer, ancorará o preço do GNL chinês importado entre $10 e $11 por MMBtu – preço baixo demais para ser confiavelmente lucrativo para os exportadores norte-americanos de GNL.

PREVISÕES EXAGERADAS

A implicação é que os preços soft de hoje para o GNL importado pela China e o resto da Ásia pode vir a ser norma geral em poucos anos, precisamente o tempo que os terminais de exportação do GNL norte-americano demorarão, até se tornarem operacionais. Assim sendo, se aparecerem investidores para financiar a construção daqueles terminais, e se os gasodutos russo-chineses forem completados, o mais provável é que aconteça destruição de capitais em proporções épicas, do lado norte-americano do oceano Pacífico.

Há outras razões para não acreditar no futuro dos EUA como exportador de gás natural. As róseas previsões da indústria e do Departamento de Estado dos EUA para Energia, sobre produção doméstica de gás natural a partir do xisto, podem ter sido superexageradas, conforme se lê num novo relatório assinado pelo mesmo analista que previu a degradação massiva dos preços do óleo recuperável do campo de xisto de Monterey, Califórnia. Apesar da crescente produção doméstica de gás natural, os EUA continuam a ser importadores líquidos de gás natural. Importações de gás natural corresponderam a cerca de 10% do consumo nos EUA, no mês de agosto de 2014. (artigo enviado por Sergio Caldieri)

4 thoughts on “Rússia pode inviabilizar as exportações de gás dos EUA

  1. O ocidente pagará caro em breve por ter, neste momento decisivo, o bandido Barack Hussein e o pamonha do Cameron à frente do eixo US-UK. Ah sim, sem esquecer da socialistóide Merkel nas cabeças da UE.

  2. Apesar dos comentários factóides petistas sobre a matéria o que os cegos não vêem é que o mesmo efeito que afeta o gás, o de baixos preços, também afeta o pré-sal que só é viável acima de um determinado patamar. Energia é vendida como um pacote e se os russos forem ao fundo do poço com o preço do gás o óleo vai na mesma direção. Então, cuidado com a língua….

  3. Caro Kurt Cobb,

    Em conversa com a Presidanta brasileira, especialista em matrizes enegéticas, ouvi dela:

    “Na Ucrânia pagam 13 dólares o… o milhão de BTU. Mas.. 4 pra 13 dá sete.. pagam… quanto é que paga? Depois do furacão.. (Uma alma caridosa na plateia corrige a maluquice aritmética: NOVE!). Aliás 4 pra 13 dá 9.. eu tô pensando no furacão Ka.. o furacão não.. em Fugujima (sic)… Como é que chama.. no Japão.. O tsunami…”

    Caso tenham dúvida e precisem de esclarecimentos sobre o mercado de gas mundial
    entrem em contato com DILMMA VANNA ROUSSEF em Brasília.

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