Ruy Castro esquece Ruy Barbosa, Lacerda e Magalhães

Pedro do Coutto

Com o belo e leve estilo de sempre, muito agradável de ler, o jornalista Ruy Castro, em sua coluna de segunda-feira na Folha de São Paulo, sob o título sinas eleitorais, escreveu sobre políticos que tiveram obsessão de chegar à presidência da República, mas não conseguiram derrotar os fados do destino.

Citou Eduardo Gomes, que perdeu em 45 para Eurico Dutra e 50 para Getúlio Vargas: Ademar de Barros, que em 55 perdeu para Juscelino Kubitschek e nas eleições de 60 para Jânio Quadros; e Leonel Brizola que, por 16 a 15 por cento perdeu em 89 para Lula o direito de enfrentar Fernando Collor no segundo turno. Deixou no ar uma dúvida a respeito de José Serra, que perdeu para Luís Inácio da Silva na sucessão de 2002 e pode perder agora para Dilma Roussef.

Esqueceu Ruy Barbosa, derrota em 1910 e 1919, Carlos Lacerda que, embora um gênio lançou a candidatura fora na crise de 65, e Magalhães Pinto, movido por desejo ardente de chegar ao Palácio do Planalto. Mas a passagem para o poder fechou-se para ele. Vamos por etapas.

No caso de Ruy Barbosa recorro a Hélio Fernandes. Telefono para ele. Ruy teve duas derrotas. A primeira eu sabia. Para o marechal Hermes da Fonseca, em 1910. Tinha dúvida quanto à segunda. HF esclareceu. Quatro anos depois da campanha civilista de Ruy, 1914, seu nome foi levantado por seu próprio arquiadversário Pinheiro Machado, senador pelo Rio Grande do Sul. Pinheiro Machado, porém condicionava seu decisivo apoio à adesão da águia de Haya, como Ruy Barbosa era conhecido, à tese da reforma da Constituição de 1981, de cujo texto fôra o principal redator. Ruy não aceitou a exigência e rompeu. Wenceslau Brás foi eleito.

Em 1918, Rodrigues Alves foi eleito presidente, Delfim Moreira na vice. O presidente morreu, Delfim Moreira assumiu, mas não completou o mandato. Foram convocadas eleições em 1919. Ruy Barbosa concorreu, mas perdeu para Epitácio Pessoa. Redator-chefe do Jornal do Brasil, do Jornal do Commercio e do Paiz, jornal que ficou no passado, Ruy Barbosa morreria em março de 1923.

Deixando Ruy Barbosa e voltando a Ruy Castro, excelente escritor, mestre em biografias, omitiu Carlos Lacerda. Lacerda tinha verdadeira obsessão pela presidência da República. Em 65, sua candidatura foi lançada pela UDN para o pleito que não houve em 66. Em 65, seu candidato ao governo da Guanabara, Flexa Ribeiro perdeu para Negrão de Lima. O presidente era o general Castelo Branco, primeiro do ciclo ditatorial que só se encerrou em 85. Lacerda rompeu com ele e se envolveu num movimento contra a posse de Negrão. Resultado: A crise militar que levou à edição do Ato Institucional número 2 em 27 de outubro daquele ano. As eleições presidenciais diretas acabaram aí e só retornaram em 89.

Lacerda era um gênio, mas não conseguiu derrotar um de seus grandes adversários: ele mesmo. Morreu amargurado em 77. Lacerdistas chegaram ao poder, ele não. Precipitou-se e o sonho shakespeariano evaporou.

Brizola tinha obsessão. Recusou em 63 ser vice de JK na suucessão de 65, sucessão que não houve. Se tivesse aceitado, não haveria 64. A democracia não sofreria o corte que sofreu. Perdeu por 1 ponto para Lula, em 89. Em 92, apoiou Collor no ano do impeachment. Foi um desastre. Perdeu as ruas para o PT. Concorreu a segunda vez em 94. Teve 3 por cento dos votos.

Magalhães Pinto era obsessivo em matéria de presidência. Foi lançado contra João Figueiredo nas indiretas da 79. No colégio eleitoral de 85, viu seu histórico adversário em Minas, Tancredo Neves, ser eleito presidente. Deputado, votou nele no colégio eleitoral. Dias depois, desabou atingido por um derrame cerebral. Não mais se recuperou. Chegar ao poder maior não estava no seu destino. A vida é assim.

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