Ruy Castro explica ao INSS quem foi Joel Silveira

Pedro do Coutto

Foi, sem dúvida, uma bela (e oportuna) crônica a de Ruy Castro na Folha de São Paulo de sábado sobre o jornalista e escritor Joel Silveira, cuja pensão integral que teve direito de legar não está sendo reconhecida pelo INSS. Sempre o INSS à frente das injustiças, das protelações, do não pagamento de suas dívidas, da não cobrança do que as empresas e órgãos públicos devem a ele.

Seu orçamento para este ano é de 290,2 bilhões de reais. Alega sempre falta de recursos, mas não cobra a soma fantástica de 162 bilhões da qual é credor. Encontra, através de sucessivos recursos, sempre uma forma de escapar de obrigações legais. Não consegue conter, como os jornais destacam sempre, as fraudes que explodem em seu sistema. Surpreendentemente não recorre contra elas. Mas estas são outras questões que se ocultam num labirinto de omissão e incompetência.

O fato em foco refere-se a não aceitar a condição de ex-combatente na Segunda Guerra Mundial. Joel Silveira, como Ruy Castro demonstrou, integrou a heróica FEB, Força Expedicionária Brasileira nos campos da Itália na segunda guerra. Pela Constituição de 1946, tinha direito à aposentadoria integral e deixar integralmente a pensão a seus herdeiros. Não foi o único a obter a justa vantagem. Lembro que o mesmo direito foi concedido a um ex-diretor da Coca-Cola, Roberto Baily, e ao jornalista Paulo Vidal, da Tribuna da Imprensa.

O texto publicado pela FSP tornou-se duplamente oportuno: registrar uma injustiça, destacar para as novas gerações quem foi Joel Silveira e sua importância no jornalismo. Uma figura extraordinária o autor da História da FEB. Íntegro. Jamais perdeu a dignidade. Eu me lembro que, em companhia de nosso amigo comum José Aparecido de Oliveira, fui à sua casa no Posto Seis. Rua Francisco Sá, um apartamento pequeno, entrada no centro de um bar modesto e de uma loja de ferragens. Fiquei pensando: este homem foi um dos maiores jornalistas do país. Estava em dificuldades financeiras.

Carlos Heitor Cony o ajudou conseguindo que a Revista Manchete publicasse a História da FEB em capítulos. Dias depois de nosso último encontro os jornais publicaram as fraudes em série praticadas através da direção da época do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio de Janeiro, encaixadas pelo INSS, atribuindo a condição de perseguidos políticos a diagramadores e repórteres que não haviam sofrido perseguição alguma. Uma fraude colossal. Cinicamente alguns conseguiram até que o grande Barbosa Lima Sobrinho, na presidência  da ABI, fornecesse atestados.

Os fraudadores precisavam que grandes figuras da vida brasileira os avalisassem. E integraram o rol que tentavam aposentadorias excepcionais e indenizações. Procuraram Joel Silveira e lhe ofereceram uma pensão de 18 mil reais por mês. Ele simplesmente recusou. E não permitiu sequer que os interlocutores terminassem o discurso de sedução. Muitos outros aderiram.

Joel Silveira, grande jornalista e historiador, deixou história e exemplo. Num universo pleno de Tartufos pela frente, condenam sempre companheiros que têm acesso a empregos, mas por trás do palco fazem exatamente aquilo que condenam. Esquecem algo essencial: no jornalismo, qualquer profissional pode perder o emprego a qualquer momento. Veja-se o exemplo do grande Oto Maria Carpeaux no Correio da Manhã. Demitido por Osvaldo Peralva e Newton Rodrigues. Um absurdo. Se não tivesse outro emprego, como Carpeaux iria viver?

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